E, de repente, quase tudo parece ter mudado. 

Não sendo totalmente verdade, o facto é que muito se alterou na dinâmica da corrida nos últimos quatro dias. 

A seis dias da eleição, o entusiasmo no lado Trump subiu consideravelmente, enquanto o campo de Hillary esmoreceu.

A “FBI Surprise” está a ter mais efeitos do que se esperaria inicialmente, tendo gerado um grau de descrença e incredulidade nos apoiantes de Clinton que a candidata ainda não conseguiu inverter. 

Os números são impressionantes: em poucos dias, Hillary perdeu 7% entre o “forte entusiasmo” dos seus apoiantes (de 52% para 45%), enquanto o campo de Trump subiu de 49% para 53%. 

Sondagem ABC/Washington Post dá, pela primeira vez, Trump à frente, com 46%, para 45% de Hillary.

Empate técnico, mas invertido em relação ao que haviam sido os números da véspera. 

No “early voting”, que já abrange perto de 20% do total estimado de votantes dia 8 (mais de 22 milhões de votos), Hillary Clinton terá uma vantagem de 13 pontos (54-41, de acordo com a mesma sondagem). 

A questão é que entre os votantes que ainda não exerceram o seu direito e contam fazê-lo até à próxima terça, Trump lidera por 50%-39%.

A chave desta eleição estará na mobilização. 

Se Hillary conseguir religar a base de apoio que lhe estava a dar clara vantagem no “early voting”, ganhará com relativa facilidade esta eleição. 

Com o entusiasmo que está a gerar, Trump estará no máximo do que pode atingir. E Hillary no mínimo. Do mesmo modo que os números mudaram dramaticamente em poucos dias, Clinton poderá retomar pelo menos uma parte da base que lhe dava vantagem larga até há uma semana. 

Mesmo assim, probabilidade de vitória Hillary é, a uma semana da decisão, de 71%, vitória Trump 27% ("FiveThirtyEight").

No “campaign trail”, Hillary vai apelando à mobilização, lembra que “a única forma de evitarmos dar a presidência a um homem que não é confiável é ir votar em massa até dia 8”.

Recupera o argumento de que Donald não é digno de ser Presidente e tenta retomar a linha de indignação do eleitorado feminino em relação à conduta de Trump. Será que ainda dá para voltar ao tema?

O campo Trump tenta aproveitar o momento e tanto o candidato como a diretora de estratégia, Kellyanne Conway, vão dizendo que até começam a acreditar "numa vitória no Michigan", que supostamente deveria estar seguro para Hillary. 

James Comey, o diretor do FBI, continua sob fogo dos democratas, mas a Casa Branca, através do porta-voz do Presidente Obama, Josh Earnest, distanciou-se da retórica de campanha e comentou que “Comey é um homem íntegro, o Presidente não deixou de o considerar como tal”.

Earnest foi mesmo perentório ao referir que “o Presidente não considera a hipótese do diretor do FBI ter interferido diretamente na eleição presidencial”.

Notícias veiculadas pelos media americanas durante o dia de terça apontavam para que seja “muito improvável” existirem conclusões da investigações ao caso dos emails até dia 8. 

Falta saber como irá lidar Hillary Clinton com o manto de suspeição que se gerou desde sexta. Até agora, ela tem repetido nos comícios: “There is just no case” (não há mesmo nada). Mas isso, neste momento pelo menos, não está a ser suficiente para estancar a ferida.  

A candidata democrata foi clara a defender a sua assessora-chefe, que está no olho do furacão deste caso, mas a verdade é que a correspondência de Huma Abedin já foi alvo de uma autorização judicial para ser investigada.

Havia uma frase escrita nas paredes da campanha Obama 2008, da autoria do candidato, que servia de guia aos operacionais e estrategas no terreno: "Stay calm. Stay focused. Organize"

Servirá de conselho ao atual momento da campanha Hillary. Basta religar a mobilização que estava a existir até sexta-feira passada para a democrata vencer facilmente. 

Mas se esta rota se mantiver nos próximos sete dias (muito entusiasmo do lado Trump, descrença do lado Hillary), a viragem que parecia impossível pode mesmo acontecer.

Germano Almeida