Donald Trump está a querer tornar as eleições intercalares para o Congresso uma espécie de plebiscito à sua presidência.

O Presidente dos EUA sabe que tem mais a ganhar do que a perder com isso.

Se, contra as expectativas de sondagens e analistas, os republicanos preservarem o controlo das duas câmaras, será uma grande vitória política para Trump e o fim das últimas ilusões dos democratas sobre um possível “impeachment” antes de 2020.

Mesmo que os democratas obtenham o controlo da Câmara dos Representantes, isso não será em nada diferente do que aconteceu a Obama em período similar (2010, a meio do primeiro mandato), a Bill Clinton em 1994 ou a Ronald Reagan em 1982.

As eleições norte-americanas para o Congresso da próxima terça-feira marcarão um ciclo que vulgarmente apelidamos de “midterm elections”, o que faz algum sentido porque acontece precisamente a meio do mandato presidencial.

Na verdade, nunca há “intercalares” para o Congresso: de dois em dois anos, toda a Câmara dos Representantes (435 assentos) vai a jogo, na medida em que cada mandato na House vale apenas dois anos. Já para a câmara alta, o Senado, um terço dos lugares (33) vai a jogo.

Tendência democrata, mas só na câmara baixa

As projeções têm dado boas hipóteses aos democratas, mas as contas para as duas câmaras são um pouco diferentes de fazer: na câmara baixa (a House of Representatives), haverá neste momento, 5 hipóteses em 6 para uma vitória democrata; no Senado, em contraponto, os republicanos têm 3 em 4 hipóteses de manter o controlo da câmara alta.

No Senado, neste momento, os republicanos têm uma curta maioria (51), para 47 dos democratas e dois senadores independentes, que geralmente votam alinhados com os democratas.

Poderia parecer missão relativamente fácil para os democratas retomarem o controlo do Senado, mas não é assim tão simples: é que dos 33 lugares que vão a jogo a 6 de novembro, 25 são de democratas e apenas 8 são de republicanos.

É provável que alguns republicanos percam o lugar, mas não é de excluir que também haja senadores democratas que falhem a reeleição.

O mais provável será mesmo que os republicanos mantenham o controlo do Senado – não sendo de excluir que até possam alargar a sua pequena vantagem em 1 ou 2 senadores.

Um dos casos a ver com atenção é o da Florida: Ben Nelson, democrata, tem o seu lugar ameaçado pelo “challenger” republicano, o atual governador do “sunshine state”, Rick Scott.

Quanto vale Beto O’Rourke?

Outro, talvez seja o mais relevante de todos, é o do Texas: Ted Cruz (segundo classificado das primárias à nomeação presidencial republicana para 2016) terá que defender o lugar, depois de ter sido eleito em 2010.

Tendo em conta a sua elevada visibilidade nacional, nada apontaria para uma dificuldade na reeleição, sobretudo se nos lembrarmos que o Texas é uma espécie de "santuário" eleitoral da Direita dos EUA.

Mas várias coisas estão a mudar na política americana: o fenómeno de penalização eleitoral à presidência Trump tem-se feito sentir nas eleições estaduais realizadas nos últimos dois anos (lembremo-nos do Alabama, onde há um ano Roy Moore perdeu a vaga no Senado para o democrata Doug Jones); os movimentos migratórios inter-estaduais -- que nos últimos anos têm levado a um aumento, no Texas, dos votantes latinos e de tendência ideológica menos conservadora.

Acresce a isto tudo um fator decisivo na dinâmica destas eleições para o Senado do Texas: o candidato democrata, Beto O'Rourke, é muito popular e mostra credenciais atrativas para um novo tipo de eleitorado.

Ted Cruz começou a campanha desvalorizando-o, mas depois de algumas sondagens revelarem empate técnico (com Ted à frente só por 1 ou 2 pontos), o caso mudou de figura.

Cruz apontou baterias a Beto e lançou o medo num eleitorado geralmente muito permeável a esse tipo de isco: chegou a dizer que com Beto O'Rourke "seria proibido fazer churrascos no Texas" (numa alusão à defesa dos direitos dos animais, um dos pontos na agenda de O'Rourke).

Ted Cruz ganhou, há seis anos, o lugar, batendo o democrata Paul Sadler por 16 pontos percentuais (57/41).

Há dois anos, Donald Trump ganhou a Hillary Clinton as presidenciais no Texas por 9 pontos (52/43). A média total das sondagens dá um avanço de 5 pontos a Cruz, pelo que, mesmo num cenário indefinido, as contas de uma possível tomada democrata do Senado não deverão passar pelo Texas.

A missão de Beto O'Rourke parece quase impossível, mesmo sendo ele uma "rising star" nacional de um partido que tem a noção que precisa de penetrar mais em estados habitualmente conservadores.

Mas se a surpresa da noite, na próxima terça-feira, for um triunfo improvável de um democrata no mais importante bastião eleitoral republicano, então aí é de admitir que comecemos a ter um pré-candidato presidencial para desafiar a reeleição de Trump em 2020.

