Se, inicialmente, a comunidade científica acreditava que a fase de incubação do vírus SARS-CoV-2 se prolongava, no máximo, até aos 14 dias, nos últimos meses, estudos têm demonstrado que a probabilidade de desenvolver a infeção dez dias após ter estado em contacto com o novo coronavírus é pouco provável.

Em Portugal, o período de isolamento profilático definido é de 14 dias, no entanto a Diretora-Geral de Saúde admitiu encurtar o período para 10 dias

Parece haver consenso à volta do 10º dia, sobretudo para os doentes, o que seria uma ótima notícia”, disse, no dia 16 de setembro , Graça Freitas.

A Diretora-Geral de Saúde avançou ainda que esta é uma decisão “complexa”, sublinhando que está a ser estudada pelas autoridades de saúde portuguesas em conjunto com os epidemiologistas. “Veremos a melhor evidência, mas era uma boa notícia”, disse.

Em Espanha, no entanto, "a boa notícia" tornou-se realidade. As autoridades de saúde, com o consenso de todas as comunidades autónomas, anunciaram esta terça-feira que o período de quarentena seria reduzido para dez dias.

Uma mudança que engloba todos aqueles que estiveram em contacto com um infetado com o novo coronavírus e que não exibem sintomas há três dias. O objetivo é claro: reduzir a pressão sanitária, diminuir o peso na carteira e incentivar ao cumprimento do confinamento na totalidade.

Previamente à decisão tomada pela Comissão de Saúde Pública do governo espanhol, um doente diagnosticado com o vírus SARS-CoV-2 podia ficar apenas dez dias em isolamento caso não exibisse nenhum sintoma durante 72 horas. Ainda assim, todos os contactos diretos com os infetados deviam permanecer em quarentena durante 14 dias.

A alteração coloca um ponto final ao período de isolamento de 14 dias, mas não é inédita nem no mundo, nem na Europa. Países como a Polónia, os Estados Unidos e a França já têm períodos de isolamento menores.

Porém, o debate sobre a eficácia desta medida permanece aceso na comunidade científica, com alguns epidemiologistas e especialistas a garantirem que o fim do isolamento profilático ao décimo dia não é uma decisão completamente segura.

 

Estados Unidos foi o primeiro país a adotar um período de 10 dias

Os Estados Unidos foram o primeiro país a adotar um confinamento mais curto e a oferecer provas científicas sobre as suas vantagens. O Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) anunciou a redução do tempo total de isolamento em julho, justificando a decisão com estudos que demonstram que, em pacientes com sintomas leves e moderados, o vírus não tem capacidade de transmissão após o décimo dia.

É estimado que o vírus dentro de 88 a 95% dos pacientes infetados não tem capacidade de se replicar dez dias após o início dos sintomas. Os dados disponíveis indicam que pessoas com sintomas leves a moderados não permanecem infecciosas após essa data”, revela um estudo do CDC sobre esta matéria.

O organismo norte-americano indica que uma nova infeção pelo vírus SARS-CoV-2 ainda não foi “confirmada definitivamente em pacientes recuperados”, salientando que um teste de despiste 90 dias após o início da infeção “representa provavelmente um derramamento persistente do material genético do vírus” e não uma segunda infeção.

Foi com base na investigação do organismo norte-americano que vários países, incluindo a Suíça e a Hungria, começaram a ver com bons olhos uma redução do tempo total de quarentena.

 

França define sete dias de quarentena

Se Espanha e os Estados Unidos decidiram cortar quatro dias do calendário de isolamento, há países, como a França, que optaram por reduções mais drásticas.

No dia 12 de setembro, o primeiro-ministro anunciou que o período de quarentena seria reduzido para sete dias. 

Olivier Véran, ministro da Saúde francês, adiantou ao jornal Inter que a população infetada “é mais contagiosa durante os primeiros cinco dias após o surgimento de sintomas. Depois, a capacidade infecciosa diminui drasticamente”.

O primeiro-ministro Jean Castex afirmou, no entanto que o “vírus continua a circular mais e mais e, embora se manifeste muito nos jovens, acaba por infetar aqueles que são mais vulneráveis”.

