Dos 9 mil migrantes que desde segunda-feira chegaram a Ceuta, a grande maioria a nado, cerca de 6 mil terão já regressado a Marrocos, seguindo um procedimento que é conhecido como "regresso a quente", que pode ser efetuado pela polícia dispensando advogados. Os adultos que restam estão a ser encaminhados para os processos legais de deportação.

Restam as crianças e adolescentes que chegaram desacompanhados. Estima-se que nos últimos dias tenham chegado a Ceuta 1.500 menores, dos quais 850 estão agora a cargo das autoridades espanholas.

Num primeiro abrigo, improvisado, num armazém no Tarajal, os menores foram reunidos, fizeram testes de covid-19 e foram identificados. Nos casos em que existem dúvidas, pode ser feito um teste aos ossos do pulso e um raio-X à dentição para determinar a sua idade.

Muitos deles voltaram logo para Marrocos, a pedido dos pais ou na companhia de familiares que se responsabilizaram pelo seu regresso voluntário. A ministra da Educação espanhola, Isabel Celaá, explicou que muitas famílias têm reclamado os menores a partir de Marrocos e assegurou que esses pedidos são estudados "rigorosamente caso a caso", prevalecendo sempre o interesse superior da criança.

O Ministério do Interior garante que nenhuma criança é devolvida desacompanhada, mas várias ONGs têm questionado este ponto e consideram que tem havido algumas devoluções sem "garantias suficientes".

Os que não são reclamados são considerados abandonados e estão agora a cargo da autarquia. Até à tarde de quarta-feira, havia cerca de 850 crianças e adolescentes naquele armazém do parque industrial de Tarajal, adjacente à fronteira que separa a Espanha de Marrocos. O mais novo terá quatro anos. 

Esperaram, sentados e deitados no chão, do lado de fora, sob o sol forte, até que alguns começaram a ser transferidos para um outro abrigo, na zona de Piniers.

Piniers foi habilitado como centro de acolhimento provisório de menores durante a pandemia, mas há poucos dias tinha sido fechado com a transferência de todos os seus residentes para o centro La Esperanza.

O encerramento não durou muito, pois foi preciso encontrar rapidamente um abrigo para os menores que chegaram nos últimos dias. O centro foi limpo e reaberto e, na última noite, foram para lá transferidos 250 menores, em autocarros. 

Mas nem todos cabem aí. O Executivo e as autoridades locais procuram soluções urgentes e consideram a instalação de tendas do exército. Este é um desafio enorme para Ceuta, uma cidade de 85 mil habitantes que, habituada a constantes pressões migratórias, antes da crise já acolhia 206 menores estrangeiros.

São esses que, para libertar espaço no Centro La Esperanza e assim acolher os recém-chegados, o Governo decidiu distribuir por outras comunidades, sendo Galiza e Madrid aquelas que vão receber mais: cada uma acolherá um grupo de 20 jovens. 

Além dos que estão em Piniers, existe um número indeterminado de menores nas proximidades do porto de Ceuta que aguardam a oportunidade de embarcar num navio para chegar ao território continental de Espanha. 

Os grupos de jovens que circulam pela cidade diminuíram consideravelmente mas ainda há alguns que escaparam às autoridades.

A noite de quarta para quinta-feira foi de "batalha campal" do lado da fronteira marroquina, escrevem os jornais locais. Muitas pessoas ainda queriam passar a fronteira para Espanha mas foram impedidos pela polícia de Marrocos. Mas o dia amanheceu mais tranquilo em Ceuta. As lojas reabriram, as escolas estão a funcionar. Longe dos abrigos de menores, a cidade parece recuperar a sua normalidade.

Maria João Caetano