"Merece admiração", é assim que um médico ouvido pelo New York Times se refere e Portugal, levando um dos mais prestigiados jornais dos Estados Unidos a considerar que o país "saiu-se muito melhor" do que Espanha no combate à pandemia. A reportagem em questão analisa a resposta de Espanha ao novo coronavírus fazendo, para isso, comparações com o caso português.

O artigo critica a maneira como as autoridades de saúde do país vizinho encararam a doença, representando a crise espanhola "a tendência de um governo atrás do outro a ignorar as experiências de outros países onde o surto já tinha entrado".

O autor do artigo, Raphael Minder, correspondente do New York Times em Portugal e Espanha, reconhece que, ao contrário do que aconteceu com Pedro Sánchez, António Costa foi apoiado pela oposição na estratégia de combate à pandemia. 

Fernando Rodríguez Artalejo, epidemiologista e professor universitário, entrevistado pelo jornal nova-iorquino, deixou rasgados ao país.

Portugal merece admiração. Acho que eles agiram de forma eficiente e ao mesmo tempo que nós, mas numa altura em que a epidemia não era tão generalizada."

O artigo no New York Times foi publicado na terça-feira, mas já antes, no dia 30 de março, a rádio France Inter, partilhava um artigo de opinião assinado pelo jornalista Anthony Bellanger, que dava conta de que "há um mistério português para tentarmos resolver juntos". O autor referia-se ao facto de Espanha, na altura, já ter 85 mil casos e mais de 7.000 mortes, enquanto Portugal continuava com números muito abaixo do país vizinho.

O jornalista Anthony Bellanger explica este mistério português com o facto de a fronteira terrestre ser com apenas um país, e devido a Portugal viver muito do turismo, que se extinguiu de um dia para o outro, e reduzindo assim a possibilidade de casos importados. Além disso, o sucesso do país no combate à pandemia deve-se, segundo o jornalista, à forte disciplina do povo português, citando António Costa e alegando que, já no final de fevereiro, quem vive por cá começou, voluntariamente, a isolar-se. 

Como resultado, muitas escolas fecharam antes da decisão do governo, por falta de alunos. O mesmo aconteceu com alguns negócios, especialmente nos centros das principiais cidades do país, que anteciparam a ordem de encerramento, por falta de clientes", escreve Anthony Bellanger.

O artigo termina a dizer que, ao contrário de Espanha, Portugal tem continuidade governativa desde 2015 e, ao invés do país vizinho, saiu "da austeridade muito antes, e com sucesso. Menos austeridade, menos cortes na saúde pública, um país melhor preparado". O jornalista elogiou ainda o executivo de António Costa por ter regularizado todos os migrantes: "o governo dá acesso a toda a população residente em Portugal ao sistema de saúde gratuito e universal: todos protegem todos da Covid-19".

No dia 3 de abril, o jornal francês Le Figaro dizia "Comparado com o número de mortes de outros países da Europa Ocidental, Portugal parece ser a exceção. Tanto assim é que se evoca um milagre português".

Também na Bélgica, na primeira semana de abril falava-se que "parece que Portugal está a ser poupado" à pandemia. À semelhança do que foi escrito no Le Figaro, para além da geografia, apontava-se a disciplina dos portugueses e a estabilidade política como armas para combater, com sucesso, a propagação do vírus.

Por fim, mas não menos importante, a revista Forbes. Apesar de o elogio ser mais cauteloso, Ann Abel, uma repórter de viagens, escreveu no dia 19 de março num artigo intitulado "O que precisa de saber sobre o coronavírus em Portugal: um estado de emergência", que "até agora Portugal conseguiu evitar o crescimento explosivo de casos que outros países tiveram". A autora, que vive em Lisboa, fala em "sorte", que "não deve durar". A verdade é que essa "sorte" parece continuar a estender-se no tempo, quase um mês depois.

Emanuel Monteiro