Nunca é bom menorizar a capacidade que o real tem de nos apanhar de surpresa.
 
No caso de Donald Trump, os avisos já tinham sido muitos: a forma como obteve a nomeação republicana contra quase todos os prognósticos; o modo como foi mantendo acesa a corrida eleitoral com Hillary; o modo como sobrevivia às mais variadas aleivosias que foi dizendo no terreno de campanha.
 
Pela primeira vez, a América vai ter um presidente de cariz populista, demagógico e carismático no pior sentido do termo. 
 
Se achamos que os EUA são ótimos por terem eleito duas vezes Barack Obama, não podemos cair na facilidade de rotular os EUA de péssimos por terem escolhido agora Donald Trump.
 
O país, supostamente, é o mesmo.
 
Mas quem os elegeu são mesmo muito diferentes.
 
Trump foi eleito pela maioria branca, sobretudo a que tem menos estudos superiores, e sobretudo masculina (mas também com muitas mulheres, perto de 47%).
 
Obama tinha sido escolhido por uma coligação de minorias: jovens, negros, latinos, mulheres. 
 
Todos esses grupos preferiram Hillary a Trump. Mas não foram às urnas em quantidade suficiente e não deram a Clinton a distância que forneceram a Obama. 
 
Trump será uma espécie de anti-Obama: tem discurso anti-imigração, promete revogar a lei de cuidados de saúde.
 
O discurso de vitória denotou já uma evolução para uma certa ‘gravitas’ presidencial. Mas as ideias estão lá – e pelo menos numa fase inicial, ele vai ter que as tentar aplicar na Casa Branca.
 
Do Congresso saiu maioria reforçada dos republicanos nas duas câmaras. 
 
Que tipo de relação haverá entre os congressistas republicanos e o Presidente Trump (mais tensa ou mais próxima) é uma das perguntas fundamentais dos próximos meses da política americana.
 
A outra é qual será o futuro do Partido Democrático.
 
A derrota de Hillary Clinton acelerou essa necessidade, que já se notava. Mas não se vislumbram estrelas prontas a saltar para a arena principal nos próximos anos. 
 
Entretanto, a transição já está a ser preparada. É um dos momentos que melhor funcionam na liturgia da política americana. 
 
Obama já convidou Trump a ir à Casa Branca. Há uma equipa de transição a trabalhar há meses. Hillary demorou a aparecer, mas endereçou um grande discurso de concessão. Um dos melhores da vida dela. 
 
A eleição de Donald Trump foi uma espécie de 11 de Setembro da política americana. Mas aquele sistema vai continuar sólido e seguro. 

Germano Almeida