A partir de hoje, o jogo muda em Washington DC.

O 116.º Congresso dos EUA terá maioria democrata na Câmara dos Representantes (235 congressistas democratas, 199 republicanos), na relação mais favorável ao partido “azul” desde o início da década de 70.

No Senado, o controlo continuará republicano, com 53 senadores “vermelhos” para 47 de tendência democrata (45 filiados democratas, mais dois independentes associados à bancada “azul”).

É a primeira vez desde que Donald Trump chegou à Casa Branca que o atual presidente americano será forçado a partilhar poder e negociar com o partido rival para conseguir aprovar o que pretende.

O ano de 2018 foi o da confirmação de um paradoxo: na Casa Branca está alguém com perfil e características exatamente opostas do que era suposto o sistema americano produzir para um Presidente.

Em 2018, Trump pisou os poderes de outros, ignorou conselhos básicos, perdeu todos os elementos credíveis que ainda tinha na sua administração. Donald foi eleito no final de 2016 com a promessa de “acabar com o gridlock” e chega a metade do seu mandato num impasse político nunca visto em Washington DC.

Na campanha prometera à sua base furiosa a construção de um muro “que os mexicanos” iriam pagar. Agora, faz chantagem com a futura maioria democrata no Congresso, exigindo financiamento milionário para a construção do tal muro (em que ficamos, Donald? Afinal são os contribuintes americanos a pagar e não o México? Isso é que é fazer um “grande negócio para a América”?)

Presidência do caos

Quem ainda não se apercebeu da verdadeira dimensão do que está a acontecer na Casa Branca em termos de perda de prestígio político e institucional, basta ler na íntegra a carta de demissão do General Jim Mattis.

A menos que se ache que é Trump sozinho que tem razão e todos os que já saíram mais os que sempre estiveram contra que estão errados. Sim, eu sei: há uma certa tendência do comportamento humano que faz com que ainda milhões de pessoas (nos EUA e fora deles) ainda caiam nessa armadilha (uns por nem se aperceberem, outros por orgulho cedo, outros ainda por deformação de caráter). Importa, por isso, olhar para os factos: um terço dos postos mais relevantes no Conselho de Segurança Nacional e no Conselho Económico Nacional estão por preencher.

Muitos lugares relevantes na estrutura política e de comunicação na Casa Branca, também.

Mas os tempos sem contestação política acabaram para Donald Trump: a partir de 3 de janeiro, os democratas tomam o controlo da Câmara dos Representantes, na sequência da maior vitória que tiveram nos últimos 40 anos em eleições para o órgão legislativo do Congresso americano.

Há 17 (isso mesmo, 17!) comissões de inquérito abertas, relacionadas com suposto envolvimento do Presidente ou gente próxima dele na interferência russa nas eleições de 2016. Já houve acusações e com a mudança política em Washington, Trump não terá, propriamente, um passeio no parque. Os EUA têm um sistema gizado para evitar ditadores, tiranos, reis absolutos e populistas.

Enquanto Donald Trump continuar a ser Presidente dos EUA, o paradoxo aberrante prosseguirá. Será apenas um intervalo, acreditem. Neste momento não parece – mas será.

Trump vs Obama: mitos a desfazer

Há uma ideia generalizada de que Donald Trump está, a meio do seu mandato presidencial, melhor do que Barack Obama estava na mesma altura e que o mais provável é que “seja reeleito em 2020”. Ora, um olhar para a realidade factual mostra-nos que sob nenhum indicador se pode afirmar tal coisa.

Trump tem neste momento 40% de aprovação presidencial (Gallup Daily Tracking Poll).

Em período idêntico, Barack Obama tinha 45%. Sondagem Quinnipiac (12-17 dezembro) afirma que 56% dos americanos consideram que o seu atual Presidente “não respeita a ‘rule of law’».

Outra sondagem, esta do Pew Research Centre, aponta para que 57% dos americanos estejam contra a insistência de Trump na construção do muro – precisamente o tema que está a levar à paralisação do governo, em Washington DC.

Estudo Marist/NPR/CBS (20 novembro/4 dezembro) vai mais longe e identifica: 56% do americanos acha que Trump deve ceder neste tema, apenas 37% defendem que insista até ao fim (nos eleitores independentes, esse número é até maior: 63% dos americanos que não se revelam “democratas” ou “republicanos” acham que Trump deve desistir da ideia do muro. Quanto a 2020, aqui vai: 40% dos americanos (CNN/Ssrs) acha que Trump deve ser reeleito (normal, é exatamente o seu grau de aprovação neste momento), mas uns muito significativos 56% considera que NÃO deve ser tem a convicção que não será. Portanto, dois anos depois da bizarra eleição, as grandes tendências mantêm-se: Trump é um presidente de fação, tem uma base fiel e mobilizada, mas minoritária. O campo para travar Trump é muito vasto – a grande questão está em saber se vai mobilizado em novembro de 2020, em torno do candidato que os democratas vierem a nomear nos próximos 18 meses.

NATO chega aos 70 em profunda crise

O novo ano marcará o 70.º aniversário da NATO – e logo em fase de total perturbação e crise identitária, quando em Washington há um líder que desdenha e insulta os aliados permanentes dos EUA e não percebe – ou não quer perceber – como o intervencionismo americano sustentou, nas últimas sete décadas, um mundo multilateral, apoiado nas grandes organizações internacionais e nos grandes acordos.

Parem só um bocadinho para pensar: qual foi o país que mais acumulou poder e influência a nível mundial nos últimos 70 anos? Voilá, os EUA!

O financiamento político, militar, social e institucional do multilateralismo fundou-se na hegemonia americana: são quem mais arrisca e são quem mais paga, sim; mas são, também, quem mais beneficia e mais prospera a longo prazo.

A conversa trumpiana de que “os outros têm que pagar mais” e que “os EUA vão deixar de ser enganados e de fazer figura de parvos” é treta demagógica e populista, que engana milhões de incautos e coloca, neste ano do 70.º aniversário da NATO, a Aliança Atlântica à beira de um ataque de nervos.

Os primeiros meses do ano até poderão mostrar uma boa notícia (Trump e Xi Jinping dão sinais de pretenderem um grande acordo americano-chinês para travar a Guerra Comercial e dar um novo impulso ao comércio internacional), mas o ano está cheio de riscos: desaceleração económica global e provável subida dos juros, a Coreia do Norte talvez não cumpra a desnuclearização; o Acordo Nuclear do Irão pode mesmo ir à vida, depois da saída americana.

Noutra efeméride particularmente simbólica que 2019 nos mostrará, assinalaremos os 30 anos da queda do Muro de Berlim – e com a ironia agridoce de ser em pleno adeus da primeira chanceler vinda do lado da antiga RDA.

Três décadas, na história dos povos, são mesmo muito pouco.

Germano Almeida