Um candidato à presidência recorre, normalmente, aos erros cometidos pelo atual chefe de Estado para tentar tomar o seu lugar. Questões que precisam de uma resposta ou que não foram tratadas da melhor forma e precisam de ser reavaliadas. Porque a presidência de um país é um trabalho contínuo, que não se consegue iniciar e encerrar a cada mandato, tal como Barack Obama herdou os problemas da administração de George W. Bush, também o próximo presidente – Donald Trump ou Hillary Clinton – vai ter de lidar com questões que ficaram por resolver.

O fraco crescimento da economia, algumas difíceis relações internacionais, o porte de arma legal e a questão do terrorismo são alguns exemplos destes problemas.

Reunimos os cinco principais, que, certamente, vão dar que falar durante o mandato do próximo presidente.

 

Síria e o Estado Islâmico

A crise humanitária na Síria e a eliminação do Estado Islâmico (EI) não são problemas que tenham de ser resolvidos pelos Estados Unidos, porém é este país que lidera a coligação internacional de combate ao grupo terrorista. A administração de Barack Obama delineou um plano para a Síria: eliminar o Estado Islâmico, sem apoiar o regime de Bashar Al-Assad, o presidente sírio, que os EUA consideram um opressor, que deve abandonar o cargo.

Desta forma, a coligação internacional tem combatido as posições do EI enquanto treina e apoia com armamento os rebeldes considerados moderados contra o regime de Assad. O problema está no apoio de peso que o presidente sírio tem do seu lado: a Rússia. O país de Vladimir Putin tem assistido o regime a lutar contra "terroristas" com ataques aéreos, não diferenciando entre Estado Islâmico e rebeldes (incluindo os apoiados pelos EUA).

Os dois candidatos à presidência concordam que é preciso mudar a estratégia de Obama e convergem na necessidade de eliminar o EI, porém ambos têm planos diferentes para o conseguir.

Tanto um como outro se opõem ao envio de tropas norte-americanas para o terreno, mas enquanto Hillary acredita que é preciso intensificar o apoio aos rebeldes, ao mesmo tempo que se atacam as posições do EI, Donald Trump prefere priorizar a eliminação do grupo terrorista, deixando o problema da liderança da Síria para depois.

O que temos de fazer em primeiro lugar é livrarmo-nos do Estado Islâmico, antes de pensarmos na Síria. Assad é secundário, para mim, [depois] do EI”, afirmou Trump, à Reuters, no final de outubro.

 

Relações com a Rússia

As relações com a Rússia são outro desafio do próximo presidente, uma tarefa delicada, que está em grande parte relacionada com o ponto anterior, a guerra na Síria.

Trump, aliás, acredita que a estratégia de Hillary Clinton para a Síria vai provocar uma Terceira Guerra Mundial, já que embate com os planos da Rússia, Irão e do presidente Bashar Al-Assad.

Devemos focar-nos no EI e não na Síria. Vamos começar uma Terceira Guerra Mundial se dermos ouvidos a Hillary Clinton. Não estamos apenas numa luta contra a Síria, mas sim contra a Síria, Rússia e Irão. A Rússia é um país com [bombas] nucleares, mas um país onde estas [armas] funcionam, ao contrário de outros países que [apenas] falam”, afirmou à Reuters.

O candidato chegou a defender um acordo com a Rússia, coordenando esforços no terreno, ao contrário de Hillary Clinton, que apelidou Trump de “fantoche” de Putin. Clinton admite, até, que a solução pode passar pelo corte de todo o espaço aéreo, um plano que até Obama recusou, justamente, para não levantar ondas com a Rússia (significa isto, que qualquer avião, incluindo russos, podiam ser abatidos caso entrassem no espaço aéreo fechado).

Dos dois candidatos, Trump é claramente o mais aberto a um diálogo com a Rússia, pelo menos no que toca à questão da Síria. Vladimir Putin e o candidato até já trocaram elogios e é clara a sua preferência pelo candidato republicano.

Se a Rússia teve, de facto, um papel no polémico ataque informático ao Partido Democrata, ou não, isso não está confirmado, apesar das acusações de Hillary Clinton. De qualquer forma, seja um ou outro eleito, mesmo com a simpatia entre Trump e Putin – ainda que o candidato garanta nunca ter conhecido o presidente russo pessoalmente - as relações entre EUA e Rússia não se avizinham fáceis.

 

Economia

No campo da economia, o próximo presidente dos EUA vai ter a vida mais facilitada que Barack Obama quando este iniciou o seu mandato, em 2008. Em pleno pico da crise mundial, Obama teve a tarefa de reerguer a situação económica de uma das potências à escala global.

