Preso desde 1991, por homicídio, na cadeia de Attica, em Nova Iorque, Valentino Dixon viu agora provada a sua inocência no caso que o ia manter nos calabouços por quase 40 anos. Não foi a investigação que o ajudou, nem os advogados, nem mesmo a sua palavra de inocência. Foram os desenhos que fez sobre um campo de golfe e que uma revista quis partilhar.

A arte criada por Dixon, e que a revista Golf Digest publicou em 2012, foi o que chamou a atenção para as fracas provas que sustentaram a condenação em 1991.

Depois de ter passado 27 anos encarcerado, a condenação a este homem de 48 anos com uma especial aptidão para o desenho foi agora retirada.

“Parecia pacífico como pescar”

Embora nunca tenha pisado um campo de golfe, pelo menos até sair da prisão, a visão que Dixon tinha deste lugar impressionou um guarda prisional de Attica.

Foi esse segurança da prisão que, ao saber que Dixon gostava de desenhar, mostrou ao recluso uma fotografia de um relvado para a prática do golfe e o fez querer reproduzir em desenho. Assim o fez.

Alguma coisa na relva e no céu era rejuvenescedor”, afirmou Dixon. “Parecia pacífico. Eu imagino que jogar seja muito parecido a pescar”, escreveu o ex-recluso, que teve a oportunidade de assinar uma coluna na revista ao longo dos últimos anos, depois de ter feito mais de 100 desenhos de campos de golfe enquanto ainda estava na prisão.

Esta ligação à publicação especializada na modalidade desportiva, e em nada ligada ao direito ou à justiça, levou o diretor editorial Max Adler a pesquisar sobre o processo. Percebendo que se tratava de uma condenação pobre em factos, escreveu um artigo sobre a fragilidade do caso, o que criou agitação nos meios de comunicação social e chamou as atenções para Dixon.

Foi neste contexto que jovens advogados voluntários de uma iniciativa sobre prisões e justiça da Universidade de Georgetown, em Washington, se cruzaram com o caso e decidiram intervir.

Uma vez que um caso ganha atenção dos media, torna-se relevante, mesmo que não seja”, afirmou Donald Thompson à Golf Digest, um dos advogados que trabalhou neste processo. Mas não foi apenas à comunicação social que a história chegou.

Além de todos os esforços para ajudar Dixon, um homem já preso por outros crimes acabou por assumir a autoria do crime em questão.

"É constrangedor para o sistema legal que, ao longo deste tempo todo, a melhor apresentação da investigação foi de uma revista de golfe”, continuou Thompson.

Em 2012, numa publicação que assinou na revista, Dixon escreveu que, caso tivesse ficado em liberdade em 1991, podia já não estar vivo, mas não por ser um homicida.

Quando eu era mais novo era inútil para a sociedade, isso eu não contesto. Mas não sou um assassino. Isso é o pior que alguém pode ser, e eu não sou isso. Espero que os meus desenhos bastem para que todos percebam isso”, destacou o ex-recluso, sem saber que seriam mesmo esses desenhos a ajudar a provar a inocência.