Os esforços para desencalhar o enorme Ever Given, que está a bloquear tráfego marítimo no Canal de Suez, vão continuar pelo menos até à próxima quarta-feira, mais do que o inicialmente temido e aumentando a perspectiva de que o incidente irá provocar interrupções nas cadeias de abastecimento globais.

A tarefa de libertar o navio de 200 mil toneladas, ainda firmemente preso na rota comercial marítima, exigirá cerca de uma semana de trabalho e potencialmente mais, sublinharam pessoas familiarizadas com o assunto à Bloomberg e ao The Guardian.

Inicialmente, esperava-se que a operação de resgate durasse apenas alguns dias.

A interrupção prolongada vai colocar mais pressão na indústria de transporte marítimo de contentores que já se encontrava em plena capacidade, ameaçando mais atrasos para as empresas europeias que dependem de um fluxo constante de importações asiáticas, e para os consumidores que já se habituaram a realizar compras online rápidas durante a pandemia.

 

 

Comparativamente, a via mais movimentada do mundo para o comércio de mercadorias - entre os EUA e a China - enfrentou quase cinco meses de interrupções nos portos gémeos de Los Angeles e Long Beach, que fizeram com que importadores tivessem de esperar várias semanas pela chegada da carga. O medo agora é que o incidente de Suez exacerbe os desafios logísticos da Europa - viagens canceladas, escassez de contentores e taxas de frete mais altas.

Os atrasos provavelmente aumentarão os custos, aumentando a pressão inflacionária já generalizada nas cadeias de abastecimento”, disse Chris Rogers, analista comercial da S&P Global Market Intelligence. “Os efeitos a curto prazo serão um potencial maior para rupturas de stock dos bens de consumo, tudo isto acentua as dificuldades já impostas pelo Brexit”.

A operação de resgate do Ever Given decorre desde terça-feira pela ação de rebocadores e escavadoras, um equipamento pesado, mas minúsculo em comparação com o navio de 400 metros de comprimento. A internet não perdoou, claro, e a tempestade de memes já se tornou viral.

Segundo dados da Bloomberg, a fila de navios de carga - carregados com petróleo e bens de consumo avaliados em mais de mil milhões de euros - aumentou para 300 esta sexta-feira ( na quarta, eram 186).

Caso a carga precise de ser descarregada do navio encalhado, ou grandes reparações feitas no próprio canal, "então o tempo de inactividade certamente pode durar pelo menos duas semanas", de acordo com Randy Giveans, vice-presidente sénior de Equity Research for Energy Maritime da Jefferies LLC .

 

 

Os navios que se propunham atravessar o Canal de Suez estão a começar a realizar desvios caros e demorados em torno de África, ao mesmo tempo que o sector se esforça para manter as entregas em movimento. 

Os custos de frete também estão a subir a pique - o preço de enviar um contentor de 40 pés da China para a Europa quase quadruplicou em relação a um ano atrás - adicionando um novo problema às cadeias de abastecimento globais, ainda a recuperar de uma pandemia que semeou estragos com escassez e atrasos.

A HMM Co., empresa da Coreia do Sul, deu a ordem para que um navio que partiu do Reino Unido na segunda-feira desvie de rota ao redor do Cabo da Boa Esperança para evitar o congestionamento. Pelo menos sete navios de gás natural liquefeito tiveram também de ajustar rotas para longe do canal, de acordo com os especialistas e analistas.

 

Quem e o que é que está preso no Canal do Suez?

Navios que transportam animais, petróleo e produtos químicos estão entre os afetados pelo congestionamento. 

O bloqueio do canal está atualmente a impedir o fluxo de cerca de 2 milhões de barris de petróleo por dia, de acordo com estimativas da escocesa Braemar. 

Entre os produtos nas listas de carga dos navios bloqueados, estão madeira, maquinarias, carne congelada, papel, leite em pó, móveis , cerveja, carne de porco congelada, componentes de automóveis, chocolate e cosméticos.

A Caterpillar Inc., maior produtora de máquinas dos Estados Unidos, já comunicou que está a enfrentar atrasos no envio e que se encontra a ponderar o transporte de produtos por meios aéreos. A japonesa Envision AESC, fornecedora de baterias para veículos elétricos, sublinha que depende do Canal de Suez para algumas importações de eléctrodos.

 

 

 

Mark Ma, proprietário da Seabay International Freight Forwarding Ltd., uma empresa em Shenzhen que lida com produtos chineses, incluindo brinquedos, mobília e colchões vendidos em plataformas como a Amazon, disse que a empresa tem de 20 a 30 contentores nos navios bloqueados.

Se não pudermos retomar em uma semana, será horrível”, disse Ma, destacando que o comércio irá ver “as taxas de envio a subirem novamente”. “Os produtos estão atrasados, os contentores não podem regressar à China e não podemos entregar mais mercadorias”, sentenciou.

Os navios atualmente fora do Mar Vermelho que planeiam usar o Canal de Suez vão precisar de decidir se farão um detour ao redor de África, uma solução que atrasa as viagens entre 10 a 15 dias.