No ano de 2010, a meio do mandato, a taxa de desemprego nos EUA chegou aos 9.6%, segundo o site de estatísticas Statista, aproximando-se do máximo histórico anual registado em 1982, quando a taxa se fixou em 9,71%. A partir do terceiro ano, a taxa começou a baixar e atualmente fixa-se nos 5% (dados de setembro), próxima do mínimo anual mais recente, (4,7%), registado em 2007.

A economia está a crescer novamente, porém a um ritmo tímido, menor que o esperado após uma época de crise. Dados do terceiro trimestre deste ano apontam para um crescimento de 2,9% do PIB, superior à estimativa da Bloomberg, que previa um crescimento de 2,6%. É pouco para a maior economia do mundo, isto se os EUA querem voltar a ocupar esse lugar com maior distância para os seus maiores concorrentes – a União Europeia e a China.

O maior desafio do próximo presidente passará exatamente por aí: aumentar o crescimento a economia, "tornar a América grande outra vez", como diz o slogan do candidato Donald Trump. Tanto o republicano como a candidata democrata têm planos para o conseguir, sendo os do primeiro os mais arriscados e radicais.

O magnata promete baixar impostos para todos os cidadãos e até eliminá-los completamente para parte da população com rendimentos mais baixos. Trump quer, também, cortar os impostos das empresas para 15% (atualmente está nos 35%) para estimular o crescimento e a contratação, diminuindo o desemprego e criando mais riqueza. O candidato republicano promete, ainda, resolver os problemas do Medicare (sistema de saúde para aposentados e pessoas com deficiência) e da Segurança Social. Já Hillary Clinton promete não aumentar impostos para famílias com rendimentos abaixo dos 250 mil dólares anuais e taxar os mais ricos, que ficariam sujeitos a um imposto de 30% - dinheiro que seria usado para alargar os beneficiários da Segurança Social. A democrata quer, também, aumentar o salário mínimo nacional para os 12 dólares por hora (10,8 euros, ao câmbio atual).

O conjunto de medidas de ambos vão aumentar a despesa, o de Trump mais do que o de Hillary.

 

Obamacare

O “Affordable Care Act” (ACA), a reforma levada a cabo pela administração Obama, e uma das bandeiras do atual presidente dos EUA, foi um dos temas mais polémicos e que mais tinta fez correr durante as duas legislaturas do democrata. As alterações feitas aos requisitos para a obtenção de um seguro de saúde – nomeadamente a pré-existência de problemas de saúde anteriores – e aos custos associados, de forma a alargar o número de cidadãos com acesso a cuidados, foram combatidas com “unhas e dentes” pelos republicanos.

O “Obamacare”, como ficou conhecido, lá passou, e, de facto, diminuiu as taxas de pessoas sem acesso à saúde. Barack Obama afirma, aliás, que graças à lei implementada há seis anos mais 20 milhões de pessoas conseguiram fazer um seguro de saúde, baixando o número de norte-americanos sem cuidados para números nunca antes alcançados. No entanto, nem tudo correu bem e o ACA tem problemas: as seguradoras arranjaram forma de contornar a lei e subir os preços dos seus serviços, uma questão que terá de ser resolvida pelo próximo presidente.

Donald Trump e Hillary Clinton dividem-se também neste ponto, com a democrata a defender o AFA e a prometer uma resolução para os problemas da lei e com o republicano a garantir que vai substituir o “Obamacare” por um sistema melhor.

 

Mais controlo das armas

A segunda emenda da Constituição norte-americana é um tema abordado em todas as eleições. Os norte-americanos valorizam o direito ao porte de arma e querem sempre saber em que posição estão os candidatos neste assunto. É um tema sensível, porque apesar do elevado número de tiroteios que acontecem todos os anos no país e do elevado número de mortos atribuídos todos os anos ao uso de armas, este direito constitucional é visto como um dos mais importantes pelos cidadãos. É, por isso, um dos maiores desafios do próximo presidente.

Trump e Hillary ambos prometem manter a permissão, mas algo tem de ser feito para evitar mais tragédias. No último debate entre os dois candidatos, Hillary Clinton diz que é preciso fazer alterações no processo de acesso a uma arma de fogo, que evite as “33 mil mortes” associadas, registadas anualmente. Já Trump critica a democrata, acusando-a de querer limitar o direito constitucional.

A democrata propõe um controlo mais apertado, nomeadamente, uma maior investigação do histórico pessoal de quem quer comprar uma arma. Desta forma, Hillary quer impedir que terroristas e criminosos consigam contornar a lei – como acontece hoje em dia – e tenham acesso a armas. Por sua vez, Donald Trump considera a segunda emenda "intocável" e prefere apostar em programas que combatam a criminalidade. O republicano promete, também, melhorar o sistema de saúde, retirando das ruas nos doentes mentais violentos.