O contestado primeiro-ministro libanês Hassan Diab anunciou hoje que vai propor eleições legislativas antecipadas no país abalado pela mortífera explosão no porto de Beirute, com a população a acusar os dirigentes políticos de responsabilidade no grave acidente.

Num discurso pela televisão, o chefe do Governo afirmou que “apenas eleições antecipadas podem permitir uma saída da crise estrutural”.

“Apelo a todas as partes políticas que se entendam sobre a próxima etapa”, acrescentou Diab. Os seus responsáveis “não têm muito tempo, estou disposto a continuar a assumir as minhas responsabilidades durante dois meses até que cheguem a acordo”, precisou.

O chefe do Governo, que formou o seu gabinete em janeiro após a demissão de Saad Hariri no final de outubro, sob pressão do movimento de protesto popular, acrescentou que vai submeter na segunda-feira a sua proposta ao Conselho de Ministros.

O seu discurso ocorreu quando milhares de libaneses prosseguiam os protestos no centro de Beirute, exigindo explicações ao poder após a explosão no porto na terça-feira, que devastou bairros inteiros e provocou pelo menos 158 mortos e 6.000 feridos, segundo o último balanço oficial. 

As explosões, que as autoridades libanesas têm atribuído a um incêndio num depósito onde se encontravam armazenadas cerca de 2.750 toneladas de nitrato de amónio, vieram alimentar a revolta de uma população já mobilizada desde o outono de 2019 contra os líderes libaneses, acusados de corrupção e ineficácia.

A manifestação de hoje voltou a degenerar em violências entre manifestantes e forças policiais, enquanto diversos grupos organizados tomavam de assalto o Ministério dos Negócios Estrangeiros, proclamando-o “quartel general da Revolução”.

O edifício também acolhe as instalações do Ministério da Economia e do Meio Ambiente, e de acordo com o diário The Daily Star registou-se um assalto e um incêndio nas instalações.

Através de uma mensagem no Twitter, as forças de segurança anunciaram que um polícia morreu num hotel central durante os confrontos com manifestantes, e pelo menos 172 pessoas ficaram feridas.

A mensagem referiu que “um membro do Ministério do Interior morreu no processo de manter a segurança quando se encontrava no interior do hotel Le Gray, após ser atacado por vários desordeiros assassinos”.

O hotel Le Gray está localizado perto do local dos protestos, e um grupo de manifestantes ateou fogo às suas portas, suscitando um momento de grande tensão no interior do edifício.

“Tomámos o Ministério dos Negócios Estrangeiros para quartel-general da Revolução”, anunciou o general na reforma Sami Rammah, diante de cerca de 200 pessoas que gritavam “Revolução”.

Sami Rammah, que falava nos degraus da casa, danificada pelas explosões, apelou aos “países árabes, todos os países amigos, Liga Árabe e ONU para considerarem a (sua) revolução como o verdadeiro representante do povo libanês”.

Os manifestantes que se concentraram no centro de Beirute pediram vingança contra os seus dirigentes e alguns tinham cordas, para simbolizar o seu enforcamento.

Guilhotinas em madeira foram instaladas na praça dos Mártires em Beirute, epicentro da contestação iniciada em outubro de 2019, e muitos manifestantes gritaram “vingança, vingança, até à queda do regime”.

Não muito longe da sede do parlamento, grupos de jovens lançaram pedras e paus e a polícia utilizou gás lacrimogéneo para os dispersar.

As explosões, que terão deixado também até 300.000 pessoas desalojadas, foram uma tragédia a mais para os libaneses que sofrem o peso de uma crise económica e política.

Uma desvalorização sem precedentes da sua moeda, hiperinflação, despedimentos em massa, situação agravada pela pandemia do novo coronavírus, que obrigou as autoridades a confinarem a população durante três meses.

No domingo realiza-se uma videoconferência de doadores para o Líbano, coorganizada pelas Nações Unidas e pela França.