Foi no passado dia 14 de setembro: o Wall Street Journal publicava uma grande investigação sobre o Facebook, com base em documentos internos da rede social entregues por uma fonte anónima. A gigante tecnológica dirigida por Mark Zuckerberg saía mal na fotografia: segundo o artigo, o Facebook sabia que o Instagram, propriedade sua, é tóxico para as adolescentes, criando-lhes problemas relacionados com a imagem e aumentando os casos de depressão.

A fonte na qual se baseava a grande investigação foi agora identificada: Frances Haugen, de 37 anos, uma especialista em Ciência de Dados com licenciatura em engenharia informática e um mestrado de Harvard em gestão. 

A ex-funcionária do Facebook escolheu sair do anonimato numa entrevista divulgada este domingo no programa "60 Minutos", explicando por que razão decidiu recolher informação da empresa e partilhá-la com um jornal e com as autoridades norte-americanas antes de deixar a empresa no passado mês de maio.

Havia conflitos de interesses entre o que era bom para o público e bom para o Facebook", disse Haugen. "E o Facebook, uma e outra vez, escolhe otimizar em favor dos próprios interesses, como fazer mais dinheiro", explicou. "Escolhem lucro em vez de segurança".

Frances Haugen foi recrutada pela empresa em 2019, tendo trabalhado nos últimos 15 anos em tecnológicas como a Google ou Pinterest. "Estive em várias redes sociais e no Facebook era substancialmente pior do que já tinha visto", disse ao jornalista Scott Pelley. "A certa altura de 2021 percebi, okay, vou ter de fazer isto de uma maneira sistémica e tenho de retirar informação suficiente para que ninguém questione que isto é real", explicou. 

A antiga funcionária do Facebook copiou então centenas de milhares de páginas da pesquisa interna do Facebook, que provam que a empresa mente quando diz que tem feito progressos significativos contra os conteúdos de ódio, violência e desinformação. 

A versão do Facebook que existe hoje está a dividir as nossas sociedades e a causar violência étnica em todo o mundo", sublinhou na entrevista televisiva. 

Quando chegou ao Facebook, Haugen foi integrada num grupo específico de trabalho designado de Integridade Cívica, que se debruçava sobre os riscos para as eleições presidenciais norte-americanas, nomeadamente sobre a propagação de desinformação e notícias falsas. Mas, depois do ato eleitoral, o grupo foi dissovido. "Basicamente, disseram: boa, conseguimos chegar às eleições, não houve motins, podemos livrar-nos da Integridade Cívica", contou a antiga funcionária, assinalando que, poucos meses depois, houve o ataque ao Capitólio

Não confio que eles queiram efetivamente investir o que precisa de ser investido para que o Facebook não seja perigoso", explicou Haugen. Segundo a especialista, a raiz do problema do Facebook reside numa alteração feita em 2018 ao algoritmo que decide o que vê cada utilizador. Os conteúdos mostrados aos internautas incitam cada vez mais ao ódio, são mais divisivos e mais facilmente inspiram raiva do que outras emoções positivas. 

O Facebook percebeu que se mudar o algoritmo para ser mais seguro, as pessoas irão passar menos tempo no site, vão clicar em menos anúncios e o Facebook fará menos dinheiro", reforça.

Em resposta à entrevista de Frances Haugen, Guy Rosen, vice-presidente do Facebook com o pelouro da Integridade, escreveu no Twitter que a equipa que se debruçava sobre a Integridade Cívica não foi desmantelada, mas integrada numa equipa maior para que o trabalho feito para as eleições pudesse ser aplicado noutros temas, nomeadamente nos conteúdos relacionados com saúde. "O trabalho deles continua até hoje", garante o responsável. 

Já sobre o Instagram, Haugen refere a própria pesquisa interna do Facebook, que chegou à conclusão de que 13,5% das adolescentes admite que o Instagram faz aumentar os pensamentos suicidas e que 17% revelou ter piorado de distúrbios alimentares por utilizar a rede social baseada na imagem.

A própria pesquisa do Facebook diz não só que o Instagram é perigoso para os adolescentes mas que é muito pior do que outras formas de redes sociais", diz Frances Haugen. Em setembro, o Facebook anunciou que iria suspender o projeto de criar um Instagram para crianças. 

Sobre Mark Zuckerberg, a antiga funcionária diz que o líder da gigante tecnológica nunca quis fazer do Facebook uma plataforma de ódio, mas "permitiu que fossem feitas escolhas com efeitos colaterais que tornam os conteúdos de ódio e polarizadores mais distribuídos e com maior alcance". 

Numa declaração escrita enviada ao programa 60 Minutos, o Facebook sublinhou que continua a fazer "melhorias significativas para lidar com a disseminação de desinformação e conteúdo nocivo.

Sugerir que encorajamos conteúdo prejudicial e não fazemos nada não é verdade", refere o comunicado.

Bárbara Cruz