A menos de um mês da tomada de posse do 45.º Presidente dos EUA, talvez fosse mais aconselhável que quem estivesse a assumir função fosse Vladimir Putin.
 
A ideia será provocadora, mas tem o mérito de identificar quem foi o maior vencedor das eleições americanas de 8 de novembro.
 
O FBI, a CIA e totalidade das 17 agências de serviços de informação norte-americana tiraram a mesma conclusão: houve mesmo intervenção russa, através de ‘hacking’ informático, no sentido de prejudicar Hillary e beneficiar Trump.
 
Com o sucessor de Obama a preparar um gabinete cheio de milionários ligados à grande banca, alta finança e extrema-direita ideológica, no Kremlin esfregam as mãos de contentes.
 
A América isolacionista, protecionista e virada para dentro dos anos Trump beneficiará os interesses de Putin no Médio Oriente e na Europa de Leste.
 
Sem o contrapeso militar americano, e com o próprio Trump a anunciar que concorda com “quase tudo” do que Putin diz e faz nas grandes questões, a Rússia terá carta branca para acabar o trabalho de manter Assad no poder e esmagar a oposição ao regime – talvez com a vantagem de, pelo meio, acabar também com o Daesh (e será à boleia desse argumento que Trump deixará Putin com caminho livre na Síria).
 
O comportamento de Vladimir Putin nos últimos dias é revelador: para dentro, exibiu à opinião pública russa os louros do que conseguiu na eleição americana e na operação sangrenta de correr com os rebeldes sírios em Aleppo; para fora, fez questão de mostrar que a bola já está do seu lado, ignorando o ainda Presidente Obama e o Secretário de Estado John Kerry e passando a ter Erdogan, o seu novo amigo turco, como principal interlocutor para a Síria e para questões do Médio Oriente.
 
Será que vamos ver, a partir de 20 de janeiro, uma espécie de… “idiota útil” ao serviço do presidente russo na Casa Branca?
 
Leon Aron, no Politico, acha que sim: “Quando Donald Trump olha para o homem que manda no Kremlin, vê um espírito dominante, um pragmático de sangue frio, que está ansioso por se sentar à mesa com o novo líder do mundo livre para obter alguns acordos. ‘Acho que me vou entender muito bem com Vladimir Putin’, disse Trump na campanha, e a verdade é que ele tem dado todas as indicações de que quer mesmo fazer isso. Desde a eleição surpreendente de Trump, que deixou extasiada a classe política russa, os líderes russos têm deixado a entender que também ficaram muito satisfeitos”.
 
O caso não é para menos.
 
Putin sabe bem que uma Presidente Hillary iria ser um osso bem duro de roer para os interesses de Moscovo.
 
Enquanto Secretária de Estado, Clinton começou por dar uma oportunidade de ‘reset’ a Putin, pelos anos de 2009 e 2010, atitude que ainda permitiu que americanos e russos chegassem a acordo de contenção nuclear, com um novo Tratado Start, em abril 2010 (com Medveded na altura como presidente e Putin como primeiro-ministro).
 
Quando Putin voltou à presidência, tudo se desmoronou de novo nas relações Washington-Moscovo. A jogada inesperada da Crimeia, com efeitos perturbadores no resto da Ucrânia, foi a gota de água: o ‘reset’ tinha acabado e voltaram as tensões de clima pré-guerra fria entre os EUA de Obama e a Rússia de Putin.
 
Com Trump na Casa Branca e Putin a caminhar para duas décadas no poder em Moscovo, os próximos anos prometem mostrar uma Rússia afirmativa no plano internacional e uns EUA a fecharem-se ao protecionismo e bem menos preocupados com os grandes problemas do mundo.
 
A afirmação de Trump de que "seria bem-vinda uma nova corrida nuclear" sinaliza possível concertação com Putin, no sentido de reverter o caminho de contenção que tinha sido firmado em 2010 entre americanos e russos com o Tratado Start.

Com uma economia interna ainda em grandes problemas, fruto de anos de petróleo baixo (tendência que pode estar a acabar) e de diversas deficiências estruturais, a Rússia de Putin tem a necessidade de afirmação exterior para encobrir dificuldades domésticas.   
 
O Reino Unido começará daqui a meses o processo de saída da UE. Em França há eleições presidenciais que parecem ter Marine Le Pen como peça central (mesmo que não acabe por ganhar a segunda volta). Na Alemanha, o favoritismo de Merkel para um quarto mandato pode ter ficado em risco depois do atentado de Berlim.
 
Esperemos que 2017 não seja tão perigoso como se anuncia. Mas convém esperar o pior para que o que vier a acontecer não nos pareça tão mau.