Os russos não são nossos amigos”, Mitch McConnell, líder da maioria republicana no Senado.

Donald Trump ameaça alterar, num espaço de tempo mais curto do que muitos imaginam, o posicionamento dos Estados Unidos nas questões decisivas deste mundo perturbador.

Na verdade, em poucas semanas, e ainda antes da tomada de posse do 45.º Presidente dos EUA, já muito mudou.

Em primeiro lugar, pela relação de estranha proximidade que Trump tem com Vladimir Putin.

Nos últimos dias, o líder russo criticou Obama por considerar que o 44.º Presidente dos EUA está a aproveitar os últimos dias da sua presidência para descredibilizar ao máximo o seu sucessor.

É certo que Trump, naquela conferência de Imprensa surreal em que insultou o repórter Jim Acosta e a CNN, até admitiu que “talvez tenham sido os russos” a fazer “hacking” durante a campanha presidencial.

Mas a promessa de falar duro com Putin não passará de mais um “bluff” do Presidente eleito, mestre em manobras de diversão.

Ver um presidente republicano a colar-se a Moscovo e hostilizar Pequim, pintando os chineses como os grandes responsáveis pela queda da indústria americana tradicional, sobretudo em estados do Midwest, chega a ser desconcertante, atendendo à posição dos republicanos desde o Presidente Nixon em política externa. 

A forma como o presidente da China se apresentou, no Forum de Davos, como o defensor do Acordo de Paris, demarcando-se das críticas do futuro Presidente dos EUA às medidas sobre as alterações climáticas é uma espécie de… mundo ao contrário: os chineses a darem lições aos norte-americanos em matérias de consciência cívica e política global?

Não era suposto. E soa estranho.

Há quem acredite que, com o tempo, a visão mais realista e prudente do futuro secretário da Defesa, James Mattis, possa prevalecer.

Nas audições no Congresso, para confirmação como futuro líder do Pentágono, o general Mattis mostrou-se muito sólido na defesa de uns EUA respeitadores das suas velhas alianças, elogiou o papel da Europa, foi crítico de posições recentes de Putin, sublinhou a importância de organizações como a NATO e a ONU e até deixou a entender que o acordo nuclear com o Irão pode ter virtudes que devem ser conservadas.

Nada a ver, por isso, com quase tudo o que Donald Trump foi arengando na campanha eleitoral e neste período de transição.

Experiente e pragmático, Mattis sabe que, no difícil equilíbrio de alianças no Médio Oriente, não se pode ser, ao mesmo tempo, tão agressivamente contra a Arábia Saudita e o Irão, como Trump tem sido até agora.

Combater o ISIS no Iraque e na Síria exige alianças mais ou menos assumidas no terreno com os iranianos. Conter a ameaça jihadista implica negociações com o regime “wahabista” de Riade.

A eleição de Trump está a gerar uma nova desordem mundial, agora que os EUA se preparam para ter um Presidente protecionista, virado para dentro, avesso aos grandes acordos comerciais e ao papel das grandes organizações internacionais.

Estado de desgraça

As reações enérgicas da Europa (Merkel, Schauble, Sigmar Gabriel, Hollande, Ayrault) e da China às mais recentes diatribes de Trump nas entrevistas dadas ao jornal alemão Bild e ao periódico inglês Sunday Times (declarações lamentáveis sobre a posição de Merkel sobre os refugiados; “respeito-a, gosto dela, mas cometeu erro catastrófico”, "Brexit foi uma excelente notícia", "mais membros da UE devem seguir o exemplo da Grã-Bretanha", "NATO está obsoleta", "fui eleito pela segurança das fronteiras e pelo comércio") provam que não haverá "estado de graça" para o Presidente dos EUA que toma posse depois de amanhã.

Neste caso, poderemos apenas antecipar um estado de… desgraça. 60 por cento de americanos também já o receiam, a olhar para as últimas sondagens.

Talvez por ignorar com prazer mal disfarçado os conselhos de pessoas como John O. Brennan, diretor da CIA em fim de mandato, que o avisou de forma direta (“Tenha cuidado com o que diz”), Donald Trump arrancará com uma expetativa baixíssima – nas últimas quatro décadas, só Jimmy Carter começou com níveis parecidos.

Reagan, Bush pai, Bush filho, Bill Clinton e Barack Obama, todos começaram os primeiros mandatos com apoio de 70 a 80% dos americanos, independentemente das votações obtidas nas urnas.

O momento atual é completamente diferente: o Presidente eleito não desperta esperança. Ganhou numa plataforma de exploração do medo. Pior do que não despertar esperança, o futuro inquilino da Casa Branca não gera confiança.

E isso, para quem ocupa um cargo político de tamanho relevância, é muito pouco aconselhável. E não augura nada de bom.

Que seja, no máximo, por quatro anos.

Pode ser que ainda haja, a 20 de janeiro de 2021, alguma coisa de positivo a preservar. Apertem os cintos e preparem-se para uma aterragem turbulenta: passar diretamente de Obama para Trump pode ser ainda mais perigoso do que possamos estar a imaginar.

Germano Almeida