As eleições intercalares desta terça-feira serão, essencialmente, uma escolha: quem os norte-americanos reforçar o poder de Trump ou pretendem refreá-lo?

A provável passagem da Câmara dos Representantes para o controlo político dos democratas parece indicar o segundo caminho – mas ainda não há certezas.

Trump está a fazer tudo para dramatizar o dilema.

Ao associar a aproximação da “caravana dos refugiados” a solo americano a uma questão grave de segurança nacional (como se alguns milhares de desesperados hondurenhos com fome pretendessem entrar nos EUA para fazerem distúrbios), o Presidente norte-americano está a criar um facto para mostrar força artificial.

Donald admite alocar cerca de 15 mil efetivos do exército para a zona da fronteira com o México, de modo a evitar que os refugiados hondurenhos ousem entrar nos EUA.

Ora, esse número é superior ao contingente americano no Afeganistão neste momento. Donald Trump quer uma “zona de guerra” artificial, com a diferença de ter todos os elementos a seu favor.

E até já lançou a ameaça: quem atirar uma pedra, leva um tiro: “Eles querem atirar pedras aos nossos militares, mas os nossos militares vão responder. Disse-lhes para considerarem usar armas. Quando eles atirarem pedras, como fizeram aos militares no México, já disse aos nossos homens: considerem usar as espingardas”.

Trump tem dito nos comícios que “os democratas não gostam de polícias, por eles nem havia polícias”.

O medo do ‘Outro’ será talvez a chave da narrativa de Trump junto da sua base. Mesmo em tempos de prosperidade económica, como é claramente o que se vive na América neste final de 2018, esse fantasma continua a ser o mais eficaz.

Se, nos anos 90 do século passado, Bill Clinton derrotou Bush pai percebendo que era “a Economia, estúpido”, neste final de segunda década do século XXI Donald Trump percebeu como ninguém que é cada vez mais “a segurança, estúpido”.

Afinal não haverá mais cortes de impostos

Trump foi dizendo, nas últimas semanas, em comícios e declarações públicas que os republicanos estavam tão empenhados em beneficiar os interesses dos contribuintes americanos que iriam fazer mais um corte de impostos ainda antes das eleições.

O tema gerou incómodo até nas lideranças republicanas no Congresso por uma simples razão: não havia plano nenhum em cima da mesa, muito menos a tempo de ser aprovado antes de terça-feira.

Nos últimos dias, finamente chegou o esclarecimento, em jeito de admissão de erro: é claro que não haverá corte de impostos adicional nenhum.

Foi mais um episódio em que o Presidente americano mostrou que a sua preocupação com a verdade é mesmo muito próxima de zero. O seu foco está na perceção e no modo como vai incutir, junto dos eleitores, os sentimentos que eleitoralmente mais lhe interessam para cada momento.

Os factos são apenas um pormenor.

A verdade é que, no plano económico, a realidade até ajuda os ventos republicanos para esta eleição: o desemprego está nos 3,7% (valor considerado como tecnicamente próximo do zero numa sociedade como a norte-americana), o crescimento económico está, em 2018, entre os 3.5% e os 4.2%.

Quem vota com a carteira e não ligue muito a conceitos como “verdade factual” talvez esteja satisfeito.