O Ministério Público do Rio de Janeiro e a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) vão investigar as dez mortes registadas, na quarta-feira, durante uma operação policial no bairro de Senador Camará, na zona ocidental do Rio, escreve a Lusa.

«A partir de agora vamos estabelecer uma parceria no sentido de uma apuração rigorosíssima para investigar esses factos», afirmou esta quinta-feira aos jornalistas Leonardo Chaves, subprocurador-geral de Justiça de Direitos Humanos do Ministério Público do Rio de Janeiro.

Brasil: seis mortos em acção policial

Segundo Chaves, apenas um dos dez mortos tinha antecedentes criminais. O Ministério Público já pediu explicações às polícias Civil e Militar sobre as circunstâncias das mortes.

«Essas mega-operações devem ser realizadas se necessárias, mas precedidas de um rigoroso trabalho de inteligência, para que não ocorra o que ocorreu ontem, dez pessoas mortas e escolas fechadas. Quem devia estar preso está solto», adiantou aos jornalistas.

De momento, há ainda divergências quanto ao número de pessoas mortas. A Secretaria de Segurança Pública do Rio de Janeiro divulgou nove mortes - seis pessoas teriam sido mortas pela Polícia Civil e três pela Polícia Militar.

Entretanto, a Secretaria de Saúde divulgou que dez pessoas chegaram já mortas ao hospital que serve aquela área.

«Política de segurança a matar»

Ainda não há dados que comprovem que as vítimas mortais foram executadas pela polícia e o subprocurador-geral realçou a possibilidade dos agentes terem agido em legítima defesa.

Por seu turno, o presidente da OAB no Rio, Wadih Damous, ressaltou que o facto de só uma das pessoas ter cadastro «pode ser indicativo de um procedimento padrão da polícia do Rio de Janeiro», que actua com base numa «política de segurança a matar».

«A polícia não pode entrar atirando. Ali moram trabalhadores, mulheres, crianças e idosos. Enquanto perdure esse clima, essa declaração de guerra acaba tendo seus efeitos sobre inocentes», destacou, acrescentando que se trata de uma política de segurança «inaceitável».

Respeito pelos direitos humanos

O representante da Ordem dos Advogados defendeu ainda outra forma de combate ao crime, com base num serviço de recolha de informações e investimentos sociais nas áreas mais carenciadas.

«Nós queremos paz, segurança e justiça social», declarou Damous ao enfatizar que não deve haver uma incompatibilidade entre política de segurança eficaz e política de respeito pelos direitos humanos.

Cerca de 300 polícias realizaram, na manhã de quarta-feira, uma operação nas favelas da Coréia, Rebu e Vila Aliança, na zona ocidental do Rio de Janeiro.

O objectivo era efectuar três mandados de prisão. A polícia estava à procura dos actuais chefes do tráfico de droga daquelas comunidades - António José de Sousa Ferreira, o Tota, e Juarez Ribeiro da Silva, o Aranha, ambos ainda a monte.

Quadrilha enfraquecida

O chefe de polícia, Gilberto Ribeiro, considerou que a operação foi bem sucedida e confirmou que novas acções deverão ser feitas nestas localidades.

«A polícia tem por objectivo tirar de circulação os criminosos, mas se há uma liderança no local, nós vamos tentar deter esses líderes», afirmou à imprensa, destacando que a quadrilha que actua naquelas favelas ficou enfraquecida.

A acção policial resultou ainda na apreensão de armas, granadas e drogas, tendo obrigado ao encerramento de pelo menos três escolas públicas da região onde 6.500 estudantes ficaram sem aulas.
Redação / PP