O gigante italiano da indústria alimentar, a Ferrero, saiu em defesa do óleo de palma, ingrediente sem o qual a Nutella, o seu produto-bandeira e responsável por um quinto das vendas, não seria o que é.

Uma defesa pública, que está a passar por campanhas publicitárias em jornais e na televisão, de modo a garantir junto dos consumidores a segurança de um ingrediente-chave que saltou para a ribalta depois de ter sido associado ao maior tabu da comida processada, o cancro, e numa altura em que outros fabricantes italianos estão a boicotar a utilização deste óleo, que é praticamente usado em tudo, desde bolachas, massas, batatas fritas, enlatados, molhos, gelados a sabonetes e cremes hidratantes. Por ser mais barato e por garantir a longevidade dos produtos nas prateleiras.

A guerra ao óleo de palma, indústria que movimenta milhares de milhões, não é de agora - há muito que ambientalistas e ONG alertam para a preocupante desflorestação, particularmente, do sudeste asiático, onde estão os maiores produtores e onde as florestas tropicais estão a desaparecer para o cultivo de palmeiras, mas os contornos desta batalha ganharam uma nova dimensão, porventura mais eficaz, o da doença.

A Agência Europeia de Segurança Alimentar divulgou, em maio passado, um relatório comprometedor para este óleo alimentar, que foi listado como potencialmente causador de cancro, por causa das altas temperaturas em que é processado. Neste processo de refinação, que regra geral acontece acima dos 200 graus Celsius, é gerada uma substância cancerígena, o GE. O relatório já está nas mãos da Comissão Europeia, de onde é esperada que saia, até ao final do ano, regulação sobre os níveis admissíveis de GE, mas não a proibição do óleo de palma, segundo o porta-voz para a Saúde e Segurança Alimentar, Enrico Brivio, citado pela agência Reuters, nesta quinta-feira.

Em Itália, a maior cadeia de supermercados, a Coop, boicotou o óleo de palma nos seus produtos de marca própria, tal como outro gigante alimentar, a Barilla, famoso pelas massas, também eliminou o óleo de palma, colocando inclusive a indicação de “livre de óleo de palma” nos seus artigos.

A Ferrero, cujos lucros caíram 3% até agosto, mas subiram 4% desde que apostou no anúncio televisivo, garante que o óleo de palma usado nos seus produtos é processado abaixo dos 200 graus celsius, processo de fabrico que é mais demorado e implica um aumento de 20% no custo de produção.

Fazer a Nutella sem óleo de palma seria produzir um substituto deste produto, de inferior qualidade. Seria um passo atrás”, defendeu o diretor de produção da Ferrero, Vincenzo Tapella, em declarações à Reuters.

O próprio Vincenzo Tapella surge no anúncio que desde outubro circula na televisão italiana e que está a conseguir passar a mensagem do rigor e cuidado com que é fabricada a Nutella.

O óleo de palma usado pela Ferrero é seguro porque vem do fruto fresco que é processado a temperaturas controladas”, afirma Tapella no anúncio, indicando também que o óleo de palma que usam tem o selo da agricultura sustentável.

A Ferrero gastará cerca de 185 mil toneladas de óleo de palma por ano, pelo que substituir este óleo, que é o mais barato do mercado, por óleo de girassol, por exemplo, implicaria um custo anual extra de oito a 22 milhões de euros, cálculos feitos pela Reuters e a que a empresa não quis comentar.

As altas temperaturas a que o óleo de palma é refinado servem para retirar a cor vermelha natural e neutralizar o seu odor.

O gigante italiano afirma, igualmente, ter realizado milhares de testes, que dificilmente conseguem encontrar traços do GE.

Catarina Machado