Na manhã do dia 11 de setembro de 2001, Greg Freitas estava a dormir no seu beliche a bordo do "Adirondack", o barco que comandava em viagens no rio Hudson, quando acordou com o barulho das sirenes. Ligou a televisão, viu as imagens do avião que tinha ido contra uma das torres do World Trade Center e, ainda sem perceber muito bem o que se tinha passado, dirigiu-se para o "Chelsea Screamer", o barco do seu chefe, Sean Kennedy, para levar uma equipa de televisão o mais perto possível do World Trade Center, ou seja, até à Marina North Cove.

Nessa altura, Richard Naruszewicz era capitão do ferry "The Finest", que também fazia viagens no rio Hudson. "Estava um dia lindo e estávamos a embarcar passageiros em Highlands, Nova Jérsia, quando soubemos que um avião tinha atingido uma das das Torres Gémeas", contou à BBC. "Eu perguntei: tem a certeza que não é um filme?"

Não era um filme nem se tratava de um acidente, como em breve ficaria claro. Às 9:03, um segundo avião foi contra a segunda torre. "Em minutos, ficou tudo caótico. Milhares de pessoas correram para o cais e tentaram entrar nos ferrys", recorda Richard Naruszewicz.

"Quando a primeira torre caiu foi como a explosão de cem bombas. Foi ensurdecedor. E segundos depois veio a nuvem de fumo."

O mesmo recorda Sean Kennedy: "Lembro-me dos sons, mais do que das imagens, é algo que nunca esquecerei. Quando a torre Norte caiu nós devíamos estar a cerca de 1500 pés [quase 500 metros] da base da torre, e claro que fomos atingidos por uma enorme nuvem de cimento pulverizado".

As pessoas queriam sair daquele lugar e o rio estava muito próximo, era a saída mais rápida. Os barcos que estavam no cais transformaram-se em barcos de resgate. "As pessoas estavam com medo e faziam tudo para sair da ilha, vimos pessoas a nadar no Cais 11, mães com bebés, grávidas", lembra Richard Naruszewicz.

Todos os transportes tinham sido suspensos por isso não havia outra maneira de sair de Manhattan ou de ir para outra zona da ilha a não ser de barco. E os barcos começaram a vir, de todos os portos, para ajudar toda a gente, criando até um engarrafamento no rio.

Todos os barcos acolhiam as pessoas, excedendo largamente a capacidade das embarcações. "Decidimos: vamos levar toda a gente que conseguirmos", lembra Naruszewicz. O barco tinha capacidade para 354 passageiros, o capitão garante que na primeira viagem foram mais do dobro.

"Tivemos medo, mas nós somos capitães, nós lideramos, é isso que temos de fazer", afirma Sean Kennedy.

Trabalharam todo o dia, durante 21 horas seguidas, transportando milhares de pessoas. Segundo a organização Port Side New York, criada depois do 11 de setembro e inspirada no trabalho destes e outros capitães do rio Hudson, naquele dia foram transportadas nos barcos mais de 350 mil pessoas.

No dia seguinte, Freitas e Kennedy voltaram e ofereceram-se para ajudar as autoridades no que fosse necessário. Foram, então, integrados numa missão que estava a vasculhar os edifícios circundantes. Havia pessoas que tinham ficado presas em casa porque os elevadores deixaram de funcionar, outras que tinham deixado os seus animais de estimação para trás.

Greg Freitas continuou a ajudar, fosse na limpeza das ruas fosse no depósito de mantimentos que foi montado para ajudar todos os que precisavam. E só no final da semana decidiu que tinha de voltar à sua vida. Dois meses depois, entrevistado por um jornal local, confessava: "Quando penso no que aconteceu, sinto-me a sufocar".

"Tornei-me uma pessoa mais atenta, vigilante, desde então", diz Richard Naruszewicz. "Há sempre alguém que pode querer fazer alguma coisa."

Maria João Caetano