Uma avaliação independente do Pentágono concluiu esta quarta-feira que o ataque norte-americano com ‘drone’ que matou civis e crianças em Cabul no final da guerra no Afeganistão não foi causado por negligência e não recomendou qualquer ação disciplinar.

Segundo a agência noticiosa norte-americana Associated Press (AP), que cita um alto responsável da Defesa próximo do ‘dossier’, a avaliação, feita pelo tenente-general da Força Aérea Sami Said, concluiu que houve falhas na comunicação e no processo de identificação e confirmação do alvo do bombardeamento.

Said apurou que o ataque aéreo ao alvo errado ocorreu apesar da adoção de medidas de prudência destinadas a impedir precisamente a morte de civis, indicou o mesmo alto responsável, a coberto do anonimato, por estar a falar de um relatório ainda não divulgado.

Como inspetor-geral da Força Aérea, Sami Said não tinha qualquer relação direta com as operações no Afeganistão, razão pela qual foi considerado que seria um avaliador independente neste caso.

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A sua avaliação refere que o ataque com ‘drone’ (aparelho aéreo não-tripulado de controlo remoto) deve ser considerado no contexto do momento, quando as assoberbadas forças norte-americanas estavam a ser inundadas por informação de ameaças às tropas e a civis no aeroporto de Cabul, apenas alguns dias após um atentado bombista suicida. Milhares de afegãos haviam invadido o aeroporto, tentando sair do país após a tomada do poder pelos talibãs, a 15 de agosto.

De acordo com o mesmo responsável, Said concluiu que uma melhor comunicação entre quem toma a decisão de atacar e o restante pessoal de apoio poderia ter levantado mais dúvidas sobre o alvo do bombardeamento, mas no final, poderia não ter conseguido impedi-lo.

Foi pedido a Said que investigasse o ataque de um ‘drone’ a um veículo Toyota Corolla branco, que vitimou Zemerai Ahmadi e nove elementos da sua família, entre os quais sete crianças. Ahmadi, de 37 anos, trabalhava há muitos anos numa organização humanitária norte-americana.

As informações dos serviços secretos sobre o veículo e a potencial ameaça que representava surgiram apenas alguns dias depois de um bombista suicida ter matado 169 cidadãos afegãos e 13 militares norte-americanos junto a um dos portões do aeroporto de Cabul.

Os Estados Unidos estavam a trabalhar para retirar do Afeganistão milhares de cidadãos norte-americanos, afegãos e outros aliados, na sequência do colapso do Governo afegão e da queda do país novamente nas mãos dos talibãs.

Said concluiu que as forças norte-americanas genuinamente acreditavam que o veículo que estavam a seguir constituía uma ameaça iminente e que precisavam de o atingir antes de ele se aproximar mais do aeroporto.

O relatório, que foi aprovado pelo secretário da Defesa, Lloyd Austin, faz várias recomendações que foram transmitidas aos comandantes do Comando Central e do Comando de Operações Especiais: que seja feito mais para impedir aquilo a que os militares chamam “viés de confirmação” – a ideia de que os militares encarregados de tomar a decisão de atacar foram demasiado rápidos a concluir que aquilo que estavam a ver estava de acordo com a informação dos serviços secretos e confirmaram a sua conclusão de bombardear aquele que se verificou ser o veículo errado.

A avaliação recomenda que os militares tenham presente junto da equipa de bombardeamentos pessoal cuja tarefa seja questionar ativamente tais conclusões. O relatório sugere que utilizar uma chamada “equipa vermelha” nesses ataques de autodefesa que estão a ser feitos com rapidez poderá ajudar a evitar erros.

Said também recomendou que os militares melhorem os seus procedimentos para assegurar que crianças e outros civis inocentes não estão presentes antes de lançarem um ataque urgente.

Durante dias após o bombardeamento, os responsáveis do Pentágono afirmaram que ele tinha sido corretamente realizado, apesar de aumentarem os relatos de que tinham sido mortos vários civis, adultos e crianças, e das crescentes dúvidas sobre se o veículo transportava ou não explosivos. Said concluiu que os responsáveis fizeram as suas avaliações iniciais com demasiada rapidez e sem análise suficiente.

Embora a avaliação de Said não aponte falhas individuais ou recomende ação disciplinar, os comandantes poderão decidir tomar medidas administrativas quando lerem o seu relatório.

Entretanto, os Estados Unidos estão a trabalhar para indemnizar a família das vítimas e potencialmente retirá-la do Afeganistão, mas nada disso foi ainda feito.

/ NM