O presidente dos Estados Unidos (EUA), Donald Trump, exortou esta terça-feira as Nações Unidas a “pedirem responsabilidades à China” pela sua atuação na fase inicial da expansão da pandemia de covid-19.

Na sua intervenção durante o debate geral da 75.ª sessão da Assembleia Geral da ONU, Trump fez uma dura crítica da atuação da China perante a pandemia, acusando o país asiático, com quem está envolvido em várias frentes de conflito, de não ter alertado para os riscos reais da propagação do novo coronavírus e de ter "ocultado factos relevantes" sobre a crise sanitária.

O presidente norte-americano incitou ainda as Nações Unidas a sancionarem a China pela sua atuação durante a pandemia, antes de lançar vários outros ataques a Pequim, nomeadamente na área ambiental, acusando o governo chinês de ser o principal poluidor dos oceanos, depositando muitas toneladas de plástico nas águas.

Donald Trump aproveitou a sua intervenção para fazer um elogio ao papel dos EUA na “restauração da paz mundial”, lembrando a mediação nos acordos entre Israel e o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos.

“Estamos a criar um novo Médio Oriente”, disse Trump, alegando que os acordos israelo-árabes são igualmente positivos para a paz no planeta e que vai lutar para que surjam novos tratados.

Somos líderes na defesa dos direitos humanos”, disse Trump, invocando os tratados com vários países da América central, na defesa dos interesses dos migrantes que cruzam fronteiras, fugindo de atrocidades de outros países.

Trump falou ainda da retirada de tropas norte-americanas do Afeganistão, como uma prova de que os Estados Unidos estão envolvidos em soluções de pacificação de conflitos, apesar do seu poderio militar.

Somos a maior potência militar. (…) Temos as mais poderosas e avançadas armas. Esperamos nunca ter de as usar”, disse Trump, invocando o enorme investimento que os EUA têm feito no desenvolvimento militar.

Trump disse ainda que os EUA foram responsáveis pela “eliminação a 100%” do Estado Islâmico e pelo endurecimento no combate ao terrorismo em várias partes do mundo.

A prosperidade dos Estados Unidos é a base da prosperidade do mundo”, concluiu o presidente norte-americano, prometendo continuar a lutar pela paz e pelo desenvolvimento, acrescentando que acredita que o próximo ano trará um “desenvolvimento sem precedentes”, passada a fase da pandemia.

“Vamos eliminar o vírus. Vamos vencer a pandemia”, disse Trump, dizendo que os EUA estão na busca de uma vacina para a covid-19, que será aplicada em massa logo que esteja disponível.

China rejeita politização da pandemia

O presidente chinês, Xi Jinping, considerou, na ONU, que se deve recusar a politização da pandemia de covid-19 e garantiu que a China “nunca entrará nem numa guerra fria nem numa guerra quente”.

“A China é o maior país em vias de desenvolvimento que sempre seguiu um caminho pacífico e de cooperação. Nunca pretendemos lutar pela hegemonia nem pela expansão e nunca procuraremos as supostas tentativas de influência”, afirmou o chefe de Estado chinês.

Não temos a intenção de entrar numa guerra fria ou numa guerra quente com nenhum país. Pelo contrário, persistimos em ultrapassar as diferenças através do diálogo e solucionar as disputas através de negociações”, acrescentou.

Sem nunca se referir aos Estados Unidos ou ao nome do presidente norte-americano, Xi Jinping mostrou-se contra o protecionismo e unilateralismo e foi ao encontro das palavras do secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, ao defender o multilateralismo e a concertação de posições para ultrapassar as divergências.

A politização da pandemia deve ser recusada e temos o imperativo de criar uma visão aberta e inclusiva, contra o protecionismo e contra o unilateralismo”, observou, salientando que se deve também “repudiar as disputas ideológicas, ultrapassar as armadilhas do choque das civilizações e respeitar mutuamente o caminho de cada país”.

Garantindo que Pequim está a colaborar com várias instituições científicas para se encontrar uma vacina eficaz para combater a covid-19, Xi Jinping lembrou que a própria China já está na fase final de ensaios clínicos para assegurar esse objetivo.

Assim que estiverem disponíveis, iremos oferecê-las como bens públicos globais, priorizando os países em vias de desenvolvimento”, afirmou, referindo que Pequim irá também “cumprir o compromisso” de, nos próximos dois anos, oferecer 2.000 milhões de dólares (quase 1.700 milhões de euros) para programas destinados à agricultura, alívio da pobreza, educação, mulheres, crianças e alterações climáticas.

Para o presidente chinês, a prioridade passa por apoiar os países em desenvolvimento, sobretudo os africanos, e promover o alívio da dívida.

A covid-19 não será a última crise da humanidade e devemos estar preparados para combatermos juntos os eventuais desafios globais. A pandemia lembra-nos que vivemos numa aldeia global interconectada e interdependente. (…) e mostra-nos que a globalização económica é uma realidade objetiva e uma corrente histórica. Não se pode meter a cabeça na areia, como a avestruz”, sublinhou.

Para Xi Jinping, a covid-19 demonstra que a humanidade “necessita de uma revolução” para propiciar formas ecológicas de promover o desenvolvimento e a construção da civilização ecológica, dando o exemplo chinês, cujas medidas ambientais vão permitir atingir as metas mínimas de dióxido de carbono antes de 2030 e materializar a neutralidade do carbono antes de 2060.

Já a nível internacional, o presidente chinês anunciou que a China vai oferecer 50 milhões de dólares (42,4 milhões de euros) ao Plano Mundial de Resposta Humanitária ao covid-19 das Nações Unidas, e idêntico montante, a terceira contribuição, ao Fundo Fiduciário de Cooperação Sul/Sul entre a China e a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO).

Anunciou também a expansão, a partir de 2025, e por mais cinco anos, do programa ligado ao Fundo para a Paz e Desenvolvimento China/ONU e que Pequim vai instalar um Centro Global de Conhecimento e Inovação Geoespacial das Nações Unidas e um Centro Internacional de Investigação de Macrodados também na sede da organização.

A semana de alto nível na Assembleia Geral da ONU começou hoje, num formato sem precedentes nos 75 anos da organização, em que os discursos de chefes de Estado e de Governo será feita por vídeos previamente gravados, devido à pandemia.

/ AG