Donald, enquanto você andava a apresentar o Celebrity Apprentice, eu estava na Situation Room a ajudar o Presidente a eliminar Osama Bin Laden”

HILLARY CLINTON para Donald Trump

 

Vou deixar isso em suspenso”

DONALD TRUMP sobre a possibilidade de não aceitar os resultados eleitorais

 

Donald Trump, o tipo das grandes torres, dos aviões, dos milhões, a ser o grande defensor da classe trabalhadora? Vá lá…”

BARACK OBAMA, em comício na campanha de Hillary Clinton

Era a última grande oportunidade para Trump virar a agulha desta eleição, já muito inclinada a favor de Hillary, mas Donald voltou a estragar tudo.

O terceiro e último debate voltou a registar vitória clara de Hillary (52-39, de acordo com sondagem CNN), garantindo à democrata o pleno de triunfos nos três duelos televisivos com o adversário republicano.

Trump até parecia ter começado o debate mais disciplinado do que o costume (a sua diretora de campanha, Kellyanne Conway, deve ter-lhe repetido à exaustão para não interromper demasiado a adversária…), mas ao fim de meia hora Donald voltou a estragar tudo.

O republicano perdeu a paciência, começou a interromper, saiu dos carris.

Hillary, sempre muito bem preparada, começou por se focar na mobilização dos seus eleitorados fundamentais (falou num Supremo Tribunal que garanta os direitos das minorias e respeite a diversidade da América), piscou o olho ao eleitorado mais conservador (quando recordou que sempre defendeu a Segunda Emenda, que prevê o direito ao porte de armas), mas lembrou que “nunca pactuará com acesso livre às armas que ponha em perigo pessoas inocentes”.

Os registos essenciais dos candidatos rapidamente sobrevieram: Hillary super preparada, com a resposta na ponta da língua para todos os temas, não só na forma como os desenvolvia, mas sobretudo no modo como conseguia sustentar cada assunto com um caso prático e uma história real; Donald vago nos assuntos, atirando ideias gerais e com muito pouca preocupação com o ‘reality check’.

Trump precisava de uma grande vitória para ressuscitar para os últimos 19 dias. Parecia pelo menos ter condições de sair do último debate com um empate quando atirou a frase mais suicidária e grave que foi dita nos três debates presidenciais desta eleição 2016: não garante que irá respeitar os resultados eleitorais, tem dúvidas sobre a legitimidade do processo, suspeita de fraudes, vai deixar em suspenso, dirá na altura.

Hillary achou horrível, o próprio Chris Wallace pareceu espantado e deu uma segunda oportunidade a Trump para esclarecer, lembrando a Donald: “Este país tem respeitado uma tradição de reconhecer as eleições, mesmo quando elas não nos favorecem…”

Mas Donald, mesmo com possibilidade de esclarecer, deixou em suspenso, entrando em manifesta contradição com o seu próprio vice-presidente Mike Pence, com a sua diretora de campanha, Kellyanne Conway, e com a sua filha, Ivanka Trump: todos haviam dito, horas antes, que “obviamente que serão respeitados os resultados desta eleição, sejam eles quais forem”.

A resposta de Trump, que reforça os sinais que o candidato já tinha dado nos últimos dias de que se prepara para justificar uma provável derrota a 8 de novembro com um cenário de“eleição ilegítima e roubada”.

Com Hillary Clinton a ter nove hipóteses em dez de ser eleita (7 a 12 pontos de avanço nas sondagens, enorme vantagem no Colégio Eleitoral, liderança em todos os estados decisivos, taco a taco com Trump em territórios amplamente republicanos como o Arizona, Utah ou mesmo o Texas), para muitos já foi 'game over' para o nomeado republicano, depois de tamanho disparate nas últimas semanas.

O eleitorado feminino 'fugiu' em massa para Hillary desde a revelação da gravação do autocarro em 2005, os independentes (que preferiam Trump por pequena margem) estão agora a dar vantagem folgada a Hillary, os indecisos, sobretudo dos 'swing states', têm mostrado preferência pela democrata nas semanas recentes.

Trump tem entrado numa espiral de negação, os últimos comícios já os haviam denotado e esta tirada no terceiro debate de poder não reconhecer os resultados e insinuar que haverá fraude (não se percebe bem como, porque na verdade nos EUA não há 'uma' eleição, mas 50 diferentes, seria difícil imaginar... 50 fraudes, uma em cada estado) aponta para um atirar a toalha ao chão que não tem precedentes num nomeado presidencial a 19 dias da decisão.

Donald culpa os media, por suposto favorecimento da democrata, e chama os republicanos que não o apoiam de 'naive' por recusarem a tese conspirativa que tem vindo a apregoar.

Neste último debate, pisou novas linhas vermelhas naquilo que pareciam ser consensos de décadas na política americana.

Trump perdeu o debate nesse momento. Mostrou não compreender o que é a tradição americana.

É certo que, em parte, foi o facto de desafiar essa tradição que lhe garantiu a nomeação republicana. Mas isso não está a resultar nesta eleição geral, em boa parte porque Hillary Clinton é uma adversária muito mais sólida e bem preparada do que qualquer outro oponente na bizarra época de primárias que ocorreu no campo republicano.

Este debate voltou a mostrar isso. Hillary, beneficiando de uma equipa de preparação super profissional, foi aos pontos fracos do adversário e nem precisou de ser tão agressivo como foi no primeiro debate.

Trump conseguiu ter momentos em que sobrepôs temas que lhe interessavam: disse que a “única coisa que Hillary tem a mais” que ele “é experiência, mas é má experiência”.

Parecia uma boa tirada, mas foi a deixa para Hillary voltar a exibir boa preparação, recordando que, nos últimos 30 anos, somou serviço público em áreas fundamentais, enquanto Donald somou peripécias e histórias mal contadas nos seus negócios.

Hillary conseguiu tornear os temas mais sensíveis das revelações recentes do Wikileaks, Donald voltou a deslizar no tema Imigração, dizendo que “há alguns ‘hombres’ que são maus”, numa referência aos mexicanos ilegais que quer expulsar.

Antes e depois da peleja, os candidatos não se cumprimentaram. As famílias também não o fizeram, quebrando com tradição antiga da política americana.

Os últimos 19 dias desta eleição têm tudo para ser feios e tensos, como foi este debate.

Mas o terceiro triunfo de Hillary em três debates terá fechado o assunto desta eleição: tudo indica que a democrata será, mesmo, a vencedora a 8 de novembro, provavelmente com grande folga.

Germano Almeida