A campanha eleitoral das presidenciais brasileiras têm seguido à risca o ditado: “em tempo de guerra não se limpam armas”. E, nas últimas semanas, têm sido muitas as armas menos limpas usadas para fazer política.

As acusações de disseminação de notícias falsas têm sido uma constante numa campanha em que a arma principal tem sido as redes sociais. Sobretudo o WhatsaApp.

O Brasil tem mais de 214 milhões de habitantes e 147 milhões de eleitores. Dados de 2017 revelam que há, no Brasil, 120 milhões de utilizadores do WhatsApp. Ou seja, mais de 56% dos brasileiros utiliza aquela rede social e a percentagem sobe para os 81% quando falamos de brasileiros eleitores.

Os responsáveis pelas campanhas eleitorais viram aqui uma autêntica autoestrada livre de obstáculos para fazer passar a mensagem. É fácil, é barato e… pode dar milhões de votos.

No Brasil, 90% dos utilizadores faz parte de um ou mais grupos no app, o que facilita ainda mais a difusão da propaganda eleitoral”, diz Mauricio Moura, CEO da empresa de consultadoria Idea Big Data e especialista em campanhas eleitorais no Brasil e nos Estados Unidos, citado pela edição brasileiro do jornal El País..

Na Internet, é fácil obter software que serve para coletar números de telefone. Algum é mesmo gratuito e o mais caro não vai além dos 300 euros. E nem é preciso ser um informático experiente. Há vídeos que explicam, ‘tim tim por tim tim’, como se faz essa coleta de números de telemóvel e como se enviam mensagens em massa, direcionadas para grupos específicos.

A campanha de Haddad veio denunciar essa prática na campanha do opositor e pedir a impugnação da candidatura. A campanha do candidato do Parido dos Trabalhadores (PT) fala num “caixa dois” financiado por empresários apoiantes de Jair Bolsonaro, criado especificamente para compra, angariação e gestão de dados de eleitores para disseminação de notícias falsas.

Bolsonaro e seus apoiantes asseguram que essa sim é uma notícia falsa e asseguram que todo o apoio que têm nas redes sociais é gratuito. 

10 minutos bastam para “sacar” mil  telefones

O assunto tem agitado a opinião pública e tem sido amplamente debatido nos órgãos de comunicação social. A BBC Brasil foi investigar como uma ferramenta que era normalmente usada por empresas que vendem cosméticos e produtos de nutrição passou a servir para conquistar eleitores.

A prática já foi utilizada noutras campanhas eleitorais no Brasil, mas só nesta ganhou uma popularidade e uma dimensão nunca antes vistas.

O jornal El País recorda que, já em 2014, o WhatsApp já foi utilizado para tentar interferir em um resultado eleitoral no Brasil. A 26 de outubro, no dia da segunda volta, que Dilma Rousseff ganhou a Aécio Neves, milhares de brasileiros acordaram com a notícia divulgada no WhatsApp de que Alberto Youssef (um empresário que se tornara uma peça-chave da Operação Lava Jato e que tinha dito, dias antes, que Dilma conhecia todo o esquema de corrupção) tinha sido “envenenado” na prisão. A notícia era falsa e obrigou mesmo a um desmentido oficial.

Quem utiliza o software escolhe o público-alvo no Facebook. Em menos de 10 minutos, é possível ir buscar cerca de um milhar de números de telefone, que vêm já agrupados consoante o público-alvo que interessa ao candidato. É possível escolher mulheres ou homens, selecionar as idades ou a cidade onde vivem e as habilitações académicas em causa. Basta que, tal como o número de telemóvel, esses dados estejam também públicos no Facebook.

O WhatsApp tem uma vantagem adicional: é uma plataforma fechada, com mensagens criptografadas e de difícil verificação.

A prática viola as regras do Facebook, proprietária do WhatsApp e onde os dados dos utilizadores são coletados. E coloca a empresa de Mark Zuckerberg numa situação delicada por causa da questão da proteção de dados, até porque o Facebook já esteve debaixo de fogo nas eleições norte-americanas que levaram Donald Trump à presidência.

Dezenas de contas encerradas

Depois do escândalo da Cambridge Analytica, Zuckerberg prometeu uma luta sem tréguas à disseminação de notícias falsas que conduzam à manipulação de eleições e uma maior proteção de dados.

O WhatsApp baniu proativamente centenas de milhares de contas durante o período das eleições no Brasil. Temos tecnologia de ponta para deteção de spam que identifica contas com comportamento anormal para que não possam ser usadas para espalhar spam ou desinformação. Também estamos tomando medidas legais imediatas para impedir empresas de enviar mensagens em massa via WhatsApp e já banimos contas associadas a essas empresas", disse a empresa, em comunicado citado pela BBC.

Uma dessas contas foi a do próprio filho de Jair Bolsonaro. Foi Flávio Boolsonaro quem anunciou, através do Twitter, o cancelamento da conta do WhatsApp.

Esta segunda-feira, o Facebook anunciou ter encerrado 68 páginas e 43 contas ligadas ao ultraconservador Jair Bolsonaro, candidato favorito a vencer as eleições presidenciais de domingo, devido a violações da política de autenticação.

