Mais de 200 mil pessoas concentraram-se este sábado em Paris, Lyon e outras cidades para protestar contra o passe sanitário, certificado de vacinação contra a covid-19 que passa a ser obrigatório para entrar em vários locais, tendo a polícia de choque reagido com gás lacrimogéneo. No meio dos protestos viram-se vários cartazes a pedir "liberdade".

Eu vou boicotar todos os sítios onde me pedirem o passe sanitário. Os comerciantes vão aperceber-se do nosso boicote e também se vão revoltar contra estas medidas", afirmou Nicole, professora francesa, à agência Lusa.

Tal como Nicole, vários manifestantes entrevistados pela Lusa garantem que vão deixar de frequentar restaurantes e cinemas caso o Conselho Constitucional dê o aval à medida do Governo já aprovada por deputados e senadores que visa impor a obrigatoriedade do passe sanitário em França para grande parte dos espaços públicos.

Temos todos de ser solidários, e sei que vai ser difícil para os restaurantes e para os cinemas, mas vacinados ou não, não devemos frequentar esses sítios", defendeu Laura, uma artista parisiense que tinha um cartaz a dizer "são estas políticas que nos estão a matar".

Philippe, farmacêutico reformado, é contra a vacinação por considerar que não há estudos suficientes sobre a vacina, alegando que os homens se tornaram cobaias devido à covid-19.

Não há os estudos que normalmente acompanham as vacinas. Há um protocolo a seguir e saltámos várias etapas. Nós somos cobaias e isso vai contra tudo que eu aprendi nos meus estudos de Farmácia", defendeu Philippe, declarando que se ainda estivesse no ativo, não aconselharia ninguém a vacinar-se.

A Lusa acompanhou a manifestação organizada pelo partido de extrema-direita "Os Patriotas", liderado por Florian Philippot, antigo número dois de Marine Le Pen, entre Montparnasse e o Ministério da Saúde. 

Laura diz não pertencer a nenhum partido e que os franceses apenas querem manifestar-se contra estas medidas.

Eu não sou de extrema-direita, nem as pessoas que conheço que estão aqui. As pessoas vêm de diferentes setores políticos ou nem se interessam pela política. Este tipo de iniciativas não mudam as nossas preferências políticas, eles até podem tentar aproveitar-se desta causa para ganhar notoriedade, mas não somos burros", sublinhou Laura.

A poucos meses das eleições presidenciais, que se realizam em abril, este é um protesto também contra o Presidente da República, com cânticos como "Macron na prisão" e cartazes onde a principal figura é o chefe de Estado.

Eu votei por ele [Emmanuel Macron]. Ele tinha muitas ideias para reformar a França e eu acho que não devemos ter medo das ideias inovadoras. Mas quanto mais o tempo passa, percebi que não estou de acordo com algumas medidas dele. Ele podia tentar resolver as coisas de outra forma, não através da força", disse Jena, lojista em Paris.

Nicole assegura que o pior ainda está para vir em termos de manifestações e que a rentrée em setembro será um inferno em França.

A rentrée vai ser um inferno, vamos manifestar-nos todos os dias. Vai ser um caos", prometeu.

Nos museus, cinemas, bibliotecas, piscinas ou ginásios o certificado já é obrigatório, só sendo acessíveis a quem tiver a vacinação completa há mais de sete dias, a quem apresenta um teste PCR ou antigénico negativo com menos de 48 horas ou um teste positivo com mais de duas semanas e menos de seis meses - considerando as autoridades francesas que neste caso a pessoa tem imunidade e risco limitado de contrair Covid-19 e de contaminar outros.

Cerca de três mil membros das forças de segurança foram posicionados ao redor da capital francesa para enfrentar o terceiro fim de semana de protestos contra o passe sanitário, sobretudo ao longo dos Campos Elísios, para proteger a avenida de uma invasão de manifestantes esporadicamente violentos.

As manifestações contra o documento - que a partir de dia 9 de agosto passa a ser necessário mostrar para frequentar a maioria dos locais públicos em França -, estão a ser realizadas em várias cidades do país, sendo que, só em Paris, decorrem quatro protestos separados.

Com o aumento das infeções por covid-19 e das hospitalizações, o parlamento francês aprovou, no domingo passado, a obrigação de possuir um passe para entrar em quase todos os lugares a partir do próximo mês, sendo que, embora as sondagens mostrem que a maioria dos franceses apoia a decisão, a oposição adotada por alguns franceses tem sido aguerrida.

O passe sanitário é um documento que mostra que a pessoa em causa foi vacinada e está imunizada contra a covid-19 ou detém um teste rápido negativo ou prova de recuperação recente da infeção.

A tensão aumentou em frente à famosa casa de diversão noturna Moulin Rouge, no norte de Paris, naquela que pareceu ser a maior manifestação, com filas de polícias a enfrentarem os manifestantes e com confrontos esporádicos.

Enquanto os manifestantes se dirigiam para leste, a polícia disparou gás lacrimogéneo contra a multidão, criando alguma confusão e provocando alguns feridos.

Menos carregada de tensão, uma outra manifestação decorreu noutra zona de Paris, tendo sido dirigida pela líder da extrema-direita, Marine Le Pen, que juntou centenas de pessoas em direção ao Ministério da Saúde.

Entre os que não estiveram hoje presentes nas manifestações destacou-se François Asselineau, líder do partido anti-União Europeia União Popular Republicana e fervoroso militante contra o passe sanitário, mas que, esta semana, adoeceu com covid-19.

As autoridades francesas decidiram criar o passe sanitário na sequência do aumento do número de infetados, devido à variante Delta da doença, considerada mais contagiosa e virulenta.

Na sexta-feira à noite, foram anunciados 24.000 novos casos registados em 24 horas, o que significa um salto significativo em relação aos poucos milhares de infeções diárias que se contabilizavam no início do mês.

Mais de 111.800 pessoas morreram de covid-19 em França desde o início da pandemia.

Em todo o mundo, o número de mortos ascende a pelo menos 4.202.179 mortos em todo o mundo, entre mais de 196,5 milhões de casos de infeção pelo novo coronavírus, segundo o balanço mais recente da agência France-Presse, divulgado na sexta-feira.

Agência Lusa / AG