A redução do tempo foi criticada pelo o ex-Diretor-Geral da Saúde francês, William Dab, que, em entrevista ao Journal du Dimanche, salienta que a medida irá fazer com que as pessoas baixem a guarda, “num momento em que a circulação do vírus está muito activa”.

Ainda assim, a medida tomada pelo executivo francês foi aplaudida internacionalmente por especialistas, como Antoine Flahault, diretor do Instituto Global de Saúde da Universidade de Genebra, que apelou a um pragmatismo maior.

Temos, agora, de ser pragmáticos e eficientes: a quarentena deve durar cinco dias úteis, apenas. Após esse tempo, menos de 10% dos portadores do vírus são contagiosos”; disse, defendendo uma redução maior.

 

 

Alemanha: cinco dias de quarentena no futuro?

Reduzir o tempo obrigatório de quarentena para cinco dias não parece um cenário demasiado futurista na Alemanha, onde um dos consultores principais do governo afirmou, no início de setembro, que 14 dias de isolamento - medida atualmente em vigor no país -  é demasiado tempo.

Os estudos dizem-nos que as pessoas já não são infecciosas a partir do quinto dia. Essa deve ser a altura limite para o fim do período de quarentena”, aconselhou Christian Drosten, diretor do Serviço de Virologia do Hospital Charité, em Berlim

Drosten disse ainda que é importante que a quarentena não se torne num confinamento “efetivo” e argumentou que é inútil que as escolas e os locais de trabalho voltem a abrir portas sujeitas a isolamentos de semanas.
 

 

Rússia exclui restrições e Pequim duplica tempo de isolamento

No dia 15 de julho, a Rússia colocou um ponto final na obrigatoriedade de os passageiros internacionais serem sujeitados a um período de isolamento. 

Segundo um decreto assinado pelo ministro da Saúde, Mikhail Murashko, tanto estrangeiros, como pessoas de nacionalidade russa são apenas forçados a mostrar um teste PCR negativo com menos de três dias, ou realizarem um teste três dias após a chegada.

Embora a tendência dos países europeus seja para uma diminuição do período de isolamento, na China aconteceu precisamente o oposto.

 

Em junho, as autoridades de saúde chinesas decretaram que o período de quarentena em Pequim passava a ter a duração de 28 dias, o dobro do registado no passado, devido ao surto de coronavírus num mercado no distrito de Xinfadi.

Shi Quoqing, especilista da Comissão Nacional de Saúde, justificou a decisão com o facto de a maior parte dos trabalhadores em quarentena pertencer à indústria do processamento de carnes.

Ademais, porque muitos dos infetados recebeu um primeiro teste negativo, o especialista argumentou que o valor do teste nuclear e a demonstração de sintomas não são indícios suficientes para comprovar a ausência viral no organismo.

 

De 28 para sete: o caso de Querala

Na Índia, Querala foi o primeiro estado a anunciar um período obrigatório de 28 dias de quarentena. Um exemplo seguido pelos estados de Karnataka, Assam e Odisha.

Nos casos de Querala e de Karntaka, a medida foi necessária devido ao fluxo de emigrantes que regressaram do estrangeiro. Muitos destes casos, alertaram as autoridades médicas locais, regressaram a casa assintomáticos e acabaram por testar positivo após o fim da quarentena.

Porém, esta terça-feira, o governo de Querala decidiu reduzir o período de isolamento para sete dias. Na prática, se alguém contactar com um infetado  e não desenvolver sintomas durante sete dias pode terminar a quarentena.

Em relação à eficácia da redução do período de isolamento na Europa e no mundo, a comunidade científica parece concordar que o mais importante “é não deixar escapar ninguém”. 

Toni Trilla, chefe de Medicina Preventiva do Hospital Clínic em Barcelona admite ao El País que “há situações económicas e sociais muito complexas que tornam difícil a quarentena”, mas reitera que o isolamento é uma das armas mais importantes na luta contra a covid-19.