As sondagens não se enganaram mas enganaram Hillary Clinton, que não soube ler nas entrelinhas. Na corrida à Casa Branca, a candidata democrata foi derrotada por Donald Trump, mas foi também derrotada pelos jovens, pelas mulheres, pelos afro-americanos e pelos latinos, que em 2008 e 2012 garantiram a eleição de Barack Obama.

Clinton até conseguiu a maioria dos votos destes grupos-chave, mas não conseguiu mobilizá-los como devia, de acordo com os resultados obtidos pela CNN, e numa altura em que ainda se contam votos em alguns estados.

Só isso explica que 42% das mulheres tenham votado em Trump, acusado de ser machista, sexista e misógino. Só isso explica que 29% dos latinos tenham, até ao momento, dado o seu voto ao multimilionário, que prometeu construir um muro na fronteira com o México para impedir a entrada de “criminosos”. Só isso explica que, apesar de todas as considerações de Trump sobre os afro-americanos, o presidente eleito dos Estados Unidos tenha conseguido 8% dos seus votos.

“O que têm a perder?”, questionou, durante a campanha, um Trump de medidas polémicas, lembrando-os que, com Obama no poder, são pobres, não têm emprego e são assassinados à porta de casa.

Também os jovens, particularmente a geração milénio (18 aos 29 anos), condenaram Clinton. Encantados com Bernie Sanders, que acabaria por desistir da corrida, até deram 55% dos seus votos à democrata, mas Trump conseguiu 37% dos votos deste eleitorado.

E nem os mais escolarizados salvaram Clinton, que perdeu em todos os estados com maiores índices de baixa escolaridade.

Obama vs Clinton

As promessas de Trump de uma economia e de um país de americanos para americanos conseguiu somar votos entre o eleitorado branco e de rendimentos elevados, não raras vezes com habilitações académicas elevadas, mas também conseguiu votos junto dos grupos que mais atacou. E isso Clinton não esperava. Mesmo perante um país dividido.

Em poucas palavras: Hillary Clinton simplesmente não conseguiu agarrar o eleitorado de Obama e isso foi crucial nas urnas.

Nas últimas eleições, Barack Obama conseguiu 93% dos votos dos afro-americanos (Clinton somou 88%), 71% dos votos dos latinos (65% para Clinton), 55% dos votos das mulheres (mais 1% que Clinton) e 60% dos votos dos jovens (mais 5% que Hillary).

Hillary Clinton também perdeu entre o eleitorado branco, com apenas 37% dos seus votos, quando comparados com os 39% de Obama.

Pequenas percentagens que num país como os Estados Unidos determinam vencedores e vencidos, cenário que a candidata democrata demorou a encaixar. Os parabéns a Trump surgiram bem tarde na madrugada eleitoral e a reação pública foi adiada para o final da contagem.

Mais votos mas menos "Swing States"

Homem, branco, com mais de 45 anos, rendimentos elevados e escolaridade baixa a média, é este o votante-tipo de Donald Trump.

E foi este eleitorado que colocou o candidato republicano na linha da frente nos estados considerados decisivos para a eleição presidencial, particularmente nos meios rurais.

Em Ohio, por exemplo, onde se diz que o vencedor costuma ser o futuro Presidente, Trump venceu, graças ao seu eleitorado, mas também graças a um eleitorado que esteve sempre associado a Hillary Clinton, ou seja, aquele com maiores habilitações académicas.

Na Florida, o estado-sonho para os dois candidatos, Clinton teve a maioria dos votos da comunidade latina, mas Trump conseguiu 55% dos votos dos cubanos.

O Winsconsin, que Clinton dava como garantido, escolheu Trump. E no Michigan e na Pensilvânia, apesar de a democrata ter andado perto, não passou disso.

Neste momento, Clinton, tal como aconteceu em 2000 com Al Gore, soma mais votos populares que o adversário, mas de nada lhe valerá se não vencer em 'swing states' como Colorado, Florida, Iowa, Michigan, Nevada, New Hampshire, Carolina do Norte, Ohio, Pensilvânia, Virgínia e Wisconsin.

A democrata contabiliza (número em atualização) 59.137.473 votos (47,6% dos votos), por oposição aos 59.010.035 (47,5%) de Trump.

Catarina Machado