Um grupo de graffiters pintou este domingo um mural em Barcelona, em solidariedade com o rapper Pablo Hasel e contra a censura e a autocensura, com desenhos alusivos ao ditador Francisco Franco, ao rei emérito e outras figuras da transição.

Ao lado das figuras está um escrito a vermelho, onde se pode ler "Espanha é um Estado fascista".

O mural foi pintado no parque dos Jardines de les Tres Xemeneies, no centro da cidade espanhola de Barcelona, e um dos participantes neste protesto criativo é o artista Roc Blackblock, que já tinha pintado um mural em solidariedade a Hasel, com o rosto do rei emérito Juan Carlos, mas que foi apagado por uma equipa de limpeza municipal.

A limpeza deste mural gerou críticas de muitos setores criativos e provocou o pedido de desculpas da Câmara Municipal de Barcelona, com a presidente Ada Colau a assegurar que tinha sido "um erro que não se deve repetir".

Este domingo, após iniciar a nova obra na parede do parque dos Jardines de les Tres Xemeneies, o artista Roc Blackblock disse, em declarações aos jornalistas, que a limpeza do anterior mural se deve a que “alguns temas permanecem intocáveis [em Espanha], como a monarquia, a Guarda Civil ou o Exército".

Sobre os protestos registados nos últimos dias em Barcelona e noutras cidades espanholas, Roc Blackblock defendeu que têm um “motivo claro, protestar contra a censura e em defesa da liberdade de expressão”.

Na perspetiva do artista, a prisão de Pablo Hasel "não é uma anomalia", mas faz parte de uma longa lista de pessoas processadas apenas por se expressarem.

“Hasel, Valtonyc, os titereiros ou o livro 'Fariña'” são algumas das causas que evidenciam que em Espanha “existe um grave problema de liberdade de expressão”, apontou Roc Blackblock, referindo-se a casos em que os tribunais e as forças de segurança intervieram.

Relativamente aos atos de vandalismos das últimas noites, em que uma jovem perdeu um olho e está a ser investigado se foi devido ao disparo de um projétil de espuma, o artista expressou: “Somos chamados de violentos e nos respondem com violência".

O rosto de Franco, uma figura com um uniforme militar coberto por um lençol com a bandeira espanhola, uma coroa de onde saem chamas e um meio rosto, que emerge sobre uma placa onde se lê "The real Spain" ("A verdadeira Espanha"), são algumas das contribuições do grupo de 'graffiters' na parede dos Jardines de les Tres Xemeneies.

Num manifesto conjunto, os artistas que participaram hoje na protesto criativo afirmam que não podem e não querem ficar de braços cruzados relativamente à prisão de Hasel, convidando todos a "irem para as ruas" com as suas ferramentas criativas e a não se deixarem intimidar pela censura, para exigir a liberdade do ‘rapper’.

Cerca de três dezenas e meia de pessoas foram detidas esta madrugada, na Catalunha, pela polícia regional, na sequência de manifestações violentas e ataques a lojas registados durante os protestos contra a prisão do 'rapper' Pablo Hasél.

Numa mensagem publicada através das redes sociais, os Mossos d'Esquadra, polícia regional da Catalunha, adiantaram que a maior parte das detenções ocorreu em Barcelona, envolvendo 31 pessoas. Em Lérida foi detida uma pessoa e duas em Tarragona, sendo as três menores de idade.

Esta noite foi a quinta sucessiva de protestos em Barcelona, tendo a manifestação escalado para motins e saques em dezenas de lojas no centro da cidade, nomeadamente do Paseo de Gracia, onde se concentram as principais marcas de luxo.

O 'rapper' Pablo Hasél, detido na terça-feira na Universidade de Lérida (Catalunha), tornou-se um símbolo da liberdade de expressão em Espanha, depois de ter sido condenado a nove meses de prisão por, segundo a acusação, insultar as forças de ordem espanholas, fazer a glorificação do terrorismo e injuriar a monarquia.

Um total de 102 pessoas foram detidas, das quais apenas uma está presa, e 82 polícias foram feridos nas cinco noites de tumultos na Catalunha, após a prisão do 'rapper' Pablo Hasél.

Dos 102 detidos, 70 são adultos e 32 menores, segundo a polícia catalã.

Na terça-feira, na primeira noite em que se registaram confrontos, a polícia local prendeu 18 pessoas, enquanto no dia seguinte o número subiu para 33.

Nos motins de quarta-feira, oito pessoas foram detidas e, na quinta-feira, a polícia ficou com mais quatro contestatários sob a sua custódia.

No sábado, durante os incidentes com maior impacto até ao momento durante esta vaga de contestação pela libertação de Hasél, foram detidas mais 39 pessoas.

Um grande grupo de manifestantes encapuçados separou-se da manifestação de apoio a Hasél, que reuniu seis mil pessoas no centro da cidade, e subiu o Paseo de Gracia em direção à avenida Diagonal, onde vandalizou e saqueou várias lojas.

/ Publicado por António Guimarães