Samuel Paty, o professor assassinado por extremistas após defender a liberdade de expressão com exemplos do jornal Charlie Hebdo, terá sido morto por causa de uma mentira. É o que revela esta segunda-feira o francês “Le Parisien”, que teve acesso ao depoimento que uma adolescente deu à polícia.

De acordo com fontes citadas pelo diário, a adolescente que provocou a polémica que culminou com o assassinato do professor de história em outubro de 2020 reconheceu que mentiu e que não assistiu à aula em que Paty terá denunciado exemplos de extremismo islâmico através do jornal caricaturista, também alvo de um atentado em 2015.

Paty, de 47 anos, foi assassinado perto da escola onde dava aulas, em Conflans-Sainte-Honorine, depois de ter mostrado - dias antes - as caricaturas de Maomé do semanário satírico Charlie Hebdo durante uma aula sobre liberdade de expressão. O assassino foi um jovem de 18 anos de origem chechena, que mais tarde foi morto pela polícia.

A denúncia da estudante havia causado uma campanha de pressão e assédio contra o professor (promovida nas redes sociais e pelo pai da adolescente) que culminou no assassinato de Paty. Vários dos seus colegas de sala confirmaram aos investigadores que a adolescente não estava na aula no dia em que os desenhos foram exibidos.

Na mesma linha, os investigadores da subdirecção de antiterrorismo (SDAT) descobriram rapidamente que a estudante nunca tinha frequentado a aula de Paty e que o professor nunca pediu aos alunos muçulmanos que saíssem da sala, tendo simplesmente sugerido que alguns alunos desviassem o olhar .
 

De acordo com o Parisien, a jovem recusou-se a admitir a mentira durante dias, até que a polícia descobriu os motivos da sua negação. Os investigadores perguntaram-lhe se ela não "inventou esta história caricatural para se sentir existente" aos olhos do seu pai, a quem ela estaria ligada sentimentalmente. Os investigadores notaram que a jovem é frequentemente "comparada" com a irmã gémea, descrita como "muito mais diligente".

 "Não se atreve a mudar suas afirmações para não decepcionar a sua família?", perguntaram as autoridades. "Eu menti sobre algo", finalmente confessou.

Os investigadores acertaram. Depois de a mentira ter sido dita, a jovem sentiu-se presa e não confessou até ao último momento. Brahim Chnina, pai da adolescente, revelou ainda nunca ter questionado a história da filha e ter dado rédea solta à sua indignação nas redes sociais. Dez dias depois da lição do professor, Abdullakh Anzorov assassinou Samuel Paty.