O futuro político de Donald Trump depende agora da gravidade dos sintomas da doença nos próximos dias, depois de o presidente dos EUA ter ficado infetado com o novo coronavírus, dizem especialistas.

Em plena campanha eleitoral para as eleições presidenciais de 3 de novembro, a contaminação de Trump coloca várias questões sobre a sua capacidade de continuar a exercer o cargo de presidente e de permanecer nos boletins de voto como candidato republicano.

Vários especialistas em Ciência Política contactados pela Lusa concordam em que as respostas a estas questões dependem de duas variáveis: a gravidade da doença do Presidente e a forma como ele próprio quererá assumir o seu estado de saúde.

Donald Trump escreveu na sua página pessoal da rede social Twitter, esta madrugada, que tinha testado positivo à covid-19 e que iria ficar em quarentena, num anúncio que deixou o país em alerta e está a multiplicar reações em todo o mundo.

Se continuar assintomático, Trump poderá ser afetado politicamente na campanha, mas nada o impedirá de continuar a exercer o cargo e a manter a sua campanha de recandidatura; mas se os sintomas se agravarem, poderá de ter de transferir o poder para o seu vice-Presidente e, em caso de doença muito grave, poderá mesmo levar a que o Partido Republicano retire o seu nome dos boletins de voto.

Num comunicado emitido horas depois do anúncio da contaminação, o médico pessoal de Trump, Sean Conley, disse que “o Presidente e a primeira dama estão bem, neste momento, e planeiam ficar na Casa Branca, durante a sua convalescença”, acrescentando que as pessoas podem “ficar descansadas” porque acredita que “o Presidente vai poder continuar a desempenhar os seus deveres sem interrupção, enquanto recupera”.

Contudo, Conley prometeu continuar a dar mais informações sobre o estado de saúde do Presidente, assumindo que a sua condição pode mudar, sabendo-se que, aos 74 anos e com 130 quilogramas de peso, Trump pertence a um grupo de risco para covid-19 e pode ganhar sintomas durante as próximas horas ou próximos dias.

“Isso faz toda a diferença. Se ele ficar gravemente doente, como esteve, por exemplo, o primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, pode ter de depositar o poder no vice-Presidente, Mike Pence, e deixar de participar totalmente nas atividades de campanha. E isso vai alterar quase tudo, nesta campanha eleitoral”, disse à Lusa, Jennifer Logan, professora de Ciência Política da Universidade George Washington.

Também Patrick Siegler-Lathrop, presidente do American Club de Lisboa e autor de um livro sobre o sistema eleitoral norte-americano, explicou que, se Trump se mantiver assintomático, esta doença poderá afetar as aspirações políticas do candidato republicano, mas não o deverá impedir de continuar a concorrer a um novo mandato.

“O impacto será ligeiramente negativo”, diz Siegler-Lathrop, referindo-se ao facto de o tema da pandemia, que lhe é adverso, tomar conta da campanha e o obrigar a reconhecer o seu impacto na sociedade norte-americana.

O presidente do American Club de Lisboa não acredita que a questão tenha grande impacto na perceção dos eleitores, recordando que cerca de 90% já terão decidido o seu voto, embora admita que a doença do Presidente afetará sempre esta fase final da campanha.

A especialista em Ciência Política Jennifer Logan mostra-se preocupada com a possibilidade de Donald Trump ficar gravemente doente e não o querer admitir, para evitar fragilizar as suas possibilidades de reeleição, recordando que apenas ele poderá transferir o poder para Mike Pence (que já testou negativo ao teste de covid-19, esta madrugada).

A mesma analista diz ainda que, no caso de ele ficar seriamente doente, o Partido Republicano poderá decidir retirar o seu nome dos boletins de voto e escolher ainda um novo candidato, antes das eleições, ou substituir o nome de Trump pelo de Mike Pence.

Siegler-Lathrop considera que este é um cenário pouco provável, tendo em conta que “o Partido Republicano está totalmente controlado por Trump” e que os seus dirigentes dificilmente arriscarão tomar uma decisão à revelia do Presidente.

Outra questão que a comissão eleitoral norte-americana começa agora a analisar é a da realização dos dois debates televisivos restantes, marcados para dias 15 e 22 de outubro, que poderão vir a ser anulados ou transferidos para um modelo de videoconferência, se Trump ainda estiver em quarentena.

Jennifer Logan chama ainda a atenção para o impacto da doença do Presidente na sua própria equipa governativa, lembrando que, nos últimos dias, Trump esteve em presença prolongada junto do secretário de Saúde, Alex Azar, e da secretária de Educação, Betsy DeVos, que devem estar agora a realizar testes de covid-19, e que não se sabe se poderão manter as suas funções.

O secretário de Estado norte-americano, Mike Pompeo, que se encontra em digressão fora dos EUA, já anunciou que não está contaminado e poderá continuar a exercer as suas funções, mas vários dos assessores e conselheiros do Presidente estão agora em risco e não há nenhuma certeza de como irão assegurar as suas funções nas próximas semanas.

/ RL