Se Beto O'Rourke conseguir ganhar o Texas a Ted Cruz, por certo que terá armas para derrotar Donald Trump na arena nacional.  

O grande prémio está na House

Já na Câmara dos Representantes, a tarefa dos democratas parece mais plausível: neste momento os republicanos têm vantagem de 240-191 (saída de 2016), mas todos os indicadores apontam para um avanço dos democratas na ordem dos 224-211 (última estimativa CBS News).

Donald Trump está a jogar tudo nos candidatos que apoiou nas primárias (em grande número, os candidatos do Presidente levaram a melhor sobre republicanos mais moderados) e está a associar o sucesso do resto da sua presidência ao que possa acontecer a 6 de novembro.

Os democratas mostraram duas tendências, na preparação para estas eleições: a linha mais à esquerda, que tem Bernie Sanders como o seu “campeão”, prevaleceu sobre os herdeiros de Hillary Clinton e de Obama – resta saber se isso, nas eleições contra os republicanos, será a via mais eficaz; de destacar o elevado número de mulheres (a perspetivar-se um Congresso com presença feminina recorde, acima das 100, entre deputadas e senadoras), com forte maioria democrata.

Até agora, a afluência ao voto tem mostrado muita mobilização democrata e menor peso republicano.

Trump vs Ryan: bom ou mau para os republicanos?

Donald Trump assumiu, em entrevista ao "Axios HBO", que tenciona assinar uma ordem executiva presidencial no sentido de retirar direitos de nacionalidade a quem nasça em território norte-americano, de modo a evitar que os filhos dos imigrantes ilegais tenham nacionalidade norte-americana por definição.

Ora, a confirmar-se esta intenção de Trump, podemos estar a falar de uma ordem do Presidente dos EUA que desrespeita a Constituição americana.

No documento fundamental dos Estados Unidos, está escrito: "All persons born or naturalized in the United States and subject to the jurisdiction thereof, are citizens of the United States." Trump quer rebentar com esta garantia fundamental.

Em vez de unir, atira achas para a fogueira. Donald deve achar que os filhos de imigrantes ilegais que nasçam nos EUA, simplesmente, não têm terra, não têm país, não têm direitos, são uma espécie de apátridas.

Bem-vindos à era da intolerância, do desrespeito pelos direitos fundamentais e pela falta de civilidade básica para com o 'Outro'. Parece que é esse o ar do tempo.

Na reação, Paul Ryan, speaker republicano da Câmara dos Representantes, foi muito claro: em declarações à WVLK, uma rádio do Kentucky, desautorizou o Presidente dos EUA, esclarecendo que “não se pode acabar com o direito de cidadania à nascença com uma ordem executiva”.

Trump tinha lançado a polémica na entrevista recente ao “Axios HBO”, quando afirmou a intenção de banir esse direito por decreto presidencial. “Obviamente, isso não se pode fazer”, garantiu Ryan.

Este é um dos casos em que o paradoxo se torna evidente: o desrespeito do atual Presidente dos EUA em relação a direitos consagrados na Constituição americana esbarra na visão conservadora e republicana, que sempre se centrou numa interpretação rígida da lei fundamental norte-americana – apesar de Trump ser apoiado pelos republicanos e conservadores.

“Como conservador, acredito no cumprimento total do texto da Constituição e penso que, nesse caso, a 14.ª Emenda é bastante clara”. Até o líder da Câmara dos Representantes, republicano e suposto aliado do Presidente, nota o desconforto e a contradição.  

"Paul Ryan não sabe nada sobre direitos de cidadania à nascença e devia era estar focado em segurar a maioria republicana no Congresso, em vez de mandar palpites sobre este assunto". A frase é de Donald Trump e foi mesmo assim que o Presidente dos EUA reagiu à correção factual que Ryan lhe fez.

Uma troca de alfinetadas destas, a cinco dias das eleições "midterm", entre o Presidente e o "speaker" da Câmara dos Representantes, revela o estado de anormalidade em que vive o Partido Republicano e a política americana em geral.

Trump está a assumir para si próprio todo o controlo estratégico e político dos interesses republicanos nestas eleições de 6 de novembro, transformando as escolhas para o Congresso como uma espécie de referendo à sua presidência.

Ao dar este enorme "puxão de orelhas" público a Paul Ryan, está a antecipar uma eventual responsabilização do speaker republicano, caso haja um mudança para os democratas (tendência que as sondagens neste momento prevêem, embora não de forma muito clara).

Como é sabido, no "modus operandi" daquele-que-não-é-bem-um-Presidente-dos-EUA, a culpa NUNCA é de Donald Trump. Geralmente é "dos media", dos "democratas", dos "estrangeiros", dos "imigrantes"... neste caso até será de outro republicano (e logo o máximo responsável pelo Congresso).

Não importa que Paul Ryan tenha, obviamente, razão no que disse e Trump tenha ameaçado com algo que a Constituição não lhe permite fazer.

Isso, para a narrativa trumpiana, não interessa mesmo nada.

No mundo de Trump e dos seus obcecados seguidores, a culpa é SEMPRE dos outros.

Germano Almeida