O exército dos Estados Unidos negociou de forma secreta com os talibãs o acesso de pessoas ao aeroporto de Cabul, no Afeganistão. Isso mesmo foi confirmado por fontes da Defesa à CNN, o que terá permitido que vários cidadãos tenham deixado o país em segurança, fazendo parte das mais de 120 mil pessoas salvas em apenas 17 dias.

Um dos oficiais ouvido pela CNN revelou que as operações consistiram na abertura de uma "porta secreta" no aeroporto e também na organização de "centros de chamada", que ajudaram os militares norte-americanos a guiarem-se durante o percurso.

Antes da retirada, as tropas foram avisadas de "pontos de reunião" previamente marcados e que ficavam perto do aeroporto, um deles um edifício do Ministério do Interior. Nesses locais, coube a membros dos talibãs verificar as credenciais norte-americanas e levá-los para um local que estava a ser monitorizado pelas forças dos Estados Unidos. Tudo isto foi feito à margem das centenas de pessoas que desesperavam junto ao aeroporto por embarcar num dos últimos voos para fora do país.

Mas já se sabia que tal seria impossível. Ainda antes desta segunda-feira, vários responsáveis das forças ocidentais, como a ministra espanhola da Defesa, admitiam que pessoas ficariam para trás.

Os talibãs estão cada vez mais agressivos, os controlos são mais duros. Vamos tirar todas as pessoas que for possível, mas tenho que colocar em valor o esforço das forças espanholas. Sem dúvida que vai ficar gente, mas não os vamos deixar", afirmou em 24 de agosto Margarita Robles.

De resto, entre 100 a 200 norte-americanos que pretendiam deixar o país acabaram por ficar em Cabul, segundo números adiantados pelo governo dos Estados Unidos. Já esta terça-feira, o presidente Joe Biden prometeu não se esquecer desses cidadãos, afirmando que vão ser feitos todos os esforços para os retirar do Afeganistão.

Os Estados Unidos têm mantido relações militares e diplomáticas com os talibãs ao longo dos anos, numa tentativa de assegurar a segurança do local. Apesar disso, este acordo de evacuação entre as duas partes marca uma coordenação a nível tático nunca antes vista.

CNN lembra que o diretor da CIA, William Burns, esteve na semana passada em Cabul, onde se reuniu com Abdul Ghani Baradar, vice-emir do recém criado Emirado Islâmico do Afeganistão, e um dos principais líderes do grupo rebelde. Nesse mesmo encontro poderá ter sido discutido este plano de evacuação que agora é desvendado.

Embora não seja claro se algum americano ficou para trás neste acordo, vários relatos dão conta de cidadãos com passaporte americano ou com visto de entrada nos Estados Unidos que foram impedidos de chegar ao aeroporto.

António Guimarães