Os observadores eleitorais da OSCE acusaram, nesta quinta-feira, o presidente cessante dos Estados Unidos, Donald Trump, de “abusos flagrantes de poder” por ter exigido a suspensão da contagem dos votos antes do fim do processo.

O que verdadeiramente preocupa é que o chefe de Estado norte-americano tenha exigido o fim da contagem dos votos no meio do aparato presidencial da Casa Branca, isto é, com todos os emblemas de poder em redor, por causa de sua suposta vitória. É um abuso flagrante de poder”, denunciou o deputado alemão Michael Georg Link.

Numa entrevista publicada hoje no jornal alemão Stuttgarter Zeitung, o coordenador dos observadores internacionais da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE) reiterou que as “acusações de manipulação” feitas por Trump “não têm fundamento”.

Os nossos colegas [da missão de observação eleitoral] da OSCE, de várias cores políticas, estão no terreno e podem confirmar que tudo correu bem e que os votos por correspondência continuarão a ser contados corretamente”, acrescentou.

Segundo Link, não há “qualquer sinal de problemas sistémicos”, mas sim “um tratamento extraordinariamente profissional do fluxo de votos por correspondência”.

A OSCE teme, agora, as consequências de longo prazo para a opinião pública norte-americana do questionamento do processo eleitoral, com risco de radicalização.

A principal preocupação é a de que os Estados Unidos não se consigam livrar dos fantasmas que Trump invocou. Mesmo que admita a derrota e que deixa o cargo, como deveria, os seus partidários, incitados pela retórica, podem ver na violência um instrumento legítimo, pois já não se sentirão representados democraticamente”, disse.

“É um perigo que persistirá bem para lá do dia das eleições”, concluiu.

Já na quarta-feira, a OSCE, num comunicado assinado por Link, tinha tecido críticas à atuação de Trump, sobretudo ligadas às acusações “infundadas de deficiências sistemáticas” feitas sobre o processo eleitoral norte-americano, nomeadamente pelo presidente dos Estados Unidos, indicando que prejudicaram a confiança do público nas instituições democráticas antes, durante e após a votação de terça-feira.

“Depois de uma campanha tão dinâmica, garantir que todos os votos sejam contados é uma obrigação fundamental para todos os ramos do governo", escreveu então no documento o coordenador especial e líder da missão de observação de curto prazo do organismo europeu.

De acordo com o comunicado da missão de observação, a eleição de terça-feira foi “apertada” e “bem administrada, apesar dos muitos desafios causados pela pandemia de covid-19”.

Os observadores notaram que a campanha eleitoral nos Estados Unidos foi caracterizada por uma "polarização política profundamente enraizada, que muitas vezes obscurecia o debate político mais amplo e incluía alegações infundadas de fraude sistemática".

Na quarta-feira e poucas horas após as primeiras projeções de votos serem conhecidas, Trump denunciou uma "fraude" eleitoral sem fornecer provas e ameaçou recorrer ao Supremo Tribunal para impedir a contagem dos votos, enquanto Biden pedia paciência até obter os resultados.

Ao longo do dia, a campanha de Trump desafiou o escrutínio em pelo menos quatro Estados importantes, Wisconsin, Michigan, Pensilvânia e Geórgia.

Há meses que Trump semeia desconfiança no voto por correspondência - apesar de não haver evidências de que isso possa levar a uma fraude generalizada – e, no domingo passado, anunciou que planeava iniciar um litígio no importante Estado da Pensilvânia.

"Esta eleição ainda não acabou e permaneceremos aqui em Washington e nos principais Estados do país até que acabe", disse Urszula Gacek, chefe da missão de observação do Escritório da OSCE para Instituições Democráticas e Direitos Humanos (ODIHR).

O próximo presidente dos Estados Unidos será o candidato que conseguir pelo menos 270 delegados do colégio eleitoral.

As últimas projeções apontam para 264 delegados para Biden, contra 214 de Donald Trump, quando falta apurar quatro Estados.

As eleições presidenciais nos Estados Unidos decorreram na terça-feira, sendo os dois candidatos na corrida pela Casa Branca o atual presidente, o republicano Donald Trump, e o democrata Joe Biden.

A OSCE, com 57 membros, entre eles os próprios Estados Unidos, Rússia, Turquia e todos os países da Europa é um dos poucos fóruns mundiais de diálogo entre o Ocidente e os antigos Estados da extinta União Soviética.

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