Nas eleições de 24 de janeiro deste ano, Marcelo Rebelo de Sousa venceu as eleições presidenciais à primeira volta ao obter o maior número de votos em Portugal continental e regiões autónomas (52%). Tornou-se o Presidente da República por ordem dos eleitores nacionais, que o escolheram diretamente para o cargo. Parece lógico que os sistemas eleitorais funcionem desta forma: quem tem mais votos é eleito, mas esta ligação entre número de votos e a nomeação para o cargo não existe em todos os países.

Nos Estados Unidos isto nem sempre acontece, que o diga Al Gore, o candidato que em 2000 perdeu a presidência para George W. Bush, mesmo tendo obtido mais de meio milhão de votos que o seu concorrente. Como é que isto aconteceu? De uma forma simples – sem abordar as recontagens que foram feitas após as eleições – Bush venceu o Estado da Flórida e, consequentemente, a presidência.

George W. Bush e Al Gore (Foto: Reuters)

Parece confuso, mesmo sem nexo, mas não é difícil de entender. Num país com mais de 300 milhões de pessoas, divididas em 50 Estados – todos eles com diferentes proporções – é normal que o sistema tenha de ser diferente. Basicamente, quando no dia 8 de novembro os eleitores forem chamados às urnas, não vão votar no seu candidato preferido, mas sim em representantes de cada Estado, que vão participar no Colégio Eleitoral, que depois, sim, escolhe o próximo presidente.

Sem mais rodeios, cada Estado tem um peso diferente, que depende do seu número de habitantes. Quanto maior for o Estado, maior o número de representantes no Colégio Eleitoral. Por exemplo, a Califórnia, o Estado mais populoso dos EUA tem direito a 55 representantes, enquanto o Wyoming tem apenas três, o mesmo número que a capital Washington DC (Distrito de Columbia), que nas eleições funciona como um 51.º Estado.

Estes representantes, como o próprio nome indica, vão refletir a vontade dos eleitores do seu Estado, isto é, vão escolher o candidato tendo por base o vencedor das eleições na zona que representam. Porém, a escolha não é proporcional: todos os representantes votam no mesmo candidato, um sistema conhecido como “Winner takes all” (vencedor leva tudo, em tradução livre), aplicado em todos os Estados, à exceção do Maine e do Nebraska (que dividem os representantes consoante a percentagem de votos).

Significa isto que se, por exemplo, Donald Trump tiver a maioria dos votos no Estado do Texas, que tem direito a 38 representantes, ficará com todos votos do Estado no Colégio Eleitoral. O mesmo aplica-se, por exemplo, se Hillary Clinton vencer na Califórnia, ficando a candidata com todos os 55 representantes.

Veja o seguinte exemplo, baseado nas eleições de 2012 (Barack Obama x Mitt Romney).

Califórnia
Barack Obama Mitt Romney
60,2% 37,1%

O democrata Barack Obama acabou por levar todos os 55 representantes, mesmo que mais de 37% dos votos tenham sido para Mitt Romney.

Desta forma, já será fácil perceber por que razão é possível vencer a corrida à presidência, mesmo com um número de votos inferior. No total, existem 538 representantes e para vencer a eleição, um candidato não precisa de mais votos, mas sim de conseguir 270 (metade, mais um) representantes no Colégio Eleitoral.

Retomando o exemplo de Al Gore x Bush, o primeiro teve mais 543 mil votos que o segundo, mas, no final, foi Bush quem conseguiu garantir 271 representantes no Colégio Eleitoral, enquanto Al Gore ficou com 267, perdendo o lugar que todos davam como certo que seria seu. A chave da vitória foi o Estado da Flórida, que após recontagem dos votos, foi atribuído a Bush: 25 representantes que, na contagem renhida, fizeram a diferença.

 

A importância dos "Swing States"

Assim, seria natural que a estratégia dos candidatos passasse por assegurar os eleitorados de Estados maiores, ignorando os menos populosos. No entanto, há outro fator a ter em conta: a tradição das votações.

Apesar de haver vários candidatos à presidência, a verdadeira eleição disputa-se, desde há muito, entre Republicanos e Democratas, e, por esta razão, a maioria dos Estados têm praticamente uma orientação de voto definida: uns são tradicionalmente vermelhos (Republicanos) outros são tradicionalmente azuis (Democratas).

Dois grandes exemplos são o Texas, vermelho por defeito, e a Califórnia, azul. Então, por que razão não é possível decidir à partida quem vence? É aqui que aparecem os chamados “Swing States”, os Estados que não têm uma orientação certa e que vão alternando entre candidatos de ambos os partidos.

Exemplos destes Estados são a Flórida, a Carolina do Norte, a Pensilvânia e o Ohio – costuma dizer-se, aliás, que quem ganha no Ohio, vence a eleições – e são nestes que os candidatos apostam tudo, já que noutros a vitória está “garantida”.

Mapa dos "Swing States" para 2016

O site Politico considera que para estas eleições há 11 Estados “swing”: Colorado, Flórida, Iowa, Michigan, Nevada, New Hampshire, Carolina do Norte, Ohio, Pensilvânia, Virgínia e Wisconsin. Destes, os mais desejados pelos candidatos são a Flórida (29 representantes), Pensilvânia (20), Ohio (18) e Michigan (16), ainda que, no entanto, em caso de uma votação renhida, possam ser os “pequenos” Estados a fazer a diferença.

Depois da votação do Colégio Eleitoral, partindo do princípio de que não existe um empate, ou dúvidas que exijam uma recontagem de votos, o próximo presidente é anunciado à população americana (e ao mundo).

 

O dia das eleições

No dia 8 de novembro, as urnas abrem às 6:00 da manhã do horário da costa este dos EUA, quando forem 11:00 em Portugal, e fecham às 19:00, meia-noite de dia 9 em Lisboa. Só a partir das 23:00 (4:00 de dia 9, em Lisboa) é que começam a ser conhecidos resultados e tendências das votações.

Hillary Clinton (E) e Donald Trump (D)

Só após essa hora acontecem os discursos, normalmente, primeiro o do candidato derrotado e depois o do vencedor.

A mudança para a Casa Branca só acontece em janeiro, dia 20, ao meio-dia, data até à qual Barack Obama ainda será Presidente dos EUA.