A luta pelo controlo da estratégica vila de Palma, no extremo norte de Moçambique, deixou, esta segunda-feira, dezenas de corpos decapitados nas ruas. Milhares de pessoas estão desaparecidas, depois dos ferozes combates entre os radicais islâmicos e o exército moçambicano.

O movimento terrorista Estado Islâmico reivindicou a autoria do ataque. Dezenas de civis, incluindo sete pessoas que tentavam fugir do principal hotel, de Palma, foram mortos pelo grupo armado. O grupo reivindica a morte de 55 pessoas.

Informações sobre a atual situação no terreno são escassas. No entanto, os aviões e navios carregados de refugiados não param de chegar à cidade de Pemba, 200 quilómetros a sul do local do ataque.

Um navio com cerca de mil deslocados de Palma que desde quarta-feira pedem ajuda na península de Afungi é esperado entre esta terça e quarta-feira em Pemba, disse à Lusa fonte da petrolífera Total.

O navio transporta a população mais carenciada após o ataque de dia 24 e que tem passado por dificuldades por falta de alimentos, água e abrigo junto ao recinto do projeto de gás, local onde procuraram segurança.

A violência na região provocou uma autêntica crise humanitária, com mais de duas mil mortes e 670 mil pessoas deslocadas, sem habitação, nem alimentos.

Crianças são o principal alvo

Esta segunda-feira, um avião dos serviços humanitários das Nações Unidas aterrou no aeroporto de Pemba, norte de Moçambique, e do interior saíram crianças e adultos, regressados de Palma. Um bebé de um ano vem no interior, juntamente com a mãe e outros familiares. Tem uma bala alojada na perna, foi alvejado enquanto a mãe o levava ao colo da fuga de Palma, na quarta-feira.

Calmo e nutrido, tem o ferimento tratado, mas vai voltar a ser observado no banco de socorro do Hospital de Pemba para que, de uma vez por todas, se extraia a bala.

As necessidades das crianças deslocadas em Cabo Delgado "superam em muito os recursos disponíveis para apoiá-las" e muitas vezes elas são o alvo de violência, alerta a organização humanitária Save the Children.

Uma mulher, de 28 anos, mãe de quatro filhos, relatou à ONG que viu o seu filho mais velho, de 12 anos, ser decapitado enquanto tentava esconder os seus outros três filhos.

Naquela noite, a nossa aldeia foi atacada e as casas foram queimadas. Quando tudo começou, eu estava em casa com os meus quatro filhos. Tentámos escapar para a floresta, mas eles apanharam o meu filho mais velho e decapitaram-no. Não podíamos fazer nada porque também seríamos mortos”, contou.

Como reflexo da pirâmide etária do país, cerca de metade das pessoas afetadas pela violência são menores de 18 anos, presenciando muitas vezes morte e destruição e sendo elas próprias alvo das partes em conflito.

Milhares de pessoas continuam na província de Afungi, junto do recinto do projeto de gás do norte de Moçambique, com medo dos terroristas do Al-shabaab.

Quem é o grupo que aterroriza Moçambique?

Em outubro de 2017, cerca de 30 homens armados lançaram uma operação contra três esquadras de polícia em Mocímboa da Praia, uma cidade portuária na província de Cabo Delgado, uma região predominantemente muçulmana na fronteira com a Tanzânia.

Três anos depois, o conflito já criou raízes e o grupo Ahlu Sunnah Wa-Jama, também conhecido por Al-Shabaab, desencadeou uma crise humanitária semelhante à provocada pelos tempos de guerra civil em Moçambique.

No ano passado, os rebeldes islâmicos começaram a aumentar a frequência e violência dos seus ataques e a publicar vídeos de combatentes a agitar bandeiras negras e a jurar lealdade ao ISIS, o autoproclamado Estado Islâmico. Em agosto passado, tomaram novamente a cidade de Mocímboa da Praia, que ainda está sob o controlo do grupo.

As táticas do Al-Shabaab envolveram queimar aldeias e decapitar habitantes locais enquanto as tropas moçambicanas lutam para recuperar terreno na remota província florestal, com a ajuda de companhias militares privadas.

Com o ataque desta semana, os rebeldes tentam assumir o controlo da vila de Palma, a apenas dez quilómetros do centro nevrálgico do megaprojeto de gás natural que representa um dos maiores investimentos de África, liderado pelo grupo francês de energia Total.

O grupo é liderado por Abu Yasir Hassan, a quem os Estados Unidos da América atribuem o papel de líder do ISIS-Moçambique.

Do lado do governo, milhares de soldados moçambicanos foram destacados para Cabo Delgado, mas a capacidade de Moçambique para combater o grupo é limitada. De acordo com um relatório publicado pela Amnistia Internacional, o governo moçambicano contratou a empresa militar privada sul-africana, Dyck Advisory Group (DAG), que também está a ser alegadamente ajudada por mercenários russos da Wagner.

Portugal envia militares

Portugal vai enviar uma equipa de 60 militares das forças especiais para ações de formação conjuntas com as Forças Armadas moçambicanas, num plano de cooperação bilateral para combater os jihadistas que aterrorizam a província de Cabo Delgado, no norte de Moçambique.

Os primeiros elementos do contingente português que vai ajudar na formação das forças militares moçambicanas partirão na primeira quinzena de abril, confirmou à Lusa o Ministério da Defesa.

Augusto Santos Silva revelou que foi criada uma equipa, liderada pelo cônsul-geral português em Maputo, que se encontra em Pemba e vai referenciar todos os cidadãos portugueses no local. O objetivo é avaliar a necessidade de apoios sociais e humanitários.

O  que vamos destacar são formadores para formar fuzileiros e comandos. São militares que têm essas valências, forças especiais”, afirmou à Lusa o ministro da Defesa, Gomes Cravinho, no passado dia 17, frisando que decorre o planeamento com as autoridades moçambicanas.

EUA reagem aos ataques

Também o governo norte-americano já demonstrou, através do porta-voz do Pentágono, John Kirby, vontade de apoiar a luta contra os terroristas do Estado Islâmico, em Moçambique.

Continuamos determinados a cooperar com o governo de Moçambique no contraterrorismo e no combate ao extremismo violento e a derrotar o ISIS”, afirmou o representante do Departamento da Defesa, em resposta a uma questão acerca do ataque contra a vila de Palma.

Os ataques "demonstram uma total falta de respeito pelo bem-estar e segurança da população local, que sofre terrivelmente com as táticas brutais e indiscriminadas dos terroristas", adiantou.

 A consultora NKC African Economics considera que uma intervenção internacional é inevitável no norte de Moçambique e salientou que o ataque da semana passada "foi estratégico" porque impede os trabalhos no megaprojeto de gás.

O ataque a Palma foi um ataque estratégico, tendo em conta a proximidade com as operações da Total, e o 'timing' pode ter tido a ver com a decisão de recomeçar os trabalhos", escreveu o analista Zaynab Mohamed numa nota enviada aos clientes, e a que a Lusa teve acesso.

No comentário à violência que se vive na região, Zaynab Mohamed acrescentou que "vai ser necessária uma intervenção internacional para recuperar o controlo e atingir a estabilidade na região", já que a única estrada que pode levar mantimentos até à zona do megaprojeto de transformação do gás é controlada pelos terroristas.

João Guerreiro Rodrigues / com Lusa