"Allons enfants de la Patrie" é o primeiro verso da "Marselhesa", o hino de França, que parece assentar que nem uma luva às primeiras semanas de cargo do mais jovem presidente francês. Se Emmanuel Macron já tinha surpreendido com um intenso aperto de mão a Donald Trump, na primeira vez em que se encontraram, na semana passada marcou pontos ao responder à letra ao norte-americano, convidando mesmo os cientistas que trabalham nos Estados Unidos, estudando as alterações climáticas, a emigrar para França.

A 1 de junho, Donald Trump cumpriu o que prometera em campanha e dele se esperava: anunciou que os Estados Unidos vão sair do Acordo de Paris, que estabelece compromissos entre 195 países para reduzir as emissões de gases com efeito de estufa, responsáveis pelo aquecimento do planeta.

"Touché", para mais com um Acordo conseguido dois anos antes e que tem o nome da capital francesa, Macron surgiu como a principal voz a responder na hora a Donald Trump. Além de um comunicado conjunto com Itália e Alemanha, as duas outras maiores economias do continente europeu, falou ao mundo e bateu-se mesmo com o presidente norte-americano no terreno preferido deste: a rede Twitter.

Esta publicação na conta oficial de Twitter de Emmanuel Macron, faz notar a cadeia britânica BBC, foi replicada por mais de 237 mil vezes, em grande parte nos Estados Unidos. Corresponde à frase final do discurso de Macron, em resposta a Trump, e aproveitando o slogan que o norte-americano utilizou em campanha e continua a usar. Em vez de "Make America Great Again" - "Façamos a América grande outra vez" - o francês respondeu-lhe com "Façamos o nosso planeta grande outra vez".

Sucede que Macron, quando discursou, fez questão de encerrar a sua oratória com esta frase que correu mundo. E disse-a, não em Francês, mas em Inglês. Para que Trump entendesse, segundo as más línguas que por regra aproveitam para pôr em causa a clarividência do líder norte-americano.

"Chez nous"

Ao falar a 1 de junho, como começa a ser habitual, Donald Trump também não deixou de criar um novo chavão: "Fui eleito pelos votantes de Pittsburgh, não de Paris". Saiu mais um tiro no pé, com o presidente da Câmara da cidade do Estado da Pensilvânia, o democrata Bill Peduto, a lembrar-lhe, através do Twitter, que naquelas bandas Hillary Clinton teve 80% dos votos na presidenciais. E que, pela sua parte, irá continuar a cumprir o acordo climático de Paris.

Uma hora após o discurso de Trump, foi a vez de Macron marcar pontos pelo mundo fora. Respondeu-lhe à letra e ousou mesmo convidar os cientistas que estudam nos Estados Unidos, na área das alterações climáticas do planeta, a mudarem-se para França, caso deixem de ter condições para continuar a desenvolver o seu trabalho.

À parte a resposta moral e ancestralmente marcante da China - "As promessas devem ser mantidas e as ações devem ser resolutas" - com que o primeiro-ministro Li Keqiang respondeu a Trump, num momento em que até estava com a chanceler alemã Merkel, a posição de Emmanuel Macron fê-lo surgir como um jovem líder mundial capaz de desafiar a postura norte-americana.

Faz notar o correspondente em Paris da BBC, Hugh Schofield, que a França era até há pouco um país que "costumava parecer velho, introspetivo, incapaz de reinventar-se". Com o nervo e arrojo da nova coqueluche da política francesa, os dias acinzentados de Hollande parecem ter passado.

Santos da casa

Emmanuel Macron vai marcando pontos pelo mundo fora. Em especial no continente europeu, mais ainda quando Angela Merkel receia e se preocupa com a sua continuidade como chanceler nas eleições de 24 de setembro. Algo que, nas ilhas britânicas, também afeta Theresa May, que vai a votos já na quinta-feira e tem pela frente o Brexit, além de uma antiga cumplicidade política e diplomática com os Estados Unidos.

Em França, sucede que Macron também tem eleições pela frente. Após ter sido eleito o mais jovem presidente francês, domingo, o seu movimento eleitoral travestido em partido estreia-se nas urnas na primeira volta das legislativas.

As últimas sondagens, encomendadas e publicadas sábado pelo jornal Le Monde, dão ao partido de Macron, "La République En Marche" - A República em movimento - a maior fatia das intenções de voto (31%), acima dos Republicanos com 22% e da Frente Nacional de Marine Le Pen, com 18%.

Só que as decisões para escolher os 577 deputados estão guardadas para a segunda volta, a 18 de junho, à qual passam todo os candidatos que consigam 12,5% dos votos nas respetivas circunscrições. O que, para já, não garante uma maioria parlamentar ao partido de Macron.

Acresce que, em apenas três semanas como presidente de França, o jovem político que começa a ser olhado com importância crescente fora de portas, enfrenta já polémicas caseiras em torno de si. A justiça francesa abriu uma investigação a Richard Ferrand, ministro da Coesão Territorial, suspeito de ter beneficiado a sua mulher numa operação imobiliária.

Sabendo-se, como sói dizer-se, que "santos da casa não fazem milagres", apesar de tudo, a figura de Macron ainda está em alta junto dos franceses. Sem contudo, deslumbrar. Duas semanas após ser eleito, seis em cada dez cidadãos diziam-se "satisfeitos" com a prestação do novo presidente. Mas os 62% de popularidade estavam na mesma linha que os dos seus antecessores quando iniciaram mandatos: Hollande tivera 61% e, antes dele, Sarkozy registara 65%.

A sondagem realizada pelo Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop) para o Le Journal du Dimanche revelava ainda que, cerca de um terço dos franceses (31%) se mostravam "desagradados" com a presidência de Macron, que recolhia a maior parte das simpatias junto do eleitorado "sénior", com 65 anos ou mais (69%). Curiosamente, o estrato etário próximo do da sua consorte e antiga professora, Brigitte, que tem 64 anos.