Donald Trump considera que fez um “trabalho fenomenal” no contexto da pandemia de covid-19 e que, com Joe Biden, os Estados Unidos teriam registado ainda mais casos e mortos – o país contabiliza atualmente mais de 7 milhões de casos e supera os 200 mil mortos. 

Se o tivéssemos ouvido [para Biden], o país tinha ficado aberto, milhões de pessoas teriam morrido. (…) Nós fechámos o país, vocês achavam que não devíamos fechar o país. (...) O [Anthony] Fauci [imunologista] disse que o presidente Trump salvou milhares de vidas (...) especialistas disseram que eu fiz um trabalho fenomenal…”, afirmou Trump.

Foi desta forma que o presidente norte-americano e candidato do Partido Republicano à Casa Branca avaliou o seu desempenho na gestão da pandemia durante o debate que o opôs ao candidato do Partido Democrata, esta terça-feira, que decorreu na Universidade Case Western Reserve, em Cleveland, Ohio.

Na resposta, Biden disse que o presidente dos EUA não tem e nunca teve um plano para gerir a pandemia, lembrando a revelação feita num livro do jornalista Bob Woodward: de acordo com esta publicação, o presidente norte-americano admitiu que foi informado sobre a "doença mortal" e que não divulgou o que sabia para não “causar o pânico”.

O presidente não tem um plano, ele sabia que esta era uma doença mortal, está registado, ele disse que não queria causar o pânico. (…) Ele ainda não tem um plano”, frisou Biden.

Sobre uma eventual vacina - Trump tem vindo a prometer que uma vacina estará pronta até ao final do ano - Biden vincou que as próprias farmacêuticas apontam para que a distribuição de uma vacina, caso exista, só aconteça no início do próximo ano. E a este propósito, o candidato democrata olhou diretamente para a câmara – uma postura que repetiu várias vezes ao longo do debate -  e perguntou aos espectadores se acreditavam em Trump, acusando-o de várias “mentiras”.

Vocês acreditam, por um momento, no que ele está a dizer, à luz de todas as mentiras que ele disse sobre a covid-19?”, questionou.

Ainda relativamente ao quadro da pandemia, Trump foi questionado pelo moderador, o jornalista Christopher Wallace, da Fox News, sobre a utilização da máscara, uma medida de combate ao vírus que, incialmente o presidente desvalorizou. Trump afirmou que usa máscara sempre que achava necessário, mas não perdeu a oportunidade para fazer troça do opositor. “Eu uso a máscara quando é necessário, não uso como ele [Biden] usa. Ele pode estar a 60 metros de mim e continua a usar máscara.”

Por sua vez, Biden fez questão de sublinhar que “as máscaras fazem uma grande diferença” e que estudos indicam que “se toda a gente usar a máscara” podem-se salvar “milhares de vidas”.

Trump diz que pagou milhões de dólares em impostos

Um dos temas mais aguardados neste duelo era a polémica em torno da declaração de impostos de Trump. Recorde-se que, segundo uma investigação do The New York Times, o presidente norte-americano não pagou impostos em 10 dos últimos 15 anos e, em 2016, ano em que foi eleito, pagou apenas 750 dólares, pouco mais de 600 euros.

Ora questionado sobre este assunto, Trump não foi claro: por um lado respondeu que pagou “milhões de dólares” em impostos, mas por outro, disse que, como empresário privado, fez o que todos os homens de negócios fazem, que é recorrer às leis existentes para pagar o menos possível de impostos.

Apesar de não se ter demorado muito neste tópico – porventura não tanto quanto os especialistas previam dadas as repercussões da investigação do Times -, Biden notou que o republicano pagou menos impostos que a maioria dos professores norte-americanos e atirou: “É o pior presidente que a América já teve”.

As "divisões raciais" e os "super predadores"

As tensões raciais e a violência policial que têm marcado a agenda política norte-americana nos últimos tempos foram outro dos pontos-quentes deste confronto. Biden acusou Trump de "gerar divisões raciais" e considerou que o seu mandato foi desastroso em relação à comunidade afro-americana.

Este homem tentou gerar divisões raciais, o que ele fez foi um desastre pela comunidade afro-americana."

O candidato democrata considerou que "há uma injustiça sistémica neste país" e, referindo-se particularmente à violência policial, disse que "a maioria dos policias são bons", mas que "há maçãs podres e essas maças têm de ser retiradas".

Trump, por seu turno, acusou os democratas de chamarem os jovens negros de "super predadores", numa referência a uma expressão usada por Hillary Clinton em vídeos que se tornaram virais nas redes sociais, e concluiu que é por isso que está a obter melhores resultados junto da comunidade afor-americana.

Ainda dentro deste tema, mas abordando já os índices de criminalidade e os "problemas dos subúrbios", o republicano disse que Biden não quer a "lei e ordem" para não perder a "esquerda radical".

Ele não quer dizer lei e ordem porque vai perder a esquerda radical, mas com lei e ordem os problemas dos subúrbios acabavam", acrescentou.

Antes, falou-se da sucessão no Supremo Tribunal. Após a morte de Ruth Bader Ginsburg, Trump nomeou a conservadora Amy Coney Barrett, numa decisão que foi muito criticada por Biden. O democrata defendeu que a administração de Trump devia ter esperado pelo resultado das próximas presidenciais para que os cidadãos americanos tivessem uma "palavra a dizer".

Os americanos têm uma palavra a dizer sobre o Supremo Tribunal. Estamos a meio de uma eleição, milhares de pessoas já votaram, devíamos esperar e ver como é que as eleições vão decorrer. (...) É a única forma de os americanos terem uma palavra a dizer", vincou.

Por seu turno, Trump reiterou que os republicanos têm o direito de escolher e, caso os papéis estivessem invertidos, os democratas teriam agido da mesma forma.

Nós ganhamos as eleições(...) nós temos uma nomeada excelente, boa em tudo, tem vários apoios de liberais, vai ser fantástica. (...) Vencemos as eleições e temos o direito de a escolher. (...) Os democratas teriam feito o mesmo", frisou Trump.

Debate marcado por ataques e insultos, que deixou política externa de fora

Num debate muito crispado, que durou uma hora e trinta minutos, Trump interrompeu várias vezes o opositor e o próprio moderador, o que levou Biden a deixar escapar um insulto pouco habitual neste tipo de debates: "É difícil falar com este palhaço", desabafou, corrigindo, de imediato, a palavra para "pessoa". 

De resto, a impaciência de Biden foi notória perante as interrupções de Trump: "Por favor pode fazer o favor de se calar?", atirou o democrata, noutra altura, visivelmente irritado.

E depois de o presidente norte-americano ter levado para o confronto os problemas de drogas do filho do candidato democrata, o antigo vice-presidente de Barack Obama acusou o líder norte-americano de ser o "cãozinho de Putin".

Este primeiro debate entre os dois candidatos à presidência dos Estados Unidos foi aceso e com várias trocas de acusações, mas  deixou questões importantes de fora como a política externa, nomeadamente as relações com a China, a Rússia e a Europa. 

As eleições presidenciais norte-americanas acontecem a 3 de novembro, numa altura em que a sociedade norte-americana está profundamente polarizada. 

As sondagens nacionais dão uma vantagem de sete a oito pontos percentuais a Biden, mas, no sistema eleitoral norte-americano as previsões são, como se sabe, difíceis de traçar: o sufrágio é indireto e cada um dos 50 estados tem um peso diferente nas eleições, dependendo da sua população.

Sofia Santana