Um dos assassinos mais infames da máfia siciliana, que se acredita ter morto mais de 100 pessoas, foi libertado da prisão após 25 anos.

Giovanni Brusca, 64, apelidado de “o porco” ou “u scannacristiani” (o chacinador), que detonou o explosivo que matou o juiz antimáfia Giovanni Falcone em 1992, é um homem livre. Brusca ganhou notoriedade por também ter ordenado o estrangulamento de um menino de 11 anos, cujo corpo foi dissolvido em ácido.

A notícia, anunciada na segunda-feira, gerou polémica em Itália, embora a libertação do ex-assassino da Cosa Nostra fosse esperada e exigida por lei. Em 2000, Brusca decidiu colaborar com os investigadores e, como resultado, recebeu uma sentença reduzida.

Depois de se tornar delator, confessou aos procuradores. “Eu sou um animal. Trabalhei toda a minha vida para a Cosa Nostra. Matei mais de 150 pessoas. Eu nem me consigo lembrar de todos os seus nomes", sentenciou.

Em 1995, Brusca assassinou Giuseppe Di Matteo, de 11 anos, filho de um traidor da máfia, que foi sequestrado em retaliação pela colaboração do seu pai com as autoridades. 

Veja o vídeo da sua detenção.

Depois de ficar preso numa casa por mais de dois anos em condições miseráveis, a criança foi estrangulada e o seu corpo banhado em ácido no que a polícia chamou de “um dos crimes mais hediondos da história da Cosa Nostra”.

Ganhou a reputação de “Chacinador” depois de ter detonado a bomba que em 1992 matou Giovanni Falcone, o lendário juiz de acusação da Itália que dedicou toda a sua carreira a derrubar a máfia. 

A esposa de Falcone e três guarda-costas também foram mortos no ataque que ocorreu depois de o carro por onde o juiz estava a ser transportado perto de Palermo ter sido amarrado com 400 kg de explosivos, detonados por Brusca nas proximidades.

A liberdade concedida a Brusca causou angústia entre os parentes das vítimas da Cosa Nostra e políticos que afirmam que o assassino nunca mostrou evidências reais de se ter arrependido das suas atrocidades.

A esposa de um dos guarda-costas mortos, Tina Montinaro, disse ao jornal la Repubblica que estava "indignada" com a libertação de Brusca. “O estado está contra nós - após 29 anos ainda não sabemos a verdade sobre o massacre e Giovanni Brusca, o homem que destruiu minha família, está livre”, disse Montinaro.

Maria Falcone, irmã de Giovanni Falcone, disse à ANSA: “A nível humano, esta é uma notícia que me magoa. Mas a lei sobre a redução das penas para a colaboração de mafiosos é uma lei que o meu irmão queria e, portanto, deve ser respeitada. Só espero que a justiça e a polícia estejam vigilantes, com extrema atenção, a fim de evitar o risco de que ele cometa crimes novamente. ’’

As revelações de Brusca levaram à prisão de assassinos e de vários chefes da Cosa Nostra, mas o público, especialmente os parentes das vítimas, ainda tem dificuldades em perdoá-lo.  

Brusca foi preso numa vila na província de Agrigento em 1996, por um polícia chamado Luciano Traina. Traina é irmão de um agente oficial que também foi morto pela Cosa Nostra.

“Jamais esquecerei a expressão no seu rosto quando o prendemos”, disse Traina ao Repubblica. “Eu nunca vou perdoá-lo. Porque não acredito que Brusca alguma vez tenha dito toda a verdade. ”

Enrico Letta, o líder do partido democrata de centro-esquerda, disse à rádio Rtl na terça-feira que a libertação é “um soco no estômago que o deixa sem fôlego". Também o líder da extrema direita italiana, Matteo Salvini, manifestou o seu desagrado: “Depois de 25 anos de prisão, o chefe da máfia Giovanni Brusca é um homem livre. Esta não é a 'justiça' que os italianos merecem. ”