Dois antigos executivos da France Télécom estão no banco dos réus, acusados de assédio laboral a pelo menos 35 funcionários que não aguentaram o bullying de que foram alvo e puseram termo à vida.

Há 10 anos, Didier Lombard (na foto) e OIivier Barberot, respetivamente ex-CEO e ex-chefe de recursos da France Télécom, os homens fortes da France Télécom (então uma empresa estatal e agora uma das maiores empresas privadas francesas – a Orange), quiseram reduzir a dimensão da empresa e despedir milhares de pessoas. No processo de privatização da empresa, tinham como objetivo cortar pelo menos um quinto dos postos de trabalho: despedir 22 mil dos mais de 102 mil colaboradores. Mas como se tratava de empregados do Estado, cujos empregos estavam protegidos pela lei, não conseguiram despedir a maioria deles.

Diz agora acusação, que os então patrões da telefónica francesa encetaram uma campanha de assédio laboral tamanha que, entre 2008 e 2009, 35 deles não aguentaram e colocaram termo à vida.

Muitos foram colocados “na prateleira”, outros eram convidados a mudar constantemente de local de trabalho e outros ainda eram colocados em funções que nada tinham a ver com as suas qualificações.

É a primeira vez que patrões ou antigos patrões de empresas francesas se sentam no banco dos réus, acusados de assédio moral que conduziu à morte de trabalhadores. A França tem uma das leis laborais mais “amigas” dos trabalhadores.

Se forem condenados, Didier Lombard e OIivier Barberot enfrentam uma pena de cadeia que pode chegar a um ano e uma multa de 15 mil euros.

O julgamento termina a 12 de julho e a sentença deverá ser conhecida daqui a algumas semanas. Mas o caso está já a fazer história em França, onde os protestos dos “coletes amarelos” se tornaram símbolo também da luta por melhores salários e condições de trabalho.

Entre as vítimas, há um jovem de apenas 28 anos. Vestiu literalmente a camisola da empresa, escreveu uma nota de suicídio e enforcou-se com um cabo usado nas ligações de telecomunicações. No dia antes de se suicidar, trabalhou 12 horas seguidas, com um intervalo de 30 minutos.

“Não aguento mais este trabalho e a France Télécom não se podia importar menos. Tudo o que lhes importa é o dinheiro”, escreveu o técnico de telecomunicações Nicolas Grenouville, pouco antes de se matar, em agosto de 2009.

Tímido e introspetivo, gostava de trabalhar sozinho. Ele e as suas linhas telefónicas. Era perfecionista e escrupuloso. Foi colocado no atendimento ao cliente e não aguentou. “Atiraram-no aos cornos do touro, sem sequer ser treinado para o efeito”, alega Michel Ledoux, um dos advogados que representam as famílias das vítimas.

Nicolas é só um exemplo, que se junta a outros como Camille, de 48 anos, que se tirou de uma ponte em 2009, ou a Rémy, que se imolou pelo fogo, em 2011, em frente às instalações da France Télécom, em Bordéus.