O Presidente dos Estados Unidos classificou na segunda-feira os protestos dos últimos dias como “terror interno”, enquanto a polícia dispersava com gás lacrimogéneo os manifestantes concentrados em frente à Casa Branca, em Washington, que protestavam na sequência da morte de George Floyd num episódio de violência policial.

Os disparos das autoridades contra os manifestantes, que têm saído à rua um pouco por todo o país na sequência da morte do cidadão afro-americano eram audíveis ao longo dos cerca de 16 minutos de discurso de Donald Trump, transmitido pela página da Casa Branca na rede social Twitter.

Isto não são protestos pacíficos, isto são atos de terror doméstico, é a destruição de vidas inocentes. O derrame de sangue humano é uma ofensa contra a humanidade e um crime contra Deus”, considerou o chefe de Estado norte-americano numa conferência de imprensa no Jardim das Rosas.

Trump explicitou que, “nos últimos dias, a nação ficou agarrada por anarquistas” e “multidões violentas”, tendo anunciado “ações presidenciais imediatas para parar a violência e restaurar a segurança” no país.

Vou mobilizar todos os recursos federais disponíveis, civis e militares, para parar os motins e as pilhagens […], e proteger os norte-americanos que obedecem às regras”, prosseguiu Trump.

Donald Trump recomendou também “veementemente a todos os governadores” para “mobilizarem a Guarda Nacional em número suficiente para dominar as ruas”.

Se os autarcas e os governadores “falharem”, o Presidente ameaçou que não terá quaisquer problemas em mobilizar os militares norte-americanos, considerando-se um “aliado dos protestos pacíficos”.

A minha primeira obrigação enquanto Presidente é defender o nosso grande país e o povo norte-americano”, realçou Trump, durante a comunicação ao país, acrescentando que a morte de Floyd “não vai ser em vão” e que “será feita justiça”.

A última vez que foram empenhados militares nas ruas das cidades americanas, em cenário semelhante, foi em 1992 nos motins Los Angeles. 

Depois da conferência de imprensa, o Presidente norte-americano caminhou até à Igreja Episcopal de São João, localizada perto da Casa Branca, e que ficou degradada na sequência de atos de vandalismo à margem os protestos contra o racismo da noite anterior.

A chegar à apelidada 'igreja dos presidentes', onde deflagrou um incêndio na noite de domingo, Trump segurou uma Bíblia e disse que os Estados Unidos são “um ótimo país”.

A líder da Diocese Episcopal de Washington, Mariann Budde, disse à CNN estar "indignada" com o oportunismo do presidente, que se deixou fotografar junto à igreja com a bíblia sem autorização, tendo obrigado a polícia a dispersar os manifestantes com gás lacrimogéneo e balas de borracha para poder caminhar até ao edifício.

 

George Floyd, um afro-americano de 46 anos, morreu em 25 de maio, em Minneapolis (Minnesota), depois de um polícia branco lhe ter pressionado o pescoço com um joelho durante cerca de oito minutos numa operação de detenção, apesar de Floyd dizer que não conseguia respirar.

Desde a divulgação das imagens nas redes sociais, têm-se sucedido os protestos contra a violência policial e o racismo em dezenas de cidades norte-americanas, algumas das quais foram palco de atos de pilhagem.

Pelo menos 5.600 mil pessoas foram detidas e o recolher obrigatório foi imposto em várias cidades, incluindo Washington e Nova Iorque, mas diversos comentários do Presidente norte-americano, Donald Trump, contra os manifestantes têm intensificado os protestos.

Os quatro polícias envolvidos no incidente foram despedidos, e o agente Derek Chauvin, que colocou o joelho no pescoço de Floyd, foi detido, acusado de assassínio em terceiro grau e de homicídio involuntário.

A morte de Floyd ocorreu durante a sua detenção por suspeita de ter usado uma nota falsa de 20 dólares (18 euros) numa loja.

Biden acusa Trump de usar militares contra norte-americanos

O candidato democrata à Casa Branca Joe Biden acusou o presidente dos EUA de usar as forças armadas "contra os americanos" e gás lacrimogéneo contra "manifestantes pacíficos".

Ele está a usar as forças armadas dos EUA contra os americanos. Ele está a usar gás lacrimogéneo contra manifestantes pacíficos e a disparar balas de borracha. Para uma foto", publicou o ex-vice-presidente dos EUA na rede social Twitter, após a visita surpresa de Donald Trump à igreja icónica junto à Casa Branca.

 

Biden reuniu com cerca de uma dúzia de líderes afro-americanos, em Wilmington, Delaware, antes de partir para Los Angeles, Atlanta, Chicago e St. Paul, onde se encontrará com os autarcas destas cidades particularmente fustigadas por ações de violência ligadas às manifestações de protesto contra a morte de George Floyd, o homem negro que morreu sob custódia policial.

O ódio simplesmente não se esconde. Não desaparece. Quando alguém no poder que respira oxigénio para o ódio debaixo de pedras, o ódio emerge das pedras”, disse Biden, no encontro com os líderes negros, repetindo as críticas ao seu rival e Presidente, Donald Trump, a quem acusa de instigar à violência, com mensagens na rede social Twitter.

Se for eleito, Biden diz que procurará soluções para o “racismo institucional” e prometeu criar um órgão de supervisão policial, logo nos primeiros dias do mandato.

Trump tem criticado Joe Biden acusando-o de ser cúmplice de muitos dos que estão pode detrás das cenas de violência que há uma semana assola mais de 70 cidades norte-americanas, obrigando vários governadores estaduais a ativar a intervenção militarizada da Guarda Nacional.

O povo do sonolento Joe Biden é tão de esquerda radical que está a trabalhar para tirar os anarquistas da cadeia”, escreveu Trump na sua conta pessoal do Twitter.

 
Cláudia Évora / BC/com Lusa - atualizada às 08:20