A grande aposta do primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, nas eleições regionais do próximo domingo na Catalunha recaiu no ex-ministro da Saúde, Salvador Illa, à frente nas sondagens mas com possibilidades escassas de desalojar os independentistas do poder.

A maior parte das sondagens publicadas até agora dão o cabeça da lista do Partido Socialista da Catalunha (PSC, associado ao PSOE) ligeiramente à frente (21-22%) das duas principais formações independentistas que governam coligadas a comunidade autónoma: a Esquerda Republicana da Catalunha (ERC, 20-21%) e o Juntos pela Catalunha (JxC, 19-20%).

O "efeito Illa" das últimas semanas não deixa de ser surpreendente, visto que os socialistas eram até há pouco a quarta força política nesta região, onde em 2017 houve uma tentativa falhada de autodeterminação (independência) que continua a marcar e a condicionar toda a política nacional espanhola.

Para Oriol Bartomens, um politólogo e professor de ciências Políticas na Universidade de Barcelona, o PSC fez uma “aposta clara na moderação o que o propulsionou como partido que pode ganhar as eleições”.

Há um efeito Illa, mas isso não lhe garante a presidência da Generalitat [executivo regional]” da Catalunha, resume Bartomens.

O mesmo tinha acontecido em 2017 com o Cidadãos (direita-liberal) que aglutinou uma parte importante do voto constitucionalista (pela unidade de Espanha), mas foi incapaz de contrariar a maioria absoluta que os partidos separatistas obtiveram, uma vez mais, no parlamento regional.

Pedro Sánchez conseguiu chegar ao poder em 2018 em Madrid e liderar um Governo minoritário entre PSOE e Podemos (extrema-esquerda) com a ajuda de uma parte do movimento independentista, disposto a fazê-lo pagar caro essa ajuda fundamental.

Nascido em 1966 em Rocca del Vallés, uma cidade industrial perto de Barcelona, onde foi presidente da câmara durante 10 anos, Salvador Illa é filho de um operário e de uma dona de casa e conhece bem o movimento independentista, com quem negociou o regresso ao poder de Pedro Sánchez.

Este trabalho pouco visível acabou por catapultar Illa para o Ministério da Saúde que acabou por ter uma relevância inimaginável desde há um ano com o aparecimento da pandemia de covid-19.

No parlamento regional são necessários 68 parlamentares para ter a maioria absoluta que permite formar um governo estável na região autónoma.

Illa vai precisar de grande habilidade negociadora se chegar à frente nas eleições de domingo e, mesmo se os partidos independentistas não conseguirem a maioria absoluta na assembleia regional, a julgar pelos números das sondagens, a sua tarefa de tentar formar um executivo vai ser difícil.

Os dois principais partidos independentistas, JxC e ERC, estão muito divididos sobre a estratégia a seguir, depois do fracasso da tentativa independentista de 2017 mas se, como parece ser o mais provável, conseguirem manter uma maioria com a ajuda da Candidatura de Unidade Popular (CUP, extrema-esquerda) será muito difícil rejeitarem a formação de um novo executivo separatista.

Os socialistas catalães defendem a formação na região de um executivo com o Podemos, uma repetição da fórmula nacional, mas os dois partidos estão muito longe de conseguir o número de deputados necessários.

Um eventual governo regional liderado por Illa teria então de ter o apoio dos independentistas da ERC que apoiaram Sánchez em Madrid, mas que, pelo menos durante a campanha eleitoral, recusaram admitir esta possibilidade.

Os vetos cruzados ameaçam assim perpetuar a instabilidade na Catalunha e há quem já fale na possibilidade de marcação de novas eleições.

Durante a campanha eleitoral, que termina hoje, a ERC excluiu dar o seu apoio a um governo regional liderado por Salvador Illa e a CUP, que tem dado o seu apoio parlamentar ao atual executivo, marcou distâncias com o JxC.

“Penso que a ERC vai acabar por fazer uma maioria com quem lhe garanta a presidência da Generalitat, que desde 2012 lhe foge”, considera Oriol Bartomeus.

Até ao aparecimento do candidato socialista na campanha, a solução mais provável era uma nova coligação entre JxC e a ERC com apoio externo da CUP ou do En Comú Podem (Podemos regional).

No entanto, a crescente divisão entre os dois principais parceiros pró-independência é agora agravada pelo facto de nem o Podemos nem a CUP quererem alinhar com os conservadores do JxC liderados a partir de Bruxelas (Bélgica) por Carles Puigdemont, que era presidente do governo regional aquando da tentativa de independência e que agora decidiu não se apresentar como cabeça de lista.

No domingo à noite o foco da atenção vai estar em saber quem é o vencedor das eleições e também se se repete uma maioria separatista.

/ MJC