Como parte dos nossos esforços contínuos para proteger a nossa comunidade e a plataforma contra o abuso, o Facebook removeu 68 páginas e 43 contas associadas ao grupo brasileiro Raposo Fernandes Associados (FRG), devido a violações da nossa política de autenticação e de e-mails indesejados", esclareceu a rede social num comunicado.

A posição do Tribunal Superior Eleitoral

Os esforços do Facebook e do WhatsApp parecem ser inglórios. Há quem se queixe de ter sido adicionado, sem consentimento, a vários grupos, que, apesar de, através do nome, não parecerem estar associados a nenhum dos candidatos, veiculavam informação política em determinado sentido e o debate parecia ser conduzido nesse mesmo sentido.

Um universitário de 23 anos contou à reportagem da BBC ter sido incluído nos últimos dois meses em três grupos que pareciam ter diálogos conduzidos por algumas pessoas.

Era como se quatro deles guiassem o debate. Eles mandavam dezenas de memes e vídeos contra o PT todos os dias. As outras pessoas mandavam muito conteúdo também e aquilo se tornava uma loucura. Quem não concordava com ideias de extrema-direita não suportava meia hora ali", afirmou o jovem.

Na mesma reportagem, uma mulher conta que, ainda na primeira volta, foi incluída em quatro grupos de WhatsApp. Saiu de todos e denunciou-os. Dois dias depois, viu-se incluída, sem saber como, em mais oito grupos. Todos pró-Bolsonaro.

Há quem encare esta prática como ilegal, à luz da legislação eleitoral brasileira. Mas há também quem a veja como perfeitamente legal, alegando que se os dados estão públicos, podem ser usados.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) garante que não cede a pressões, nem quando é ameaçado de encerramento, como terá sido por Eduardo Bolsonaro, outro filho do candidato, que nega ter feito tal ameaça. 

O TSE assegura que não falhou no combate à propagação de notícias falsas. Este domingo, a uma semana da segunda volta, a presidente do TSE, Rosa Weber, anunciou medidas de combate à disseminação de notícias falsas nas redes sociais.

O que o TSE está fazendo? O TSE não está fazendo nada? Primeiro, ele está entendendo o fenômeno, que não é de fácil compreensão, não é de fácil prevenção, e não é um problema brasileiro. Mas o TSE está atento", disse Weber.

Rosa Weber, presidente do Tribunal Superior Eleitoral do Brasil. (REUTERS)

Rosa Weber assegurou que as denúncias de um alegado esquema criminoso para propagação de fake news anti-PT está a ser investigado pelo TSE. “Observando o devido processo legal, daremos, no momento oportuno, a resposta adequada”, disse a presidente da instituição.

As notícias que são difundidas

Só de apoio a Jair Bolsonaro, no WhatsApp, há pelo menos 100 grupos públicos. Com o país dividido, numa das campanhas mais polarizadas da história recente, que têm levado às ruas milhões de brasileiros apoiantes de um e de outro candidato, a Internet parece ser um terreno ainda mais fértil para a propagação de notícias falsas.

Nas últimas semanas, um grupo de apoio a Bolsonaro fez espalhar na rede que as urnas eletrónicas no Brasil já foram manipuladas noutros atos eleitorais. Os apoiantes do candidato de extrema-direita continuam a insistir que o sistema não é de confiança, mas o TSE assegura que, em 22 anos de utilização, nunca houve manipulação do sistema.

O portal de notícias da Globo, o G1, tem-se dedicado a desmontar algumas dessas notícias. Esta terça-feira, por exemplo, o jornal online veio desmascarar um vídeo que circula nas redes sociais de que apoiantes do PT gritaram “Fora, Haddad”, num evento. Ora o vídeo terá sido retirado do contexto e até manipulado e os gritos serão direcionados a um ex-governador do Sergipe, Jackson Barreto, mo MDB.

Tem circulado também no WhatsApp a notícia de que Lula da Silva terá sido autorizado a dar uma entrevista, a partir da cadeia, precisamente um dia antes das eleições de domingo. Mas o Supremo Tribunal Federal assegura que não há nenhuma decisão que autorize Lula a dar entrevistas.

Na semana passada, circulou também nas redes sociais que 15 mil cartões de eleitor falsificados foram apreendidos a um homem de 32 anos, durante uma operação stop, no Maranhão. Tanto a Polícia Federal como a Polícia Rodoviária Federal negam a apreensão. E as imagens que ilustram a notícia falsa foram retiradas de outras notícias.

Anitta usada como protagonista de uma das notícias falsas difundidas nas redes sociais. (REUTERS)

Anitta é uma popular cantora brasileira. Circulou na Internet uma mensagem que lhe é atribuída, onde afirmaria mudar-se para Espanha se Bolsonaro ganhasse. A notícia também já foi desmentida.

Também circulou nas redes sociais um suposto tweet de Fernando Haddad em que este elogia a Venezuela e o próprio Nicolás Maduro. Uma pesquisa na busca avançada do Twitter mostra que o post não existe na que lhe é atribuída.

Tweet falso de Fernando Haddad. Análise detalhada da imagem comprova que foi manipulada. (DR)

Além disso, o registo da conta de Haddad no post aparece sem o sinal @ (como se verifica na imagem acima), um indício de que a imagem foi manipulada. A busca pelo termo "Venezuela" dentro do perfil de Haddad não mostra nenhum resultado.