Uma escultura de Salazar virada para a parede, como se estivesse de castigo, no coração da cidade de Maputo, reflete o sentimento anticolonial, diz o ex-presidente moçambicano Joaquim Chissano.

«Se calhar isso não foi nada de propósito, o de o pôr de castigo a olhar para uma parede, mas a História não deve ser esquecida», disse à Lusa o ex-presidente de Moçambique, quando questionado sobre a posição da estátua do antigo ditador português, em Maputo.

«Existiu Salazar, sim senhor. Ele até fez algumas coisas boas ¿ é preciso lembrar - mas ele estando de cara para a frente ou virada para parede para nós é igual porque nós lembramo-nos de tudo o que ele fez de mal, sobretudo ao nosso país, mas também em relação ao povo português», disse Chissano.

A escultura de bronze, de grandes dimensões, da autoria de Leopoldo de Almeida, que antes da independência de Moçambique ocupava um lugar de destaque na cidade, mostra Salazar de toga e de olhar frontal mas enfrenta, há vários anos, a parede do edifício da Biblioteca Nacional na Avenida 25 de Setembro, centro da capital de Moçambique.

Joaquim Chissano considera Salazar o culpado da guerra colonial e sublinha que se o regime tivesse «interpelado» o movimento de libertação no final da década de 1950 o futuro poderia ter sido diferente, referindo-se em concreto ao encontro entre o primeiro presidente da Frente de Libertação de Moçambique (Frelimo), Eduardo Mondlane, e o antigo ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Franco Nogueira, nas Nações Unidas.

«Salazar foi teimoso e ignorante sobre o que se passava nas colónias. Mentiam muito para ele e quando ele soube nem acreditava porque não tinha parâmetros para medir o que se estava a passar», referiu Chissano, que participou esta semana na conferência «A Ditadura Portuguesa ¿ porque durou, porque acabou» na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Para o ex-chefe de Estado de Moçambique, o passado recente de Portugal e das antigas colónias, os movimentos de libertação e a luta armada devem continuar a ser estudados e investigados pelos historiadores, assim como se devem registar os «contos» e os relatos dos «simples soldados» portugueses que participaram no conflito que se prolongou entre 1961 e 1974.

«Há coisas que não se conseguem ainda medir e há também os contos (relatos). Agora falamos muito dos capitães de Abril, mas temos de falar também dos contos dos soldados como aquele meu amigo soldado que foi ferido, que não sabia ler nem escrever e não sabia o que estava a fazer lá (em Moçambique)», recordou Joaquim Chissano, sobre um militar português capturado pela Frelimo.

«Ele foi ferido e tratado e quando lhe perguntei para onde ele queria ir, ele dizia que queria voltar para a namorada e para a mãe, mas que também não sabia o que o esperava aqui em Portugal», relatou o antigo combatente da Frelimo.

«Eu quis gravar a voz dele para mandar (a cassete) como mensagem para a mãe e para a namorada mas ele não sabia o que queria gravar e perguntava: «Mas a minha voz vai entrar aqui?» Eu disse-lhe, diga alguma coisa para a sua mãe e ele começou a dizer ¿Nossa Senhora¿, ¿minha mãe¿ e ¿Avé Maria¿ e não conseguia acabar nenhuma frase», recordou Joaquem Chissano, quatro décadas após o fim da guerra de libertação nacional.

«Esse soldado, como é que se sentia? Há de haver muitos que viveram a guerra e que ficaram aliviados quando foi o 25 de Abril. Qual foi o sentimento deles?», disse Chissano, que propõe a recolha dos testemunhos dos soldados de baixa patente que foram obrigados a combater em nome do império e da ditadura portuguesa.

Entretanto, o Salazar de bronze, resquício da História no continente africano, vai passar os 40 anos da Revolução virado para uma parede, «de castigo», em Moçambique.
Redação