São treze pessoas, pai, mãe e 11 filhos, vivem num apartamento em Valladolid, Espanha, e estão todos infetados com o novo coronavírus. O filho mais novo tem um ano e a mais velha fez 15.

A casa da família, um quarto andar com 170 metros quadrados, acabou por se tornar praticamente num hospital desde o início do período de isolamento. No bairro Huerta del Rey, José, Irene e as onze crianças, tiveram de lutar contra a doença.

Ficamos assustados. Quando vemos os nossos filhos a tremer, a vomitar e sem saber o que fazer. Estive muito doente, mas só pensava que não podia ir para o hospital e deixá-los em casa. Ninguém nos podia vir ajudar. Até agora, nunca senti tanto medo na minha vida”, conta José em entrevista ao El Espanol.

A primeira a contrair o vírus foi a mãe, Irene, mas quando foi diagnosticada era tarde demais, a família já estava junta há demasiados dias e a possibilidade de outros membros da família terem contraído o vírus era alta. Dias antes de o governo espanhol declarar o estado de emergência, Irene Gervás começou com dores de cabeça, mas não deu importância. Quatro dias depois, e após as medidas de isolamento terem sido decretadas, os sintomas pioraram: tinha febre, tosse e dores musculares.

Quando foi fazer o teste ao centro de saúde, o marido, José, também já começava a apresentar sintomas. 

Os primeiros três dias foram difíceis, apesar do paracetamol ter aliviado as dores. Mas após seis dias, quando já estávamos quase sem sintomas, piorámos rapidamente e eu comecei a ter problemas respiratórios e a minha mulher estava tão cansada que nem conseguia sair da cama”, conta José.

Ao mesmo tempo, o filho mais novo, de apenas um ano, começou também a ficar doente. As dores de cabeça e os vómitos tornaram-se então comuns a quase todas as crianças. Alguns tinham sintomas ligeiros, mas para o pai da família a situação clínica piorou. 

Entrei numa fase em que só pensava que tinha de ir para o hospital porque tinha muitas dificuldades em respirar, mas não podia abandonar os meus filhos. Fui controlando o oxigénio com um medidor que nos trouxe o meu sogro e nunca ultrapassei um nível que fosse considerado preocupante”.

Se para qualquer família estar em isolamento é uma gestão complicada, para esta, composta por treze pessoas, foi essencial uma grande organização. A primeira medida que tomaram foi criar horários e dividir tarefas: de manhã tratavam do pequeno almoço, tomavam banho e depois começavam as aulas. Já o período da tarde estava reservado para verem um filme em família e as refeições ficaram a cargo da avó materna.

“Nós abríamos a porta da entrada, ela trazia as refeições ou as compras que pedíamos, deixava tudo no elevador e um dos filhos, a quem demos o cargo de Secretário dos Assuntos Exteriores, ia buscar tudo e trazer para casa”, contam.

Para esta família, a fé foi também uma forte aliada neste combate ao vírus. De manhã, assistiam a missas transmitidas no YouTube e à tarde rezavam. Era uma forma de “escapar” à realidade que se vivia dentro de quatro paredes. Pediam por eles, mas também por todas as pessoas que estavam em situações de saúde iguais ou piores.

Só ao décimo segundo dia de quarentena os sintomas do coronavírus começaram a desaparecer e a família voltou à normalidade. Continuam ainda sem poder sair, por indicação médica, mas a recuperação dos 13 estará para breve.

Márcia Sobral