Por estes dias, George Gao já consegue respirar de alívio, porém ao longo dos últimos meses trabalhou de forma exaustiva na linha da frente do combate à Covid-19. É diretor-geral do Centro para o Controlo e Prevenção de Doenças da China, fez parte da equipa que isolou e sequenciou, em primeiro lugar, o genoma do novo coronavírus e integra o grupo de cientistas que forneceu dados à Organização Mundial da Saúde sobre a doença, de modo a que fosse desenhada uma estratégia para responder à pandemia.

No final da semana passada, depois de uma espera de dois meses, a 'Science Magazine' conseguiu falar com o imunologista e, entre muitas outras perguntas, George Gao não se privou de responder à questão "quais os erros que os outros países estão a cometer? (no combate à pandemia)".

O maior erro nos Estados Unidos e na Europa, na minha opinião, é que as pessoas não estão a usar máscaras. Este vírus é transmitido através de gotículas e pelo contacto de proximidade (...) pelo que se deve usar máscara, porque quando se fala, há sempre gotas que saem da boca. Como muitas pessoas têm infeções assintomáticas ou pré-sintomáticas, se usarem máscara, isso consegue evitar que as gotículas que transportam o vírus escapem e infetem os outros".

A certeza dada pelo investigador tem especial relevância pelo facto de ser o conselho oposto ao da Direção Geral da Saúde, em Portugal, que alega a sensação de falsa de segurança a que a máscara pode induzir e o risco acrescido de contrair o vírus ao manusear os tecidos do equipamento de proteção. Além disso, a DGS já alertou que não há máscaras para a população inteira. Da mesma forma, a Organização Mundial da Saúde desaconselha o seu uso para pessoas que não estejam infetadas. Neste sentido, as teorias contraditórias farão muitos pensar, uma vez que a China, onde grande parte da população usa máscara, conseguiu conter a doença, de tal forma que hoje já não é registado qualquer novo caso de transmissão comunitária.

Na entrevista, George Gao afiança que "o isolamento social é a estratégia essencial para o controlo de qualquer doença infeciosa, especialmente as infeções respiratórias" e opõe-se à ideia de que o governo chinês tenha ocultado informação ao exterior sobre o vírus e a pandemia. 

O especialista garante que "não há evidência para dizer que já havia casos em novembro", o que torna mais frágil a teoria de que os primeiros infetados teriam sido detetados nesse mês, apesar de só serem anunciados ao público no mês seguinte.

Sobre a origem da pandemia, o virologista admite duas hipóteses: "No início, toda a gente pensou que a origem do vírus tinha sido o mercado de peix (em Wuhan). Agora, eu acho que o mercado, ou pode ter sido o local inicial, ou um lugar onde o vírus foi amplificado."

Na entrevista à 'Science Magazine', George Gao deixou, por fim, o sinal de esperança que grande parte do mundo quer ouvir: os medicamentos específicos para combater a Covid-19 vão começar a ser testados já neste mês de abril.

Emanuel Monteiro