Apelidado de "petit Ben" (“pequeno Ben”) ou "petit Benoît" (“pequeno Benoît”) pelos históricos do Partido Socialista francês, Benoît Hamon emancipou-se ao vencer a primeira volta das eleições primárias de esquerda. E mais ainda este domingo, em que, com voltou a suplantar o anterior primeiro-ministro Manuel Valls, o qual reconheceu a derrota às primeiras horas da noite.

Benoît Hamon tornou-se assim o candidato socialista às presidenciais francesas.

Já na primeira volta, no domingo passado, o ministro que foi despedido do governo do presidente François Hollande por criticar as políticas económicas do executivo, obtevivera 36,35% dos votos, acima dos 31% de Manuel Valls, que renunciou ao cargo de primeiro-ministro em dezembro de 2016 para se candidatar à presidência.

Com os resultados da primeira volta, aos 49 anos, o “rebelde” Benoît Hamon abandonou o papel de eterno "mino" (leia-se “minoritário”, na gíria do PS francês) para se tornar o favorito das eleições primárias, com um programa que se assumiu claramente da esquerda do partido, segundo a análise do jornal Le Monde. Agora, na segunda volta, confirmou o estatuto e conquistou o lugar de candidato da esquerda.

Rendimento universal de 750 euros

Entre as grandes propostas de Benoît Hamon, ministro da Economia Social entre 2012 e 2014, estão a criação de um rendimento universal, de 750 euros por mês, para todos os cidadãos franceses maiores de 18 anos. Hamon defende a redução do horário de trabalho, o rendimento social garantido, políticas ecológicas e a legalização da canábis.

Benoît Hamon, rodeado de jovens, numa ação de campanha em Paris, a 18 de janeiro de 2017 (Foto: REUTERS)

As propostas de Benoît Hamon seduziram principalmente os jovens, que lotaram as reuniões onde o também ex-ministro da Educação defendeu uma “nova maneira de fazer política” ou um “verdadeiro socialismo”. Hamon critica, entre outras coisas, a “busca incessante do crescimento económico”, afirmando que tal não faz sentido “num mundo onde os recursos naturais são limitados”. Na era do consumo, o socialista defende um modelo de parceria social, solidária e colaborativa.

As reformas constitucionais também estão na agenda. Benoît Hamon quer, por exemplo, limitar a utilização do artigo 49.3 da Constituição (que permite adotar uma lei sem votação no parlamento) apenas a documentos do orçamento e aos que dizem respeito ao financiamento dos serviços públicos. Além disso, o político quer alargar o direito de voto aos estrangeiros nas eleições locais e tornar o mandato de sete anos não renovável.

Em relação ao meio ambiente, uma bandeira da ala mais à esquerda dos socialistas franceses em que Benoît Hamon se inclui, o objetivo é lutar contra o abuso animal, acabar com os carros a gasolina até 2025, reduzir a energia nuclear em 50% além de promover uma guerra ao desperdício alimentar.

O “pequeno Ben” que os socialistas “não viram” crescer

Benoît Hamon, conhecedor do aparelho socialista e homem que se mexia bem nos bastidores, com a condescendência dos pesos-pesados do partido, atingiu agora a “maturidade” observou recentemente a presidente da Câmara de Lille, Martine Aubry, que com carinho lhe chama “pequeno Ben” e o convidou a integrar o seu gabinete quando foi ministra do Trabalho, de 1997 a 2000.

Benoît Hamon revela plataforma eleitoral para aos media antes das primárias da esquerda em Paris, 6 de janeiro de 2017 (REUTERS)

 

"As pessoas que trabalharam com ele sempre tiveram tendência a subestimá-lo", diz ao La Libre Belgique um amigo de longa data Regis Juanico. Este recorda a previsão de Jean-Christophe Cambadélis, primeiro-secretário do PS, que em meados de novembro de 2016 afirmou que a surpresa "durante as primárias poderia vir do pequeno Benoît."

Um “peso pesado” do PS, que o jornal não identifica, afirma que, com fortes convicções aliadas a uma certa "habilidade", Benoît Hamon "conseguiu seguir seu próprio caminho utilizando a fraqueza daqueles que o usaram" como garante da esquerda no governo.

"Ele teve a oportunidade de construir a sua própria casa", afirma aquele histórico do partido.

Militante desde os 19 anos, forjado nas lutas estudantis

Benoît Hamon, que começou na vida política como ativista estudantil, na década de 1980, é formado em História pela Universidade da Bretanha e filho de uma secretária e de um pedreiro que mais tarde se tornou engenheiro e trabalhou em estaleiros militares.

O mais velho de quatro irmãos, Hamon nasceu na zona portuária no noroeste da França, na pequena localidade bretã de Saint-Renan, antes de se mudar para Dakar, no Senegal, onde viveu dos nove aos 13 anos, devido à transferência dos pais.

Cartaz da campanha de Benoît Hamon, candidato nas primárias do PS francês, afixado numa parede em Paris, 20 de janeiro de 2017 (Foto: REUTERS)

A família regressou depois a França e o jovem Benoît Hamon começou aos 19 anos a militar no Partido Socialista. Em 1993, aos 26 anos, a carreira política consolidou-se ao tornar-se primeiro presidente das juventudes socialistas, função que desempenhou até 1995. Isto depois de em 1986, com 18 anos, ter tido um papel relevante no movimento estudantil contra as reformas propostas pelo governo, que entre outras pretendiam aumentar o valor das propinas. O presidente de direita Jacques Chirac acabaria por retirar a proposta face aos protestos estudantis em que uma pessoa morreu e cerca de 200 ficaram feridas.

Uma vida no partido

Entre 1995 e 2000, Benoît Hamon trabalhou como assessor do então líder do PS Lionel Jospin e, posteriormente, de Martine Aubry, ministra socialista do Trabalho de 1997 a 2000, e criadora da semana laboral de 35 horas.

Entre 2004 e 2009, ocupou um lugar de deputado no Parlamento Europeu e, mais tarde, tornou-se porta-voz (2008-2012) do Partido Socialista, quando Martine Aubry foi nomeada primeira-secretária do partido, até que em 2012 foi eleito deputado na Assembleia Nacional.

No primeiro governo do socialista François Hollande, Hamon foi ministro da Economia Social (2012-2014) e, em seguida, tornou-se o ministro da Educação durante apenas quatro meses. Em desacordo com a "política de austeridade" do executivo, então liderado por Manuel Valls, o ministro deixou o governo em agosto de 2014, na companhia de Arnaud Montebourg.

Ex-ministros franceses e candidatos às primárias socialistas Arnaud Montebourg e Benoit Hamon em debate televisivo, 15 de janeiro de 2017 (REUTERS)

Eleito para um lugar de deputado pelo departamento de Yvelines, juntou-se aos camaradas na bancada do Parlamento, em luta contra a Lei Macron, e depois contra a Lei El Khomri. Ao mesmo tempo, definiu um projeto próprio e lançou-se na campanha às eleições primárias do PS em meados de agosto de 2016, apanhando toda a gente de surpresa.

Casado com uma executiva de origem dinamarquesa, a poliglota Gabrielle Guallar, com quem tem dois filhos, Benoît Hamon é admirador do lendário pugilista Muhammad Ali, com cujo lema "o impossível é temporário" se identifica. Amante de râguebi, Hamon aprecia artistas de jazz como Ella Fitzgerald e Miles Davis.

As presidenciais francesas realizam-se a 23 de abril e 7 de maio.