Três antigos oficiais dos serviços de inteligência dos Estados Unidos (EUA) foram contratados pelos Emirados Árabes Unidos (EAU) para desempenharem operações no domínio da espionagem. Agora, estas três pessoas admitem ter cometido crimes de pirataria informática e de violação das leis de exportação norte-americanas, que restringem a transferência de tecnologia militar para governos estrangeiros. A revelação é feita em documentos divulgados publicamente esta terça-feira.

Esses mesmos documentos detalham uma conspiração levada a cabo por três homens que terão fornecido tecnologia avançada aos EAU, aliados dos EUA, além de terem contribuído em operações de inteligência daquele país que visaram diminuir inimigos dos emirados.

Segundo os documentos, os três homens terão tido acesso, sem autorização, a dados de computadores, aparelhos eletrónicos e servidores em todo o mundo, incluindo alguns nos Estados Unidos. Estes cidadãos foram identificados como Marc Baier, de 49 anos, Ryan Adams, de 34 anos e Daniel Gericke, de 40 anos. O primeiro trabalhou na Agência de Segurança Nacional, enquanto os outros dois foram funcionários do exército e da comunidade de serviços secretos, funções a que agora ficam impedidos de regressar.

Agora, estes três homens admitem ter violado leis americanas, chegando para isso a um acordo de não acusação de três anos. Caso cumpram o acordado, o Departamento de Justiça deixará cair o processo. Para isso, cada um deles terá de pagar pesadas multas, que são o equivalente ao dinheiro que fizeram ao trabalharem para a DarkMatter. Ao todo, são 1.685 milhões de dólares (cerca de 1.426.000 euros).

Além disso, ficam impedidos para sempre de receber uma autorização de segurança por parte do governo americano, que deixou bem claro que esta devia ser uma decisão sem precedentes: "Este acordo é o primeiro do género. Piratas informáticos que sejam contratados e aqueles que apoiem estas atividades que violam a lei americana devem esperar sempre uma acusação à sua conduta", pode ler-se no documento, que cita uma frase de Mark J. Lesko, procurador-geral assistente.

Para aqui chegarem, os homens trabalharam a partir de uma empresa que é gerida pelo governo dos EAU. A DarkMatter autodefine-se como sendo uma "empresa de cibersegurança sediada nos EAU, que se dedica a fornecer segurança e proteção cibernética a agências governamentais e organizações similares".

Curioso é o facto de a DarkMatter ser uma empresa com origem num projeto criado nos EUA. Com efeito, esta organização começou por ser criada a partir da CyberPoint, e deu entrada no Médio Oriente depois de contratada pelo governo dos emirados para ajudar a proteger o país de ataques a computadores. Foi nessa altura que a empresa recebeu uma licença do governo americano para trabalhar com questões militares de inteligência, numa altura em que grande parte dos funcionários já trabalhavam em projetos da Agência Nacional de Segurança ou de outros serviços de inteligência.

Com ideias de ir mais longe, o governo dos EAU terá pedido à CyberPoint que excedesse os limites garantidos pela licença americana. Em alguns desses pedidos, aquela empresa terá mesmo recusado um pedido dos emirados para desencriptar códigos e para piratear servidores com base nos Estados Unidos.

Perante a recusa, os EAU decidiram então avançar, em 2015, para a criação da DarkMatter, uma empresa com os mesmos moldes, mas que deixava de ser abrangida pelas leis americanas, ainda que para lá tivessem transitado grande parte dos trabalhadores da CyberPoint. Aí, aquela empresa terá recebido antigos funcionários de várias agências de segurança, entre elas a CIA.

Diretamente à DarkMatter, os Estados Unidos deixam um aviso: "O FBI vai sempre investigar indivíduos e organizações que lucrem de cibercrimes", disse o diretor-assistente da Ciberdivisão do FBI, Bryan Vordran.

Esta mensagem é clara, incluindo os antigos funcionários do governo dos EUA. Há um risco, e existirão consequências", acrescentou.

Segundo os documentos, estes homens fazem parte de uma grande tendência entre os profissionais dos serviços de inteligência americanos que estão na reforma, e que se dedicam a aceitar cargos em que trabalham para governo estrangeiros, nomeadamente na área da cibersegurança.

António Guimarães