Domingo. Chegará ao fim a chamada “Caravana da Liberdade”, o trajeto de quatro dias que levou as cinzas de Fidel Castro, da capital Havana até Santiago de Cuba. Perto da localidade de Birán, onde nasceu, não muito longe da praia Las Coloradas, onde desembarcou no iate Granma - em 1956, com o irmão Raul, Che Guevara, Camilo Cienfuegos e alguns outros para derrubar o regime de Fulgencio Batista - e a cerca de uma centena de quilómetros da base naval norte-americana em Guantánamo, transformada em prisão, nos últimos anos.

Guatánamo foi sempre uma pedra no sapato de Fidel. E a sua devolução continua a ser uma exigência de Cuba. Referida uma vez mais, em março, quando o irmão Raúl Castro recebeu em Havana a visita histórica do presidente Barack Obama. Além do fim do embargo económico à ilha, imposto desde 1961, por parte dos Estados Unidos. Per supuesto.

Muito mais antiga é a posse da base naval pelos Estados Unidos. Foi uma espécie de despojo de guerra, pela intervenção norte-americana na guerra contra Espanha, que levaria à independência de Cuba no final do século XIX.

"Dois mil dólares em moedas de ouro dos Estados Unidos"

Em 1889, na guerra hispano-americana, os Estados Unidos ajudaram a derrotar os colonizadores espanhóis. Cuba conquistou a desejada independência, numa guerra em que iria morrer o revolucionário José Martí, herói da libertação da ilha.

Em 1903, na primeira constituição da República de Cuba, Washington conseguiu a inclusão da chamada Emenda Platt. A 16 de fevereiro, os presidentes dos dois países, Tomás Estrada Palma e Theodore Roosevelt, assinaram o acordo: Cuba cedia aos Estados Unidos, "pelo tempo necessário e para os propósitos de estação naval e estação carvoeira", dois territórios. Um, em Guantánamo, e outro, em Bahía Honda, que os norte-americanos acabaram por nunca ocupar.

Pelos termos do acordo, os territórios ficavam sob "controlo e jurisdição completa" dos Estados Unidos, apesar de ser reconhecida a soberania cubana.

No que respeitava a Guantánamo, os Estados Unidos ficavam também encarregados da manutenção das cercas ao redor da base e pagavam uma renda de “anual de dois mil dólares em moedas de ouro dos Estados Unidos". Por 116 quilómetros quadrados de território. Mais do que a área da cidade de Lisboa.

Cuba só rebateu o cheque por uma vez

O preço seria ajustado para a época. Mas com o passar dos anos, foi ficando na quantia de 4.085 dólares anuais. Qualquer coisa como 3.848 euros, o que equivale a uma renda mensal de 320 euros.

Pode-se dizer que o que os Estados Unidos pagam por Guantánamo é quase nada", é o comentário do antigo jornalista e investigador Michael Strauss, em declarações há uns meses ao serviço em espanhol da BBC.

Strauss, professor no Centro de Estudos Diplomáticos e Estratégicos de Paris, é autor do livro “The Leasing of Guantánamo” (“O arrendamento de Guantánamo). E refere que só por uma vez, Fidel rebateu o cheque anual. Precisamente no ano de 1959, quando chegou ao poder.

Algo que, em 2007, quando ainda era presidente de Cuba, Fidel Castro assumiu, num artigo publicado no jornal oficial Granma.

O (cheque) correspondente a 1959, por uma simples confusão, foi contabilizado uma vez. Desde 1960 até hoje nunca foram cobrados e mantêm-se como registo de um arrendamento imposto há mais de 107 anos", escreveu então El Comandante.

Cheques por Guantánamo na gaveta

O braço de ferro pela devolução da base de Guantánamo vem desde que Fidel Castro chegou ao poder. Mas sobretudo, desde 1961, quando as relações com os Estados Unidos azedaram de vez.

Nesse ano, exilados cubanos treinados pelos serviços secretos norte-americanos, com apoios diversos nos Estados Unidos e com, pelo menos, a complacência do então presidente Kennedy, tentaram invadir a ilha desembarcando na Baía dos Porcos. A chamada Operação Zapata foi derrotada na praia Girón, local por onde nas cinzas de Fidel também passaram no seu trajeto final, a caminho do cemitério de Santa Ifigénia, em Santiago.

Depois, a história conta o resto. A base de Guantánamo chegou a estar minada à sua volta, como armadilhadas estiveram as relações com os norte-americanos. Mais ainda, quando em 1962, o líder soviético Kruschev instalou mísseis nucleares em Cuba apontados aos Estados Unidos.

A que ficou conhecida como "Crise dos Mísseis" durou duas semanas e nunca como antes se pensou que o planeta estava à beira de uma guerra nuclear. Daí sobrou o alinhamento de Cuba com o Bloco soviético, no auge da guerra fria.

Guantánamo, no sudeste da ilha, no mar das Caraíbas, em frente à costa do Haiti, manteve-se como uma base naval norte-americana. Até hoje. Para desgosto de Fidel Castro que acusava os norte-americanos de não terem ali qualquer utilidade estratégica e apenas quererem humilhar o regime de Havana.

Foram os argumentos que usou há trinta anos, em conversa com o oceanógrafo francês Jacques Cousteau, que esteve em Cuba a gravar um documentário sobre a fauna da ilha. Chamou-se "Águas do Destino" e tal como os restantes episódios dos programas do comandante francês foi visto um pouco por todo o mundo.

Castro, um ímpar ator político, não perdeu a oportunidade de mostrar ao mundo que não cobrava os cheques que recebia. Tirou um envelope de uma gaveta e despejou uma molhada deles em cima da mesa.

Pela primeira vez, o mundo viu os cheques do Tesouro dos Estados Unidos enviados anualmente para pagar o arrendamento de Guantánamo. No valor de 4.085 dólares, uma renda atualizada de forma unilateral pelos norte-americanos em 1973, segundo o investigador Michael Strauss.

Futuro de Guantánamo

Fidel, além de tudo o mais, poderá assim ficar para a história como um dos mais generosos senhorios de que há memória: recebia pouco e nem sequer descontava os cheques pelo arrendamento de uma pequena cidade onde vivem mais de cinco mil pessoas, entre militares e civis.

Morreu sem conseguir resgatar a base naval de Guantánamo. Que, desde 2002, os Estados Unidos transformaram em prisão, sob críticas e acusações de violação de direitos humanos, dado que aí encarceraram capturados, sobretudo no Médio Oriente, sem processo judicial, sem acusação, nem julgamento.

Já após o desmoronamento do apoio soviético a Cuba, a lei norte-americana Helms-Burton, de 1996, agravou o bloqueio económico a Cuba. Mas admitia uma futura devolução de Guantánamo, quando Cuba tivesse um regime democrático. Um sinal que levou muitos a questionar o valor militar e estratégico do local para os Estados Unidos.

Uma vez que a prisão seja fechada, quase nenhum", é a opinião do especialista Michael Strauss, ouvido pela BBC, sobre a importância estratégica atual de Guantánamo.

Só que, para Cuba ter uma democracia reconhecida pelos Estados Unidos haverá seguramente que esperar. Porque se Fidel morreu sem recuperar Guantánamo, também Obama vai sair da Casa Branca sem cumprir a promessa de encerrar a prisão.