É já esta quarta-feira que o mundo assiste a uma das transições mais esperadas. Joe Biden toma posse como 46.º presidente dos Estados Unidos da América (EUA), colocando fim a um legado de unilateralismo, polémica e descrédito do cargo, que ficam naturalmente colados a Donald Trump.

O dia da tomada de posse nos EUA é uma data solene. Embora não o deixe de ser este ano, naturalmente que as circunstâncias ligadas à pandemia de covid-19 transformam o evento num ato único e sem precedentes na história.

Menos lugares, menos gente, ausência de bailes, ausência de desfiles... faltarão muitas das atrações principais desta cerimónia.

Ainda assim, haverá todo um calendário para ser escrupulosamente cumprido por Joe Biden, que estará sempre secundado pela próxima vice-presidente, Kamala Harris.

Como se não bastasse a pandemia, a recente invasão ao Capitólio norte-americano, levada a cabo por apoiantes do presidente cessante, acabou por baralhar ainda mais as contas das equipas de segurança. Assim, as restrições são ainda maiores, sendo que muitas delas, como a proibição de circulação, cancelamento de viagens ou suspensão de linhas de metro já estão em prática há vários dias.

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Grande parte das celebrações serão feitas via online, mas para quem vai ao local, os responsáveis pelo evento exigem a utilização de máscara, vão fazer o controlo da temperatura à entrada e zelar pelo distanciamento social entre todos os participantes.

Também a pensar na pandemia, o comité responsável pela organização da tomada de posse pediu que os edifícios públicos e as igrejas de Washington D. C. se iluminassem no dia 19 de janeiro, como forma de prestar homenagem às quase 400 mil pessoas que morreram de covid-19 no país.

Quando, como e onde?

Todos os presidentes norte-americanos devem cumprir um momento solene antes de o serem oficialmente. Com uma mão na Bíblia, e repetindo palavras que lhe vão sendo ditas, Joe Biden jurará defender e fazer cumprir a Consituição norte-americana.

O ponto nevrálgico da cerimónia serão as escadas do Capitólio, precisamente duas semanas depois de o edifício ter sido invadido.

Eu, Joe Biden, juro solenemente que vou executar de boa fé o cargo de presidente dos EUA e vou, com o melhor das minhas capacidades, preservar, proteger e defender a Constituição dos EUA. Que Deus me ajude", será qualquer coisa deste género que sairá da boca do democrata.

Este momento está marcado para as 11:00 locais (quando serão cerca de 16:00 em Portugal). Há quatro anos era Donald Trump quem fazia o juramento.

Dali, Joe Biden seguirá, por volta das 14:00 locais (19:00 em Lisboa) com a sua comitiva para a Casa Branca, espaço que vai ocupar pelo menos durante os próximos quatro anos. Este é um percurso que costuma ser feito a pé, numa caminhada entre o Capitólio e a casa oficial do presidente, percorrendo toda a Avenida da Pensilvânia. São cerca de 40 minutos, pouco menos de três quilómetros.

Ao longo desse percurso estarão estrategicamente colocadas 191.500 bandeiras dos EUA, havendo também 56 pilares com luzes decorativas, em memória daqueles que não vão estar presentes.

Por causa da covid-19, e também devido ao ataque ao Capitólio, este percurso vai ser feito de carro. Os grandes espaços verdes entre ambos os edifícios, normalmente cheios de gente, deverão estar desta vez quase desertos.

Populares aguardaram horas pela tomada de posse de Donald Trump em 2017

Esse cenário é sobretudo derivado da invasão ao Capitólio. Antes do ataque, e mesmo atendendo à pandemia, a organização tinha previsto montar bancadas acessórias para que a população pudesse assistir ao desfile.

Lady Gaga, Jennifer Lopez e Tom Hanks na cerimónia

Logo a seguir ao juramento de Joe Biden e Kamala Harris, será a vez de ser cantada a "The Star-Spangled Banner", o hino nacional dos EUA. Este ano, a melodia será interpretada por Lady Gaga, fervorosa apoiante do próximo presidente norte-americano. Antes disso, a antiga cantora de ópera Andrea Hall vai fazer o juramento à bandeira norte-americana.

Seguir-se-à a leitura de um poema por parte de Amanda Gorman, e depois Jennifer Lopez deve encerrar a cerimónia artística com mais um momento musical.

A primeira parte da cerimónia termina com a benção dada pelo reverendo Silvester Beaman, amigo pessoal de Joe Biden, pertencente ao episcopado metodista do estado de Delaware, onde o próximo presidente vive.

