Depois de meses de provocações acesas e trocas de acusações, algumas embaraçosas para qualquer político que ambiciona chegar à presidência dos EUA, o último debate entre os dois candidatos à Casa Branca, Hillary Clinton e Donald Trump, revelou dois candidatos mais sóbrios, capazes de discutir política e economia à séria.

Realizado na cidade conhecida como o parque de diversões da América, Las Vegas, a “brincadeira” foi reduzida a um mínimo, se compararmos as intervenções com as dos debates anteriores. Claro que os temas polémicos, como as declarações de Trump sobre as mulheres e os e-mails de Hillary, estiveram lá, mas receberam menos atenção do que em outras ocasiões. Desta vez, os temas que realmente interessam à política dos EUA ganharam ênfase, espaço, e até a questão da Síria esteve em destaque.

Como dois alunos que se preparam para ir a exame no final de um ano de estudo, os dois candidatos foram questionados sobre os temas que marcaram toda a campanha, testando o seu conhecimento sobre o que têm pela frente, caso sejam eleitos. Falou-se da nomeação dos juízes do Supremo Tribunal, da lei das armas, do aborto, da imigração (com destaque para o muro de Trump), de impostos, de planos para o crescimento, da dívida pública, das zonas de conflito, dos refugiados e até de armas nucleares.

As questões da nomeação de juízes e da lei das armas confundiram-se. Logo no início do debate, ficou evidente que os dois candidatos não tinham qualquer reparo a fazer a declarações anteriores: Trump acusou Hillary de querer nomear juízes que acabem com a Segunda Emenda (a que garante a posse de arma aos norte-americanos), o que a candidata democrata negou prontamente. Hillary não se opõe ao direito constitucional que permite o porte de armas, mas reiterou que tenciona limitar o acesso, citando dados que dizem que 33 mil pessoas morrem todos os anos em crimes ou acidentes com armas de fogo.

A resposta de Trump não se fez tardar e baseou-se num caso concreto: a cidade de Chicago. O candidato republicano lembrou que apesar do controlo apertado que ali é feito na obtenção de uma arma, a cidade continua a ter um elevado número de crimes violentos. Hillary ripostou e acusou Trump de estar apenas a defender os interesses de parte dos seus apoiantes, o NRA (a Associação Nacional das Armas).

O diferendo seguinte entre os candidatos deu-se quando foi introduzido o tema do aborto. Trump diz-se “pró-vida” e não gosta da possibilidade de alguém poder interromper uma gravidez “três ou quatro dias antes” de dar à luz. Hillary, pelo contrário, disse que nunca irá tomar medidas que diminuam os direitos ou punam as mulheres pelas suas escolhas.

O Governo não tem nada a ver com as decisões” de uma mulher, afirmou a candidata.

Hillary, aliás, sabia que o seu maior trunfo eram as mulheres e tentou usá-lo contra Trump. Chamou, por isso, à discussão a polémica que envolve o republicano e várias mulheres que o acusam de abusos de cariz sexual. Trump voltou a dizer que não conhecia as mulheres em questão e até conseguiu desviar o assunto, mas mais à frente, durante uma intervenção de Hillary sobre a segurança social acabaria por interromper a candidata, e perder pontos mostrando novo desrespeito, apelidando-a de “nasty woman”, que em tradução livre significa “mulher desagradável”.

No tema da imigração, Trump também não mostrou qualquer mudança no discurso. O muro na fronteira com o México continua a ser uma das bandeiras de campanha do candidato, voltando a destacar os criminosos que todos os dias levam drogas para os EUA e colocam a segurança dos norte-americanos em risco. Aqui o candidato volta a “tropeçar” e utiliza uma expressão que foi, desde logo, criticada por comentadores após o debate.

Precisamos de fronteiras fortes. Precisamos do muro, temos de expulsar os maus ‘hombres’”.

Os dois candidatos à presidência dos EUA também apresentaram propostas diferentes no campo da economia, ambas com encargos para a despesa. Trump diz que a sua estratégia vai conseguir que o PIB passe a crescer mais do que o atual 1% e quer reduzir impostos. Por sua vez, Hillary promete apenas não aumentar impostos para quem ganha até 250.000 dólares por ano, mas quer taxar os mais ricos. A candidata promete, ainda, não aumentar "um cêntimo" na dívida pública.

Na política externa, Hillary Clinton quis deixar bem claro que Donald Trump acabará por ser um fantoche nas mãos do presidente russo Vladimir Putin, lembrando que a Rússia é um dos suspeitos do ataque informático de que foi alvo o Partido Democrata. Aliás, Clinton considerou que, na conjetura atual, Trump não seria propriamente a pessoa ideal para presidente, o cargo que permite dar ordem de disparo de uma arma nuclear (decisão que, salientou, é concretizada em apenas quatro minutos).

Trump rejeitou ambas as considerações e criticou a administração Obama pelos falhanços sucessivos em conseguir resolver a questão da Síria e do Estado Islâmico.

Porém, a declaração mais intrigante do magnata estaria guardada mais para a frente, quando não afirmou que ainda não decidiu se aceitará o resultado das eleições, caso Hillary consiga vencer.

Vou manter o suspense", disse Trump em resposta ao moderador Chris Wallace.

Mesmo com frases como esta, a discussão foi a mais equilibrada entre os dois candidatos, em três debates realizados.

Segundo uma sondagem da CNN/ORG, Hillary foi quem voltou levou a melhor (terceira vitória) com 52% dos telespectadores a considerarem que a democrata venceu o debate, contra 39% que preferiram Trump.