Será um inverno sem generais para Donald Trump: já tinha perdido o general John Kelly, como ‘chief of staff’, perde agora o general Jim Mattis, que em fevereiro abandona o Pentágono.

Jim Mattis, o experiente e credível general que chefiou o Pentágono na primeira metade da Presidência Trump, bateu com a porta – e a partir de agora não dá mesmo para acreditar que “Donald Trump tem lá na Administração quem o faça chegar à razão”.

A carta de demissão do ainda Secretário de Defesa dos EUA é simplesmente arrasadora para Trump: “Sr. Presidente, porque tem o direito de ter um Secretário da Defesa com posições e opiniões mais alinhadas com a sua… acredito que o passo mais certo a dar neste momento é o de abandonar este cargo (...) Enquanto os EUA continuam a ser a nação indispensável no mundo livre, não podemos proteger os nossos interesses ou servir esse objetivo sem manter alianças fortes e mostrar respeito por esses aliados". General aposentado do corpo de Fuzileiros Navais, antigo líder do Central Command (estrutura que coordena todo o complexo militar americano), James Norman Mattis chefiou várias operações militares norte-americanas nas mais diversas regiões do mundo e foi Comandante Aliado Supremo de Transformação da NATO durante três anos, no primeiro mandato de Barack Obama.

Sempre defendeu a importância dos EUA marcarem a sua presença militar no Afeganistão e na Síria e foi fundamental para que Donald Trump, no verão do ano passado, recuasse na sua decisão de retirar por completo as tropas americanas no cenário afegão.

Mattis foi, nestes dois anos, decisivo para evitar o pior em várias tentações disparatadas de Trump: uma suposta intervenção americana na Venezuela de Chavez; um eventual regresso dos EUA a práticas de tortura (o general lá explicou ao Presidente que não era admissível a América, enquanto país, ir por aí…). Jim sai agora em completa discordância da decisão abrupta e mal explicada do Presidente de retirada total dos efetivos americanos na Síria, temendo que isso seja um livre passe para que Putin faça o que quiser com o seu amigo Assad. E criticando duramente o modo como Trump maltrata aliados permanentes dos EUA e se aproxima e elogia ditadores ou líderes autoritários.

Nestes primeiros dois anos da mais bizarra, instável e perturbadora administração americana das últimas décadas, Mattis foi – com o general HR MC Master, antigo Conselheiro de Segurança Nacional, o general John Kelly, ex-chief of staff, Gary Cohn, antigo Conselheiro Económico Nacional, e Rex Tillerson, antigo Secretário de Estado – um dos poucos “adultos” que conseguiam travar as diatribes do “miúdo” na sala: Donald Trump, ele mesmo.

Já não resta ninguém credível

Ora, se olharmos com atenção, já não resta ninguém: Tillerson já não chefia o Departamento de Estado e tem andado nos últimos meses numa troca de palavras azedas com o Presidente, estando agora a chefia da diplomacia americana entregue ao “falcão” Mike Pompeo; Kelly acaba de bater com a porta, confessando “alívio” por abandonar o “pior emprego” que alguma vez teve; Cohn saiu em março, em total desacordo com as tarifas impostas por Trump à China, ao México, ao Canadá e à UE; McMaster foi demitido do importantíssimo posto de Conselheiro de Segurança Nacional (aquele que todas as manhãs briefa o Presidente sobre os temas decisivos de política externa), em desacordo com a saída do Iran Nuclar Deal, estando agora nessa função John Bolton, um dos mais radicalizados da atual equipa Trump (mas, mesmo assim, já não totalmente alinhado com o Presidente por exemplo na questão fiscal; deu recentemente uma entrevista à Bloomberg assumindo que o crescimento brutal da dívida americana no primeiro ano fiscal da Administração Trump é uma das maiores ameaças à segurança nacional dos EUA).

Quem resta no círculo próximo do Presidente? A conselheira de comunicação Kellyanne Conway (menos perigosa que Steve Bannon, mas pouco credível e em guerra pública com o próprio marido, que é um enorme crítico da Presidência Trump…) e o conselheiro político Stephen Miller (um dos ideólogos das posições de extrema-direita que por vezes Trump adota).

Como dá para ver, se durante dois anos ainda restavam alguns focos de esperança e credibilidade (curtos, mas por vezes importantes), neste momento não há mesmo nada que possa indicar que a Administração Trump revele bom senso ou sentido de Estado. É tudo cada vez pior e está tudo cada vez mais centralizado na figura egocêntrica, narcisista e imprevisível do Presidente.

Ao mesmo tempo, os democratas preparam-se para tomar a liderança da Câmara dos Representantes (Nancy Pelosi, ontem, apressou-se a elogiar a carta de Mattis) e Robert Mueller avança lento, mas firme, na consistência das acusações da Russia Collusion, cada vez mais próximas do Presidente (Michael Cohen, advogado de Trump durante dez anos, vai preso e Paul Manafort, diretor da campanha Trump 2016, pode conhecer o mesmo destino já em março, acusado de "conspiração contra a América").

Não é de afastar um cenário, em 2019, de Trump a ser alvo de um “subpoena” que o obrigue a testemunhar na Comissão Mueller e de uma imposição, por parte do Congresso, a que mostra finalmente os seus rendimentos fiscais. A verdade é que a aprovação presidencial de Trump, depois disto tudo, se mantém nos 39/42 por cento.

Seria arriscado os democratas jogarem tudo no “impeachment” quando nos próximos meses já vai começar a corrida para o “caucus” do Iowa, primeira etapa nas eleições presidenciais de 2020.

Mas 2019 será, sem dúvida, um ano muito interessante de seguir na política americana.

“May God Bless the United States of America”.