De seguida, Joe Biden e Kamala Harris dirigem-se para a cerimónia de assinatura, considerado o primeiro ato oficial da nova administração. Os participantes comemoram o ato com um brinde, uma tradição que se cumpre desde 1897.

Sempre no Capitólio, o presidente e a vice-presidente empossados dirigem-se para a frente este do edifício, onde vão assistir a uma parada que junta militares, cidadãos e outros conjuntos, que deverão marchar a já referida Avenida da Pensilvânia até à Casa Branca.

Mais à noite, a estrela de Hollywood Tom Hanks junta-se aos músicos Jon Bon Jovi, Demi Lovato e Justin Timberlake, no momento que abre o baile virtual, já à noite. O ator será o anfitrião do evento que começa por vota das 20:30 locais (01:30 em Lisboa) e dura cerca de 90 minutos, sendo transmitido para todo o país.

Vão ainda participar na cerimónia nomes como Lin-Manuel Miranda, Foo Fighters, John Legend, Kerry Washington, Eva Longoria, Bruce Springsteen ou Kareem Abdul-Jabbar.

Se quiser seguir a cerimónia de forma integral basta aceder às redes sociais oficiais: Youtube, Facebook, Twitter e Twitch.

Pode também acompanhar em direto na TVI24, onde uma emissão especial vai estar no ar desde as 16:00.

Para não perder pitada, confira aqui o calendário de todo o evento.

Calendário da tomada de posse de Joe Biden

Evento Hora
Programa dedicado aos mais jovens, com mensagem da futura primeira-dama Jill Biden 10:00 às 12:30 locais (15:00 às 17:30 de Lisboa)
Cerimónia de tomada de posse 11:00 locais (16:00 em Lisboa)
Parada militar Hora a definir
Visita ao cemitério de Arlington Hora a definir
Escolta até à Casa Branca 14:00 locais (19:00 em Lisboa)
Parada virtual Hora a definir
Baile virtual 20:30 locais (01:30 em Lisboa)

Todos estes eventos poderão ser seguidos através das redes sociais divulgadas acima.

A lista com as músicas que serão passadas pelos produtores musicais D-Nice e Raedio, responsáveis por esta parte, também já foi divulgada. Pode consultá-la aqui: https://ffm.to/bidenharris2021.

De Led Zeppelin a Kendrick Lamar, animação será o mote para o evento. 

Os presentes, o ausente e as histórias do passado

Apesar de ser uma cerimónia com muito menos gente do que o habitual, várias figuras da política e sociedade dos EUA vão marcar presença. É o caso dos três ex-presidentes Bill Clinton, George W. Bush e Barack Obama. Neste ponto, o grande destaque vai mesmo para a ausência: Donald Trump.

Na passagem de testemunho para Joe Biden, o republicano não vai marcar presença na cerimónia. Será apenas a quarta vez que o presidente incumbente não está na tomada de posse do sucessor.

A última vez foi em 1869, quando Andrew Johnson recusou estar presente na cerimónia de tomada de posse de Ulysses S. Grant. Esta não é a única semelhança entre Johnson e Trump. Em 1868, o então presidente viu ser-lhe instaurado um processo de destituição, sendo que dessa vez a Câmara dos Representantes levou a sua avante.

No ano seguinte acabaria por perder as primárias democratas na corrida para a reeleição.

Os outros dois exemplos são John Adams (1801) e John Quincy Adams (1829). O primeiro falhou a tomada de posse de Thomas Jefferson, que havia sido seu vice-presidente. Quanto ao segundo, faltou à tomada de posse de Andrew Jackson.

Na decorrência das eleições anteriores, que tinham ficado marcadas por uma polémica com os dois candidatos, ambos decidiram concorrer novamente em 1828.

Conta a Casa Branca, no seu site oficial, que os dois fizeram uma "campanha suja".

Adams era retratado como extravagante e corrupto, Jackson foi denunciado como uma czar americano. Pior que isso, as duvidosas circunstâncias do casamento de Jackson estavam a ecoar por todo o lado", pode ler-se na página.

De notar que estes eram outros tempos, tanto que Andrew Jackson matou um advogado num duelo, depois de a vítima ter insultado a mulher do assassino.

Contudo, Donald Trump não será o único antigo chefe de Estado a faltar à cerimónia. Jimmy Carter e a sua mulher, Rosalynn, vão faltar a este evento pela primeira vez em 30 anos. O antigo presidente e a mulher, com 96 e 93 anos, não marcarão presença por uma questão de saúde pública.

Quem não vai faltar, num gesto quase desafiador para Donald Trump, é o seu ainda vice-presidente, Mike Pence.

António Guimarães