Obama esteve esta quinta-feira na porta de Brandeburgo na Alemanha onde discursou, perante milhares de pessoas, num congresso evocativo do 500º centenário da Reforma Luterana. O ex-presidente dos Estados Unidos da América falou pela primeira vez desde que deixou a presidência do país em janeiro e não se coibiu de falar dos oito anos que passou na Casa Branca. 

Sobre as férias, o ex-presidente não hesitou em falar em tom descontraído, como de resto se tornou hábito durante a presidência. “Tenho passado o tempo a recuperar o sono e a passar o tempo com a Michelle, para que ela me perdoe este tempo em que estive fora”, foram estas as primeiras palavras desde que Obama deixou a presidência americana em janeiro.

Sobre o seu mandato Obama diz que ainda “não tem a perspetiva histórica” para refletir sobre o que fez, mas afirmou “estar orgulhoso do trabalho feito”, apesar das dificuldades que admite. "Sei que é díficil cumprir a 100% o que pretendia fazer, mas pelo menos tentámos", disse Barack Obama.

Obama que deixou a Casa Branca com índices de popularidade elevados, foi recebido com aplausos que chegaram mesmo a interromper o discurso. Ainda assim, o ex-presidente americano não perdeu o "o fio à meada"  e confidenciou  que é difícil cumprir um programa eleitoral na sua totalidade.

"Durante o tempo em que fui presidente não tive as ferramentas necessárias para fazer grandes mudanças, mas tentámos", disse Barack Obama

Na retrospetiva que fez do seu trabalho de oito anos à frente dos Estados Unidos da América disse que o seu objetivo foi fazer sempre melhor tendo noção de que nunca poderia atingir a perfeição. Um dos exemplos dado foi o plano de saúde americano que Obama lamentou que não tivesse abrangido toda a população.

"Fizemos com que 20 milhões de americanos, que não estavam abrangidos por um seguro de saúde, passassem a ter acesso a cuidados médicos gratuitos", disse Barack Obama

Sobre a atualidade mundial, apesar de todas as circunstancias, Obama lembrou que o “mundo nunca esteve tão educado e tão saudável como está agora”. Para o ex-presidente americano um progresso sustentável irá garantir um futuro prospero, considerando ainda que o seu trabalho agora é “ajudar os jovens”.

Obama lembrou ainda que, sem se referir directamente ao atentado de Manchester, "os recentes acontecimentos mostram que temos que estar atentos e combater as possíveis ameaças".

Durante o discurso, o ex-presidente lembrou que quando nasceu o mundo estava ainda “dividido por uma cortina de ferro”, existia o apartheid, o colonialismo e “o mundo estava prestes a entrar numa nova guerra mundial”. Hoje, a Europa pode ser destacada por, por exemplo, "não estar em guerra há muito tempo".

O ex-presidente americano falou ainda do fenómeno globalização que “está a moldar as novas gerações” e que os fenómenos como “os nacionalismos, medo e intolerância têm que ser combatidos”.

"O meu papel agora, como era enquanto presidente, é combater a violação de direitos humanos, democráticos e religiosos", disse.

A conferência contou com a presença da chanceler alemã, Angela Merkel, que se reunirá esta tarde com o presidente americano Donald Trump na cimeira da NATO. A chefe de Estado alemã mostrou-se em sintonia com as palavras proferidas por Barack Obama, deixando uma mensagem de esperança para os que assistiam a esta conferência.

Merkel e Obama abordaram a crise dos refugiados como “a prioridade número um para as autoridades internacionais”. Enquanto Merkel lembrou que, apesar de tudo, a “Alemanha tem feito de tudo para acolher refugiados”, Obama afirmou que a responsabilidade não “é só dos governos, mas também da sociedade”.

O papel dos estados na crise dos refugiados foi um tópico em destaque, com o ex-presidente americano a defender que "os governos não se devem esconder atrás de um muro". 

"Aos olhos de Deus, uma criança não tem menos amor ou compaixão por estar do outro lado do muro ou vedação", disse  Barack Obama

Num congresso que discute a religião, Obama afirmou que só uma “interseção entre as religiões pode contribuir para um mundo melhor”. Para o ex-presidente americano para haver fé tem de haver dúvida e “ninguém deve acreditar que tem mais razão que o outro”.

"Ter fé é respeitar o pensamento dos outros", disse Barack Obama

No fim da sua intervenção Barack Obama lembrou a população mais desfavorecida, “a pobreza é algo que deve ser uma prioridade dos governos”. Sobre os Estados Unidos da América lembrou que, apesar de todas as coisas menos boas, são o único país que “intervém, constrói infraestruturas e distribui medicamentos e alimentos na tentativa de ajudar os mais desfavorecidos em locais onde não tinha essa obrigação”.

Sem falar sobre Trump, o ex-presidente americano afirmou que “o orçamento da defesa não deve apenas contemplar despesas militares, mas também a ajuda humanitária”.