O Departamento de Justiça dos Estados Unidos acredita que o consulado chinês em São Francisco está a esconder uma investigadora que é procurada pelo FBI depois de ter mentido sobre o seu historial militar.

Segundo a agência Associated Press, Tang Juan terá mentido sobre a sua afiliação militar quando submeteu os formulários de candidatura ao visto de trabalho. O processo deu entrada em outubro de 2019, com a cidadã chinesa, especialista em biologia, a procurar uma autorização para trabalhar na Universidade da Califórnia, na cidade de Davis.

O FBI descobriu também que a mulher trabalhou numa universidade militar chinesa, facto esse que também foi escondido aquando da aplicação para o visto de trabalho.

As autoridades norte-americanas acreditam que a mulher terá servido o exército chinês e referem que terá voltado a mentir há cerca de um mês, quando foi confrontada com os factos.

Os agentes do FBI encontraram fotografias de Tang Juan vestida com um uniforme do Exército de Libertação Popular, braço militar do Partido Comunista Chinês desde a sua criação, em 1927. Junto com as imagens estavam documentos e artigos que poderão provar a ligação da investigadora àquela força armada.

Quando foi interrogada pelo FBI, a mulher negou pertencer àquele exército, e afirmou mesmo que não conhecia o significado das insígnias ou dos uniformes com que aparecia vestida.

Mais tarde, e na sequência de uma queixa por alegada fraude para a emissão de um visto de trabalho, as autoridades acabaram por conduzir buscas à casa de Tang Juan, onde encontraram mais provas da sua ligação militar.

O FBI comunica que, numa dada altura a seguir à investigação e à entrevista conduzidas a Tang Juan, a 20 de junho, Tang Juan foi para o consulado da China em São Francisco, onde o FBI acredita que ela continua", pode ler-se numa nota escrita pelo Departamento de Justiça citada pela agência AP.

Segundo a CNN, Tang Juan não é um caso isolado. No início de junho, Xin Wang, investigador na área das doenças cardiovasculares, foi detido no aeroporto da cidade de Los Angeles, também na Califórnia, quando tentava viajar para a cidade chinesa de Tianjin. Já esta semana, a investigadora Chen Song, da Universidade de Stanford, igualmente na Califórnia, foi detida sob acusações de falsas declarações para a obtenção do visto de trabalho.

Estas alegações surgem a meio de um escalar de tensões entre os Estados Unidos e a China, particularmente relacionadas com alegados roubos de propriedade intelectual, com as autoridades norte-americanas a suspeitarem de atos de espionagem por parte de investigadores que teriam ligações ao governo e ao exército chinês.

Já esta semana, a China informou que os Estados Unidos tinham ordenado o encerramento do consulado chinês na cidade de Houston. Ainda antes desse episódio, o Departamento de Justiça norte-americano informou que tinha acusado dois cidadãos chineses de pirataria informática a empresas que estão a trabalhar no desenvolvimento de vacinas contra a doença Covid-19.

Várias teorias têm surgido sobre uma alegada rede de espionagem montada pelo governo chinês nos Estados Unidos, com os seus agentes a operarem precisamente a partir dos consulados chineses em solo norte-americano.

Através do porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, a China negou as acusações norte-americanas, classificando-as como “maliciosas”, e prometeu retaliar contra a decisão “ultrajante” de encerrar o consulado em Houston.

António Guimarães