“Estou desapontado com o tom das eleições. Têm sido aberrantes e fora do normal”

Robert Sherman, Embaixador dos EUA em Lisboa

 

A quatro dias da grande decisão, Hillary Clinton tem duas hipóteses em três de vencer – e Donald Trump uma em três.

Está tudo em aberto. Ainda. Hillary, provavelmente, ganhará, sucedendo, assim, a Barack Obama na Casa Branca. 

Mas tudo pode acontecer.

Donald Trump tem um caminho estreito, muito estreito, para os 270: precisa de vencer na Florida (se falhar, o resto não chega); precisa de vencer na Carolina do Norte (e pode não chegar); precisa de vencer no New Hampshire (e isso parece cada vez mais possível). 

A matemática favorece Hillary, que ataca o caminho para os 270 já bem próximo da meta: mantendo a tal “firewall” de cinco estados (Pensilvânia-Michigan-Wisconsin-Colorado-Virgínia), basta somar um, apenas um, destes quatro estados – Florida, Carolina do Norte, New Hamshire, Nevada.

Os campos de batalha estão, por isso, identificados.

Neste ‘sprint’ final, e com os argumentos de cada candidato já muito estafados, fundamental é mobilizar os respetivos segmentos.

As sondagens nacionais dão já valores de indecisos relativamente reduzido (3 a 10%). A percentagem de eleitores dispostos a mudar a intenção de voto não será muito maior. 

O campo de Hillary retomou a linha de posicionar Trump como “candidato inaceitável”, que não pode ser eleito porque “não tem dignidade ou credibilidade”. 

A campanha Trump está, pela primeira vez, a ser um pouco mais que apenas o candidato. 

Donald, mais focado na mensagem nestes dias finais, cavalga a onda das “revelações de mais investigações” que atingem os Clinton, não só o tema dos emails, mas também a questão financiamento da fundação.

O candidato republicano atirou, na Carolina do Norte, a ideia de que Obama está a ser “conivente com um crime” ao fazer campanha por Hillary. 

Perante a união da família democrata nesta reta final por Hillary (Sanders esteve com a candidata na Carolina do Norte, o Presidente Obama de novo em ação), Trump tentou minimizar, criticando Barack por “estar sempre em campanha em vez de voltar ao trabalho”. “Mas também ele não ficará lá na Casa Branca muito mais tempo, felizmente…”

Mesmo sendo normal um agravar do tom nos últimos dias de uma campanha presidencial americana, este duelo Hillary/Trump não tem comparação com nenhuma outra.

O registo é muito negativo e isso reflete-se na forma como cada campo fala e pensa do opositor. 

Essa dinâmica parece estar a beneficiar Trump, que ao contrário do seria de supor, está a conseguir mobilizar a base republicana, apesar de não contar com o apoio das elites do partido.

Os últimos dias têm sido férteis em fenómenos curiosos nesse aspeto. Vários políticos republicanos voltaram com a palavra dada em público e acabaram por anunciar o voto em Donald Trump, mesmo tendo reprovado atitudes e comportamentos do nomeado republicano nestes últimos meses. 

Jason Chaffetz, congressista republicano do Utah, foi o primeiro a "divorciar-se" politicamente de Trump no dia em que foi revelada a gravação da conversa no autocarro, em 2005. Nessa altura, teve intervenção indignada: "Como é que eu posso dizer à minha filha que votei num homem que diz estas coisas das mulheres?"

Pois, a verdade é que o congressista Chaffetz anunciou, agora, que... vota em Trump. Teve que fazer uma acrobacia retórica, na CNN, para explicar isso: "Votar em Trump não significa apoiá-lo".

Não? 

Paul Ryan, speaker republicano do Congresso, teve que fazer parecido: disse que votou no "nomeado do partido", mas nem sequer falou no nome de Donald.

Como é que isto se explica? 

Interesse estratégico, claro. Para se fazerem eleger nos respetivos círculos, nas eleições para o Congresso, os candidatos republicanos sabem que não podem hostilizar em demasia o nomeado do partido, porque isso pode ir contra as visões do eleitorado de que necessitam para serem eleitos.

 

Germano Almeida