O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, e o economista Carlos Ocaña copiaram no livro "A Nova Diplomacia da Economia Espanhola", de 2013, parágrafos de uma conferência que o diplomata Manuel Cacho fez num simpósio na Universidade Camilo José Cela, em Madrid, a 25 de fevereiro do mesmo ano.

De acordo com a edição digital do El País, os dois autores reproduzem, no livro, 454 palavras, sem aspas nem citar a fonte original, parágrafos de cinco das sete páginas da conferência do diplomata espanhol.

Contactado pelo jornal espanhol, o Palácio da Moncloa (sede da presidência do Governo) assegurou que a cópia, sem citação, dos parágrafos da conferência, foi “um erro involuntário".

Os coautores só podem arrepender-se deste facto e fazer a correção no menor tempo possível. Nas próximas edições do livro, a citação será incluída corretamente", garantiu o gabinete do chefe do Executivo.

Manuel Cacho, atual embaixador espanhol na Austrália, confirmou ao diário espanhol que ninguém o consultou para usar aquele material. "É a primeira notícia que tenho”, afirmou em conversa telefónica.

O El País refere ainda que Pedro Sánchez, que na época tinha acabado de aceder a um lugar de deputado, organizou o simpósio no qual interveio o diplomata e foi "o moderador de uma das mesas redondas".

Já o economista Carlos Ocaña, coautor do livro, "não quis fazer declarações" ao jornal.

Gralha “comprova” copy/paste

O livro, de 229 páginas, assinado por Sánchez e Ocaña, de 38 anos e hoje diretor do Real Madrid, baseia-se na tese de doutoramento do primeiro-ministro espanhol, defendida em novembro de 2012, e acrescenta novas contribuições. O El País verificou que há pelo menos 18 páginas com passagens de outros autores, sem os citar ou referenciar. O discurso de Manuel Cacho é o mais marcante, embora haja pelo menos mais cinco de origem diferente, refere o jornal.

Ainda de acordo com o diário espanhol, vários fragmentos de oito parágrafos da conferência do embaixador coincidem com o texto do livro. Existe até uma gralha – “ente" em vez de “entre” - no texto da conferência que é reproduzida na página 65 do livro de Sánchez e Ocaña, no final de um longo parágrafo de 16 linhas idêntico ao de Manuel Cacho: "(…) através de reuniões e de visitas específicas a projetos concretos, há um intercâmbio de impressões, de ideias e vê-se como de ambos os lados se pode incrementar a colaboração empresarial, cultural e académica... ENTE um país e o outro.”

Mesmo texto e mesma gralha em ambas as publicações (Grafismo: D. Alameda/EL PAÍS)

Tese já tinha levantado dúvidas

Num comunicado enviado à agência EFE, no dia 13 de setembro, Carlos Ocaña, negou "qualquer autoria, total ou parcial, da tese de doutoramento de Pedro Sánchez" e explicou que, depois de este a ter terminado, "colaborou com ele na publicação do livro que se baseia na tese".

No dia seguinte, o Governo espanhol assegurou que a tese de doutoramento do primeiro-ministro, Pedro Sánchez, passou nos testes anti-plágio feitos em dois portais especializados na deteção deste tipo de anomalias.

O Executivo de Madrid publicou os resultados de dois programas ("software") que assegura estarem entre os mais reconhecidos para detetar a possibilidade de plágio de um texto tanto a nível nacional como internacional: o Turnitin, utilizado na Universidade de Oxford (uma das mais importantes instituições de ensino do Reino Unido), e o PlagScan, que é uma referência na Europa.

Antes, Pedro Sánchez negara que plagiou a tese de doutoramento, garantindo que eram "rotundamente falsas" as dúvidas lançadas pelo líder político de um partido da oposição que depois foram desenvolvidas pela imprensa.

"Não tive tempo e preparei um guião”

Mas se a tese de doutoramento de Pedro Sánchez passou nas análises anti-plágio, provavelmente o mesmo não acontecerá com o livro, sublinha o El País.

A conferência de Manuel Cacho consta de um documento publicado no site da Camilo José Cela e a universidade confirma que se trata de uma transcrição das intervenções. Pelo menos cinco páginas do livro "A Nova Diplomacia da Economia Espanhola", da 62 à 66, no quarto capítulo, reproduzem grande parte do discurso do diplomata.

O atual embaixador na Austrália confirmou ao El País que participou no simpósio, mas que não leu um texto escrito.

Não tive tempo e preparei um guião, foi uma coisa improvisada. Então, enviaram-me alguns rascunhos da universidade com a transcrição para publicar no site", explicou.

Manuel Cacho não sabia que parte do discurso que proferiu acabou no livro do primeiro-ministro espanhol. Ninguém lhe pediu autorização para tal, reiterou, embora sublinhando que prefere não fazer julgamentos.